Corte na carne: romance de estreia de Marina Monteiro coloca no centro da trama a complexidade da violência doméstica

Em “Açougueira”, assassinato de homem em cidadezinha do interior expõe machismo da sociedade e condenação prévia da mulher em qualquer circunstância 

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“Em Açougueira, a narradora conta seu testemunho de vida e o oferece perante um júri. Essa mulher quieta e observadora, espia a vida por uma fresta e vive a vida por uma fresta. Ir contra Deus, desse jeito, é demais, é ir contra a natureza do homem. Mulher não age assim. Dizem a ela, e contra deus e tudo, ela segue, abrindo passagens. Neste romance, Marina Monteiro trabalha linguagem e forma de um modo admirável e faz emergir uma história inquietante e polifônica.”

Natalia Borges Polesso na quarta capa do livro “Açougueira”

Em uma das cenas mais emblemáticas de “Açougueira” (editora Claraboia, 148 pág.) a personagem principal é incitada a abater e descarnar um boi. O duelo homem-animal presente no imaginário como uma batalha entre a força masculina versus a natureza ganha outras camadas e evidencia a singularidade do romance de estreia da escritora e dramaturga gaúcha Marina Monteiro, que também é atriz, arte-educadora, produtora e gestora cultural. Na trama, quem está em frente ao boi é uma mulher. Ao deslocar as posições sociais e de poder, a escritora apresenta um romance provocativo que evoca discussões sobre violência de gênero e opressão.

Um evento de lançamento está agendado em Florianópolis (SC), no dia 12/7, a partir das 18h30, na Livraria Latinas (R. Padre Lourenço R. de Andrade, 650, bairro Santo Antônio de Lisboa).

Créditos: Manu d’Eça

A obra permeia temas como tradições sociais, relações familiares, paixão, desejo, violência doméstica e justiça. Este último, segundo a autora, é motivo de inquietação constante: “Reflito sobre o papel da justiça, o ideal de imparcialidade, a realidade muitas vezes parcial em uma sociedade tão desigual quanto a nossa”. Uma das inspirações para o livro veio justamente de sua busca por casos de violência contra a mulher na internet, em notícias e reportagens, e a percepção dos resultados de julgamentos desfavoráveis às vítimas. “Comecei a observar como a Justiça prontamente já coloca essa mulher no centro do palco de acusação. Tirar a vida de alguém é um crime que precisa ser punido, assim como violentar uma mulher, física ou psicologicamente, também deve ser. Mas o que acaba acontecendo, na maioria das vezes, é uma culpabilização da vítima”, argumenta. 

“Açougueira” se divide em cinco partes intituladas: “O reflexo no braço dele”, “Coro de vizinhos”, “De fora a fora”, “Coração fazendo goteira” e “Voz escorrendo”. O enredo envolve o assassinato e esquartejamento de um homem numa cidadezinha interiorana onde todos se conhecem. A principal suspeita é a esposa, personagem central da trama. 

A narrativa é estruturada a partir de depoimentos concedidos a uma autoridade, referenciada por todos como “doutor”.  A esposa detalha desde o início do enlace com o futuro marido até a decadência do matrimônio. Suas falas são entrecortadas por declarações pouco amistosas de vizinhos e conhecidos do casal.

Nessa configuração textual, a autora concede intensidade a todos os envolvidos na trama, acentua repetições, imprecisões e exaltações nas falas, pontua trejeitos, cacoetes e postura dos corpos, e revela ainda emoções e personalidade de cada um.  Nenhum deles tem nome, ainda assim, é possível discernir quem é quem. Outro mérito da obra é a composição das cenas. As descrições misturam a aspereza da paisagem à intensidade das emoções experimentadas pelos envolvidos na cena. As metáforas também são destaque e transportam o leitor para diferentes atmosferas. 

Esse recurso narrativo torna-se essencial para que se conceda o benefício da dúvida à protagonista/esposa e adentre nas camadas complexas que existem no binômio relação afetiva- violência. A escritora acredita que “Açougueira” faz o leitor se implicar na narrativa e assumir um lugar. “Para além disso, acho que o livro traz  esse movimento constante de uma mulher que persegue o desejo de ser e sobretudo de fazer diferente e mudar as estruturas”,  revela Marina.   

De fato, a determinação com que a esposa passa a própria vida em revista, incluindo nessa narrativa as partes repugnantes de sua trajetória, evidencia não só a força e perseverança dessa personagem fictícia, mas acima de tudo a coragem da autora em explorar esses temas num romance original, inventivo e marcante. 

Experiência do palco para o livro 

Marina Monteiro nasceu em Porto Alegre (RS), em 1982, e vive atualmente entre as capitais Rio de Janeiro (RJ) e Florianópolis (SC). A autora possui licenciatura em teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), e ainda o título de bacharela em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Marina define-se como atriz, arte-educadora, produtora e gestora cultural. 

Na área da escrita dedica-se à composição de textos literários, dramatúrgicos e roteiros. É autora do livro de formato híbrido “Comendo borboletas Azuis” (Multifoco, 2010) e dos livros de contos “Em nossa cidade amarelinha era sapata” (Patuá, 2019), vencedor do prêmio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES) e “Contos de vista Pontos de queda” (Patuá, 2021), indicado ao prêmio Açorianos e vencedor do Prêmio Minuano de Literatura. “Açougueira” é seu romance de estreia.

A experiência de quase duas décadas no teatro e dramaturgia estão implícitas na criação do livro. A obra é inspirada no espetáculo “Carne de Segunda”, escrito pela autora em 2020.  A transformação do texto em romance ocorreu a partir de uma oficina de escrita literária. O desafio, segundo Marina, era justamente a adaptação da linguagem. “Tive uma grande trava porque cismei que queria me distanciar do teatro, fiquei três meses longe da escrita, e depois percebi que era uma bobagem, pois era da dramaturgia que vinha o romance”, conta. 

Para Marina, o lançamento de “Açougueira”, revela seu amadurecimento como artista. “Por meio do livro pude entender melhor meu movimento literário, minha pesquisa, meus próprios desejos e também admitir mais minhas obsessões estéticas”, frisa, e complementa: “Acho que assim como a narradora da obra eu abri umas brechas e assumi meus caminhos”. 

Confira um trecho do livro (pág. 19):

“Depois soube, foram pro bar, me negociando. Queria saber meu preço, mas os dois se retiraram porque era assunto deles. Mulher não precisa saber quanto vale. Eu e a mãe 

ficamos no escuro da cozinha ouvindo o silêncio da noite, quando o eco da risada se espalhou e sumiu. A mãe não dizia nada, eu olhando a mãe, tentando entender. Tinha umas partes do corpo dela querendo se despregar e eu quase vi um meio riso na boca dela. Tava gostando. Que mãe não gostava? Ia arranjar a filha nova ainda. Mais cedo que as vizinhas do entorno da igreja. Talvez nem precisasse rezar novena. Bastava uma vela pra santinha, em agradecimento. Ia arranjar a filha com homem trabalhador, de braço duro e suado. Homem bom. O suor tem valor. Eu disse, o suor é o começo da minha história.” 

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