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Crítica: Quero ser Reginaldo Pujol Filho

Em busca de um estilo próprio, o escritor geralmente  pega emprestado os estilos de seus escritores favoritos. Para inspirar-se, basta ler umas páginas, talvez um capítulo de algum livro de cabeceira e pronto: formam-se aos poucos as ideias e as palavras certas que o autor procurava para imprimir sua história. As citações de abertura do livro Quero ser Reginaldo Pujol Filho anunciam a experiência que Reginaldo Pujol Filho fez ao tomar emprestado o estilo dos autores Altair Martins, Amílcar Bettega Barbosa, Gonçalo M. Tavares, Italo Calvino, Luigi Pirandello, Luis Fernando Verissimo, Machado de Assis, Mia Couto, Miguel de Cervantes e Rubem Fonseca.

O livro é uma homenagem a seus autores favoritos, que influenciaram-no na escolha de seu ofício. São autores de língua portuguesa e de gerações distintas. Muitos leitores irão identificar os neologismos presentes no conto “Quero ser Mia Couto”, um dos melhores do livro, as expressões gaúchas de “Quero ser Luis Fernando Verissimo” e o papo direto que rola com o leitor em “Quero ser Machado de Assis”, de forma que o narrador perca todo o fio da meada da história.

O conto de abertura, “Quero ser Miguel de Cervantes”, traz a história de um homem que trocou seu nome para Miguel de Cervantes e aventurou-se pelo mundo apresentando-se como o verdadeiro. O conto que homenageia Rubem Fonseca traz uma narrativa em primeira pessoa de um homem que pretende assassinar justamente… Rubem Fonseca. Há também contos sobre a arte de escrever. Em “Quero ser Luigi Pirandello”, o escritor-narrador depara-se com dois personagens que invadem sua casa e exigem uma história. “Quero ser Italo Calvino” traz mais um relato sobre a arte de escrever, dessa vez explorando ideias para um conto sobre Italo Calvino.

Esse livro originou-se do conto “As linhas desnecessárias do círculo”, presente no livro de estreia de Reginaldo Pujol Filho, Azar do Personagem, publicado também pela Não Editora em 2007. Aqui ele troca o conto de nome para “Quero ser Amílcar Bettega Barbosa”. Ele usa como gancho um conto de Barbosa publicado no livro Os lados do círculo, e imagina como seria ter um pedaço da obra original do autor gaúcho.

Todos os contos têm tom irônico e parecem falar diretamente com o leitor, tornando a leitura muitíssimo agradável. O autor nos mostra sua visão de mundo através do estilo emprestado desses escritores, tão caros à nossa literatura, usando metalinguagem e em nenhum momento cansa o leitor. A melhor coisa sobre a literatura contemporânea brasileira é a imensa identificação do leitor com o escritor. Em épocas de Twitter e Facebook, nada como ler um livro, em papel impresso, de um autor que explora situações do cotidiano que também podem acontecer com a gente. Recomendadíssimo.

Em tempo: o autor também organizou a antologia Desacordo Ortográfico (também pela Não Editora) e escreve no blog Por Causa dos Elefantes. O twitter Quero Ser traz trechos e informações sobre a obra e o autor.

FICHA TÉCNICA
Quero ser Reginaldo Pujol Filho
Reginaldo Pujol Filho
Não Editora
144 Páginas

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  1. Só para fazer uma pequena correção: Miguel de Cervantes, Italo Calvino e Luigi Pirandello não são autores de língua portuguesa.

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