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“Dias roucos e vontades absurdas” de Vivian Pizzinga

Uma das mais gratas novidades na cena literária é o livro Dias roucos e vontades absurdas, da escritora Vivian Pizzinga e lançado pela editora carioca Oito e Meio. Vivian não é exatamente uma novata na seara das letras, ela tem textos e contos publicados no Jornal Plástico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP e na Café Espacial. Já publicou também nos dois volumes do coletivo Clube da Leitura, recebeu prêmios literários e teve seu conto, Macarrão Instantâneo, transformado no curta de animação Filho das Flores pelo cartunista Johandson Rezende.

O livro é uma compilação de contos da autora, muitos deles concebidos ao longo de sua carreira literária. Sua narrativa acerta em falar de temas profundos com uma certa informalidade que não os deixa cansativos, e falar sobre temas triviais com uma profundidade que nos faz dar-nos conta do quão relevantes são, ou podem ser. De um modo geral, Vivian fala sobre relacionamentos interpessoais afetivos da amizade ao envolvimento amoroso e o que eles podem acarretar.

Situações do cotidiano também são abordadas, e de forma bastante divertida que faz com que o leitor se identifique e se torne até cúmplice, como o conto R$1,99, em que a autora critica ferozmente o desconforto e o infortúnio das festas de amigo oculto das empresas nessa época do ano. Confraternização que você é praticamente obrigado a participar, em nome da boa política de trabalho. Em uma passagem ela discorre: “final de ano é sempre a mesma lenga lenga, e me acompanha um estado de espírito paradoxal: vontade de aproveitar a chance de recomeço que me inspira e uma forte ansiedade formigando nos pés e nas mãos pelo desconforto de ter que sorrir mais do que eu gostaria e desejar ‘boas festas’ a quem não se tem vontade de esboçar sequer um ‘olá’ sem convicção. A cereja desse bolo indigesto é o amigo oculto do trabalho. Esse mesmo que já vai começar”.

Dias roucos e vontades absurdas - Vivian-PizzingaOutra crítica do cotidiano é Funcionário, em que o alvo é o caos que uma cidade como o Rio se transforma na época do carnaval, onde as pessoas são impelidas a instaurar a desordem, emporcalhar a cidade, só porque … é carnaval. Até mesmo a questão da impontualidade das pessoas (sobretudo aqui no Rio) é abordada de maneira inteligente e divertida.

O fato de ser formada em psicologia de certo ajudou e muito a autora nessas pequenas análises antropológicas que são seus textos. Entender da psique humana nesse caso lhe fora extremamente útil, mas o seu maior mérito é justamente não tornar isso um ensaio acadêmico e ao mesmo tempo não ser superficial demais. Para isso se utiliza de um humor afiado e até mesmo de matizes surrealistas em alguns momentos.

Segundo Vivian, a idéia foi dividir o livro em duas partes com treze contos cada um, aproveitando o título do livro que é também título de um dos contos, porque o livro, apesar de seguir uma unidade, pode ser dividido em duas tendências de contos. A unidade que rege o livro são contos que passeiam pela neurose, pelos indivíduos tomados por cismas, paranoias, ou por personagens que lidam com a neurose e cisma alheia, como por exemplo, o conto do psiquiatra (a loucura é uma sensação térmica). Mas, dentro dessa unidade, Vontades Absurdas procura conjugar os contos em que predominam os personagens com vontades mais loucas, que cedem a impulsos absurdos, como diz o nome, ou que tem manias e cismas (Uma ciência do atraso, O Funcionário, Término, A Loucura é uma sensação térmica). A parte dos Dias Roucos são os contos que tendem mais a narrativas e personagens introspectivos, uma narrativa mais voltada para si mesma.

Dias roucos e vontades absurdas é leitura de bom gosto, inteligente, crítica, que muitas vezes lembra um filme de Woody Allen, com aqueles elementos da literatura, da psicologia e do cinema clássico para dar embasamento às análises feitas ao longo da narrativa, e nos faz pensar “puxa, como somos estranhos e complicados.” A reação imediata pode ser a revolta ou a gargalhada, mas nunca a indiferença.

 

 

 

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