Art. 214 do Código Penal Brasileiro: Atentado violento ao pudor;
Ditadura Militar: cárcere ao livre arbítrio;
Iniciação da Literatura na Educação Brasileira: um estupro mental.

 

Seja lá qual for o nome jurídico que vocês queiram DAR ao ATO, assim configura-se o nosso primeiro contato com a literatura: 90% imposição – 10% obrigação, que é igual a: 100% trauma e 0% prazer.

É um prato feito pior que vingança, onde o deleite do gozo não existe.

– S-E-X-O.

Ouvimos tudo do ponto de vista alheio, mas queremos praticAR, sentIR e tER nossas próprias experiências. A voz da oração sou eu, logo quem escolhe…

A primeira vez geralmente é uma lastima – traumas meus -. Você vai, se veste de expectativas, transfigura o medo do desconhecido em pensamentos pervertidos, toma banho, se perfuma, se depila, se veste…

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Lá nos primórdios da trajetória escolar – a remontagem a um passado paleolítico é totalmente intencional – quando passamos a fase do videogame e enfim, ingressamos no ensino fundamental, somos agraciados com uma lista de livros PARA (paralisia!) DIDÁTICOS (?), que temos quer ler – em tempo recorde – ou, como eu já fiz e você com certeza já fez, morrer no resumo da obra disponível no Google.

‘Laranja’ Barreto, Zé e suas mulheres, Amado Jorge, Machado… Biscoitos finos!

A lista de grandes escritores da literatura nacional é vasta, permeada de vírgulas. As obras primas do seio literário estão ali, para nos lambuzarmos em um suntuoso banquete, que, infelizmente no final das contas acaba sendo intragavelmente indigesto. Não que o ‘menu’ ‘made in brazil’ não seja bom, longe, longe, bem longe disso. Mas o que faz com que ler cada um daqueles livros seja um martírio, tão quanto é decorar a tabuada, é justamente a obrigatoriedade do ato. A leitura deixa de ser um ATO espontâneo do aluno, à ser cultivado no decorrer da sua vida escolar, e se torna mais um dever de casa que ele deve realizar para ao final de cada unidade fazer bem o seu resumo, responder as questões da prova e num futuro próximo passar na ‘malha fina’ do vestibular. O roteiro é tão pratico como as regras do banco imobiliário.

Não li a maioria dos livros da minha época de estudante. E não me arrependo por isso!

Não era a hora, era uma ação anti-literária (…), era uma banalização.

Os que consegui chegar até os agradecimentos finais, sequer lembro o prólogo, tamanho era meu interesse.

Até a um tempo atrás – mesmo gostando de escrever desde pequeno – não era muito cânone ao hábito de ler. E ainda sofro do complexo da meia página. Inicio a leitura de um livro, começo em um ritmo disciplinarmente frenético, fico vários dias sem possuí-lo… Quando sucumbo a abstinência, e volto, tenho que ler do início porque já esqueci a premissa básica da estória.

Tem livros que não foram escritos para serem devorados, precisam ser degustados, saboreados a cada passar de folha, sentindo cada mordida, cada minuto da salivação, cada suar dos dedos…

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… Aconteceu comigo quando fui embarcar para ‘Budapeste’. Com o passaporte em mãos, as passagens compradas de um cambista, de pseudônimo Chico Buarque (…) Com medo de ficar preso na alfândega e me embaraçar na única língua que o diabo respeita, rasguei o céu. Iniciei o trajeto em um mergulho vertiginoso. Quanto mais mergulhava na narrativa, mais eu me perdia nela.

‘Eu nunca tinha visto’, página 35 do livro. De fato, nunca tinha visto um livro que me deixou assim, atento a cada parágrafo, confuso, tendo que agarrar o fio da meada no dendê para não perdê-lo… A coceira foi forte. Por isso fiz uma escala e continuarei a viagem no próximo vôo.

Desabrochei uma flor. Humana e poética.

Andréia é lindamente humana e essencialmente flor.

Tão prazeroso é ler (sentir) uma poesia e por ela enxergar uma vasta ‘Horta’ vital para nossa fome.

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Ah, Clarice! Demorei tanto tempo para descobrir você. Mas, tudo bem, não choremos a interferência das ondas sonoras do rádio. O que importa é a intensidade da revelação, não a precocidade do encontro.

Pobre Macabéa! Apaixonei-me pela sua riqueza. Sem níqueis, sem vinténs, sem reais… Cheia de conflitos, de medos, de subjetividade… Da real luz da nossa riqueza, a solidão.

A Hora da Estrela’ é a melhor hora. É na morte que brilhamos. Até então, tudo que precede esse parto é simplesmente uma tentativa de acender uma vela e se guiar pelo feixe de luz imaginário.

Escolhi Antônio sem arrependimento póstumo. Seus guardanapos que me tocaram os lábios grossos. Como Narciso frente a si nas águas cristalinas do seu pecado, Antônio muitas vezes era reflexo de mim e do meu copo vazio na mesa do bar.

A literatura não deve ser tratada como uma mera obrigação curricular. Da mesma forma que aos 16 anos os jovens são aptos a escolher em quem votar, e são autores conscientes dos seus atos – grifos meus -, os estudantes também são aptos a escolher os livros que querem ler.

No meio do caminho viu que não curtiu a viagem? Não perca seu tempo chegando ao destino final. Feche, pegue outro e viaje! A ‘grade’ do ‘sistema carcerário educacional’ não é uma prisão perpétua.