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“FIM” e o anagrama de começo subvertido no título da obra literária

“Toda vez que vejo um aposto extenso, cheio de adjetivos e multifuncional desconfio, fico com os dois pés atrás, com as mãos paralisadas…”.

Vivemos uma época em que ser polivalente é um desejo coletivo, privilégio de poucos – bem poucos. E todo mundo faz questão de ‘narcisicamente’ se auto definir como tal.
Sicrana: modelo, apresentadora, cantora…
Fulano: ator, diretor, escritor, produtor…
O erro crasso desses ‘artistas’ é querer vender a última fila como se fosse a primeira, e gabar-se pela variedade do espetáculo que na maioria das vezes se revela um samba mambembe de uma nota só.
Mas, em meio a essa overdose de seres artísticos multifacetados e polivalentes e camaleônicos – geralmente em ordem inversa – (repare que sempre o primeiro é o que menos de fato a pessoa tem aptidão) sou apresentado ao lado “E” da @tijucana Fernanda Torres.

“Não era espectador assíduo dos Normais por ser normal demais naquela idade (devia ter uns 14, 15 anos), mas já percebia o poder da anormalidade feminina em cena (…). Anos depois comprovei minha percepção adolescente”. 

Ela é uma atriz de inúmeros recursos cênicos (como poucas). A harmonia do seu leque de interpretações é fruto de um talento nato e uma preguiça inexistente. Cada partitura corporal, cada máscara facial a faz dançar na tênue linha que une a comédia e o drama. Ainda assim, as constatações acima não me isentaram de titubear diante das cento e vinte páginas que me encaravam na estante da livraria.
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O título do livro nos leva instantaneamente ao ponto final das orações. Três letras que sentenciam a única certeza dessa passagem. A secura do título esconde um anagrama travestido. “Fim” nada mais é do que o próprio começo.
A empatia rolou solta a cada virada de página. Em muitos momentos me vi naqueles ‘jovens senhores’. Ora em Álvaro, Silvio e Ribeiro, outrora em Neto e Ciro. Coisas que eu fiz – mesmo que em menores proporções e doses – e coisas que queria ter feito, experimentado e não fiz (ainda!).
O despojamento do grupo de amigos reflete diretamente nos diálogos e na sua alvenaria. O tom despudorado é fruto natural das intensas relações ali escancaradas, dos flertes mal resolvidos, amores jamais esquecidos e verdades jogadas na face.

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A linguagem coloquial, direta e crua imposta sem dolo pela @tijucana é um tiro certeiro na veia narrativa do romance. É a expressão da contracultura do ‘mimimi’ literário característico de alguns romances livros que saem a toda hora em suas longevas coletâneas redundantes e reticentes.
‘Fim’ – em corte seco – é um início de trajetória literária plena, de vísceras próprias, e um presente a nós leitores ávidos por um romance profano, tesudo e multimídia.

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