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FLIP 09: Modos de Olhar, dia 02/07/09 (Parte II)

FLIP, 02 de julho de 2009, quinta-feira.

Não é para discutir, é para decorar.

Depois de passar pela velhinha com náusea e clamando por remédio no ônibus de viagem, um velhinho supostamente pedófilo puxando assunto na madrugada de quarta-feira enquanto bebíamos cachaça Gabriela e, finalmente, por uma certa despersonalização à noite, momento em que esqueci quem eu era, onde estava e que pessoa seria a Deborah, que dividia o quarto comigo, aterrisso sem hematomas na minha primeira mesa da FLIP 2009: Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira, mediados por Paulo Roberto Pires, falando sobre separações e amor.

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Nessa mesa, todas as grandes questões da filosofia (e quiçá da psicanálise), o universal de cada vivência singular, foram, de algum modo, abordadas ou evocadas: amor, desamor, criação, vida, arte, morte e até Deus. Mas foram precisamente as indagações de Domingos de Oliveira que me fizeram pensar em Johandson e me lembrar de mim, e pensar em mim e me recordaram Johandson (esse desenhista incansável, que por um erro dos dados que algum Deus jogou em sua brincadeira com o mundo, não pôde estar com a gente nestes dias, mas que está, por outro lado, sempre presente, já que seu quartinho portátil de Copacabana tem sido tema recorrente de nossos debates noturnos). Domingos, então, pergunta:  por que o amor acaba? Por que dói tanto quando o amor acaba? E o que dói quando acaba o amor? O amor é mesmo necessário? Entrecruzando questões e vida, diz ainda que ‘sofreu muito’ em todas as suas cinco separações. Rementendo-nos à filosofia, nos conta das fases da separação, parafraseando Elizabeth Kubler-Ross em suas fases sobre a doença (negação, negociação, revolta, aceitação e… estado de graça? A memória pode inventar…). Separar é sofrer, ainda que todos os casais queiram se separar e todos os solteiros queiram encontrar seu par, ele nos conta, deixando seus óculos caírem inúmeras vezes nessa manhã. Todos os casais querem se separar e isso mostra o quanto se amam. Domingos não deixa de confessar que continua querendo se separar da Priscila, mas morre de medo de que isso aconteça.

E nisso tudo, ouvindo suas graças e histórias, começo a lembrar de Johandson e a lembrar de mim, penso em sua luta e sobretudo no enorme afeto que existe dentro daquele coração gigantesco e desenhista, e inevitavelmente vou acrescentando outras indagações: por que o inviável às vezes cisma em se encarnar num relacionamento onde o amor, pasmem, não acabou? E por que esse inviável e esse quê de insustentável (nada leve, por vezes) faz com que algo deva se acabar, ainda que o amor por ali passeie e ronde e insista em ser (esse sim – o amor – leve e sustentável)? Que diabos quer o inviável com o amor dos outros? Domingos de Oliveira é a favor da vida e quanto a isso não abre mão: ‘não é pra discutir, é pra decorar’. É a vida o que importa e, mesmo no auge da vontade de morte, há que se lembrar de toda a felicidade possível. Vou me lembrar sempre dessa pulsão de vida para aprender, de fato, que não pode, não deve!, haver nada da ordem do inviável, do impossível e do improvável que emperre e esmoreça um amor que está só esperando mais terreno para crescer e vigorar (ainda que a pergunta latente queira se insinuar o tempo todo – e o amor, o que é isso e de que se trata?).  É preciso rechaçar esse inviável e abraçar o imponderável que norteia isso tudo. Assim como a autonomia das mãos e dos personagens devem levar a cabo o ato da escrita, como defende Domingos de Oliveira, há que se pensar, talvez, que o casal é maior do que os seres humanos que o constituem.

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Chove nessa tarde de quinta-feira em Paraty, ligo para Johandson para ouvir sua voz, tomo um café e coloco sobre o frigobar da simpática pousada em que estou instalada este laptop que me intriga e ri de mim (é o laptop de Dani e Maurício e aqui, nesta cidade, todos somos vizinhos, felizmente). Lembro das palavras de Domingos e digo: em Paraty, só falta o Johandson aqui, pra irritar e abraçar todo mundo ao mesmo tempo, desenhar, jogar adedanha com nomes de filmes e enfim nos explicar onde ficam, de uma vez por todas, janela, televisão e banheiro em seu quartinho portátil.

À guisa de PS. Desculpem os que não conhecem Johandson, mas, como Domingos se utiliza de sua vida para criar obras deliciosas, peço licença para me utilizar da minha para tentar cometer uma crônica sobre esta quinta-feira da FLIP 2009.

Por Vivian H. Pizzinga para Johandson, participando do lançamento do livro Clube da Leitura: Modo de Usar, Vol. 1,  direto da FLIP 2009.

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4 Comentários

  1. Minha amiga,
    que legal! Essa ideia de que os casais estão sempre querendo se separar é bem interessante.
    Mas aí, deu pra entender os murmúrios de Domingos?
    E, afinal, quando é seu aniversário? Quando vai ser o lançamento do livro?
    Nem tava ligando, mas depois que vi umas pequenas sinopses de cada um dos contos achei que deve estar maneiro. Enfim, quero te dar os parabéns, ler o livro, comprá-lo e ser feliz. Só não consegui ler aquele e-mail que explica como conseguir tudo isso. Tava muito grande…
    Um abraço.

  2. Gostei do lançamento. Depois você publuica no site sobre como comprá-lo.

    Sempre querer se separar? Não tinha pensado nisso! Já ouvi sobre pessoas dizerem a respeito da vontade de econtrar um par: muitos intensamente, outros poucos, alguns de maneira quase nula (se assim não for). As relações humanas realmente são muito complexas, são difíceis de definir as causas da sua existência, ou se, até mesmo, possui alguma finalidade além da própria satisfação das nossas necessidades afetivas, transcendendo as questões sociais que isso tudo envolve.

  3. Você escreve demais! Como disse Johandson… é para ler, amar, chorar, arrepiar. E parabéns ao Johandson. Como pessoa, como desenhista, como alguém de inspirar tudo isso!

    Quero muito o livro que está sendo pré-lançado aí. De preferência com autógrafos de todos que estão escrevendo e ilustrando.

    Parabéns à autora. Parabéns à turma do Clube da Leitura Baratos da Ribeiro. Vocês são, sem dúvida, o maior barato…

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