em

FLIP: Modos de Olhar – Paraty: lado-B, out-takes e alternative mixes

- bicicletas no amarelo - FLIP: Modos de Olhar – Paraty: lado-B, out-takes e alternative mixes

A FLIP não é um lugar, tampouco um momento no nosso calendário literário. Na FLIP, naquela mesma Paraty, ao mesmo tempo, cabe ao sujeito escolher entre vários universos paralelos, onde (des)aventuras bastante diversas o aguardam. Não me refiro a tal subjetividade de cada um. Ok, “em cada cabeça uma sentença”, etc & tal, e é das digressões e turbulências emocionais suscitadas em cada um de nós que trata essa série de relatos intitulada “FLIP: Modos de Olhar”. Mas o presente texto tem outras pretensões. A primeira é a de reunir as melhores dicas que este veterano de cinco edições tem para oferecer para otimizar a próxima viagem do amigo leitor ao festival literário mais importante literário do país. No fim do artigo, segue um Box com telefones e endereços.

Objetivo mais nobre, no entanto, é corrigir a grande imprensa (pois é, acordei besta hoje!), que, ao longo dos anos, tem ignorado o que podemos chamar de “Lado B” de Paraty. Fora da ficção, há outras Paratys (ou Paraties?) que também perturbam (2 quase favelas, a Ilha das Cobras e, vejam só, a Mangueira), intrigam (a família alemã que toca o badalado restaurante tailandês, onde trabalham uns turcos e uruguaios), impressionam (a família Garcia que se sustenta com os bombons vendidos pelo filho mais velho, de 13 anos, de mesa em mesa, de bar em bar), divertem (tentativa de penetrar uma festa da aristocracia local num veleiro) e exigem atenção pela tremenda seriedade. Nessa última categoria, se inclui a revoltante situação em que estão os estudantes da rede pública que habitam as inúmeras ilhas da região – justiça seja feita, a coluna Gente Boa do Joaquim Ferreira dos Santos deu hoje notinha sinalizando o problema.

Mas não sou estraga-prazeres, então lanço uns confetes e serpentinas para celebrar a Festa Literária Internacional de Paraty antes do tal papo reto. Portanto, em ordem decrescente de glamour:

A Literatura

Produzindo a retumbante festa de pré-lançamento do nosso livro, não sobrou muito tempo e nem espírito para as mesas redondas e palestras. Mea culpa feita, ousarei alguns pitacos. Bruno Correa, o DJ convidado do nosso fuzuê e editor da Intrínseca, acertou no diagnóstico quando se queixou do número reduzido de convidados. É claro que os autores têm suas idiossincrasias, e há oradores com carisma suficiente para segurarem sozinhos uma platéia por horas a fio, mas em geral é a conversa e o debate que trazem à tona o melhor de cada um.

- monstro literario mexido - FLIP: Modos de Olhar – Paraty: lado-B, out-takes e alternative mixesA mesa que valeu minha ida a Paraty este ano, por exemplo, foi a do António Lobo Antunes. Se meu avô José não fosse tão intrigante e encantadoramente sisudo, desejaria ter como avô o Seu Lobo Antunes. Apesar de nunca ter lido um romance seu, tinha a impressão de um sujeito taciturno, pelos temas pesados e pela perspectiva amarga que se insinuavam em sua prosa quando a folheava. Que surpresa me deparar com um senhor risonho, com aquele jeitão espontaneamente desajeitado, como se mineiro fosse, sempre com um causo divertido na manga, pontuando um discurso muito lúcido e crítico, mas sempre subordinado a um certo prazer de viver. Escrevo isso pensando no retrato que Lobo Antunes pintou dos amigos brasileiros que viveram em Lisboa (João Ubaldo cozinhando uma feijoada para as visitas às 2 da manhã) e às recorrentes piadas sobre seus próprios infortúnios (como quando um editor americano lhe disse: “Não li seu trabalho, mas publicarei assim mesmo. Se for ruim, não compro mais nenhum título desse seu agente.”). Ninguém viu a hora passar, e o autor até se esqueceu de ler um trecho da obra que acaba de ser lançada no Brasil. Mérito do mediador Humberto Werneck, que transformou o palco na sala de estar em que 2 amigos jogavam conversa fora. Sorte nossa.

Já a mesa estrelada pelo biólogo Richard Dawkins rendeu pouco, mesmo com a mediação muito competente do correspondente internacional Silio Boccanera. O erro foi imaginar que Dawkins seja um polemista como foi Paulo Francis. Dawkins é um grande professor e cientista que não foge da briga quando botam em cheque suas crenças e teses, mas sem um antagonista que o cutuque, sua palestra se torna o que ele gostaria que todas fossem: uma aula de história natural, uma defesa das idéias de Charles Darwin. Simpática (ele é muito espirituoso), mas dispensável para quem costuma sintonizar o canal a cabo da National Geographic, já leu seus livros ou foi um bom aluno nas aulas de ciência.

Aliás, percebi que existe uma dificuldade de se lidar com questões atuais de foro político e histórico. Os debates / entrevistas com autores de livros jornalísticos e de ficção ligada a episódios reais ficam sempre aquém do satisfatório. Mesmo que o sistema de tradução não tivesse entrado em colapso na mesa com Ma Jian e Xinran, a oportunidade de se discutir a ditadura comunista chinesa ainda teria sido desperdiçada, acredito. O mediador Ángel Gurría-Quintana perguntava e perguntava, mas em essência não parecia ter mais do que 3 dúvidas: 1) foi difícil sair da China? 2) Foi difícil de acostumar com a vida no Ocidente? O autor tem direito de falar da China sem viver lá? Como de praxe nos temas políticos, o mediador parece não ter feito a lição de casa, ou desconhece a Wikipedia.

Apesar de Manuel Bandeira ter sido o homenageado desta edição, a programação acabou dando a tradicional pouca trela para a poesia, e o tema realmente recorrente nas mesas foi outro: a exposição na arte da própria vida íntima do autor. Um terço das mesas de sábado e domingo debateram os (de)méritos de se usar a própria vida sexual, por exemplo, como matéria prima para literatices. Domingos de Oliveira só pincelou o assunto, já que seus filmes – como a obra prima “Todas as mulheres do mundo” – prestam sempre tremenda homenagem às suas ex – Leila Diniz naquele caso -, por mais que lave alguma roupa suja.

Gay Talese fez sempre tão incrivelmente bom jornalismo que talvez devesse ser poupado de ter o dedo alheio apontado em sua direção, acusando-o de ter sido mau marido. Mas de fato, desde “A mulher do próximo”, de 1981, onde descreveu seus peripécias extra-conjugais, ele tem escolhido temas cada vez mais “caseiros” para investigar. (E a julgar pela voz embargada quando o mediador perguntou se era mesmo necessário ter feito a esposa passar por situação tão constrangedora e humilhante, Talese já sofre o suficiente quando só, com seus botões.) Já os franceses Sophie Calle e Grégoire Boullier se fizeram de réus e nos fizeram de juízes por força de sua própria, assumida e entusiástica vontade. A artista plástica usou o e-mail que Grégoire usou para lhe chutar a bunda como peça chave de seus trabalhos e o escritor revidou escrevendo um livro igualmente indiscreto. Eu, que levei anos para descobrir que Lou Reed, um dos meus heróis maiores, é casado com a Laurie Anderson, e que só sei da mulher do meu roqueiro predileto, Bowie, que é ex-modelo e africana, ignorei a mesa. Por sorte, acidentalmente acompanhei a mesa de outra presepeira literária, a Catherine Millet.

Uma das vantagens na profissão de psicanalista parece ser o cartão branco para dizer grosserias. Leiam como elogio. Nessa época em que, em nome da auto-estima, as pessoas embarcam nas mais desvairadas idéias (não raro megalomaníacas) a respeito de si, sem que amigo algum lhes corte as asas, é justo que alguém seja pago para desferir uns bons socos no estômago da galera. Eu invejo e temo os psicanalistas. Entrevistando a Catherine Millet (crítica de arte que descreveu em livro sua agitada vida sexual nos anos 70), Maria Rita Kehl estava incumbida de filtrar perguntas enviadas pela platéia, e as utilizar em seu interrogatório. Já havia classificado uma pergunta como bizarra (“o que você pensa da virgindade?”), que acertadamente usou para diversão geral (inclusive da entrevistada, que, oscilando entre atônita e enternecida, respondeu de forma singela após tropeçar no próprio riso). Anunciando uma dúvida patética, mas recorrente nos papeizinhos recolhidos entre a platéia, Maria Rita perguntou se a autora seria capaz de imaginar aquelas orgias caso não as tivesse vivido. A resposta – “Não teria me interessado pela vida sexual de um estranho” – faz eco à minha opinião sobre este tipo de livro, incluindo o dela.

(Um aparte, contudo: acredito piamente na verdade como qualidade fundamental da arte. Nunca fui de ler teóricos – e nem tenho base para tanto -, mas me marcou muito uma conferência disponível em livro de Martin Heidegger, intitulada “Sobre a obra de arte”. Com surpreendente clareza, o filósofo alemão propõe a arte como uma via de acesso à verdade mais essencial – uma que nem as ciências exatas alcançam. Mas não confundo verdade com fatos. A tentativa de incluir factualidade na literatura só me parece justificável para autores com algum objetivo político, de transformação social ou divulgação jornalística.)

- flip livro de cabeceira - FLIP: Modos de Olhar – Paraty: lado-B, out-takes e alternative mixesPor fim, vale uma pequena digressão sobre o universo feminino, inspirada pela mesa com Catherine Millet e Maria Rita Kehl. O último livro da francesa trata do ciúme atroz que a dominou depois que descobriu que seu marido também dava os seus pulinhos. Ela contou como teve que enfrentar seus tabus particulares, apesar de ter tido uma vida sexual tão heterodoxa e ousada. Ficou chocada não apenas pelo marido ter vivido na clandestinidade, o que ela assumia abertamente na relação conjugal. Dor maior foi saber que ele trepava com suas amantes na cama do casal. Ri comigo mesmo dessa mulher, que se toma e é tomada como tão liberal e despojada, por cair num clichê tão besta, que é a obsessão feminina por asseio. Acho que a maioria dos homens considera um traço neurótico essa mania das mulheres com roupa de cama limpa, essa fobia de seres rastejantes, microscópios e gosmentos. Mas a gente pensa que deve ser resultado de uma programação genética para que elas desempenhem melhor o papel de mãe. Afinal, a máquina biológica delas é realmente mais refinada e complicada que a nossa. É incrível como somos todos simplórios, aqui e ali. A propósito, Catherine continua casada.

A FLIP de 2009 terminou com a tradicional roda em que os convidados lêem trechos de seus romances prediletos. O quórum no palco foi pequeno, e faltou um bom contador de histórias do naipe do Neil Gaiman (que, no ano passado, lavou nossa alma com um fantástico livro infanto-juvenil inglês). A exceção foi Rodrigo Lacerda, que leu um belo texto do João Ubaldo Ribeiro, que descreve a vida amorosa das baleias.

Por Maurício Gouveia, participando do lançamento do livro Clube da Leitura: Modo de Usar, Vol. 1, direto da FLIP 2009.

Leia na parte dois deste artigo:

“Vida de Turista: Como escapar das roubadas” e “Um quase apartheid: A Paraty periférica versus A Paraty para inglês ver”

alguém opinou!

Deixe sua opinião!

Deixe sua opinião

Avatar Escudeiro

Publicado por Equipe Ambrosia

Ambrosia é uma plataforma colaborativa para inspiração, produção cultural.