Myriam Scotti acompanha trajetórias femininas na Amazônia

A escritora manauara Myriam Scotti lança “Sol abrasador prepara solo fértil” (editora orlando), livro de contos que coloca no centro da narrativa mulheres amazônicas marcadas pelo trabalho precoce, pela migração e pela resistência cotidiana. Entre o interior do Amazonas e a capital Manaus, a autora constrói histórias que atravessam diferentes períodos históricos e revelam como…


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A escritora manauara Myriam Scotti lança “Sol abrasador prepara solo fértil” (editora orlando), livro de contos que coloca no centro da narrativa mulheres amazônicas marcadas pelo trabalho precoce, pela migração e pela resistência cotidiana. Entre o interior do Amazonas e a capital Manaus, a autora constrói histórias que atravessam diferentes períodos históricos e revelam como os ciclos de exploração econômica e desenvolvimento da região impactam diretamente a vida feminina, moldando desejos, frustrações e estratégias de sobrevivência.

Com uma prosa que alterna lirismo e aspereza, a obra percorre do auge da borracha aos dias atuais, sem recorrer à romantização da floresta ou à representação das mulheres como vítimas passivas. As personagens surgem como sujeitos complexos, atravessados pela maternidade, pela solidão e pela busca por dignidade em um território marcado por desigualdades profundas. Contos como “Terra Prometida” e “O Soldado da Borracha” evidenciam conflitos sociais e ambientais sem perder de vista a singularidade de cada trajetória. O livro conta com apresentação da escritora e jornalista Bianca Santana e texto de orelha da escritora e crítica literária Thaís Campolina, que destacam a inteireza, a contradição e a potência dessas mulheres diante das estruturas que as cercam.

Nascida em 1981, em Manaus (AM), Myriam Scotti é escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Vencedora do Prêmio Literário de Manaus 2020 com o romance “Terra Úmida”, teve obras selecionadas pelo PNLD e foi finalista de prêmios como o Pena de Ouro (2021) e o Off Flip. Autora também do juvenil “Quem chamarei de lar?” e do livro de poemas “Receita para explodir bolos”, Scotti escreve profissionalmente desde 2014 e atualmente desenvolve dois novos romances, consolidando uma trajetória literária ancorada na experiência amazônica e atenta às estruturas de poder que atravessam seus personagens. 

Abaixo, a autora fala um pouco sobre a presença feminina em seu novo livro e como estas mulheres são atravessadas pelo território em que vivem. 

Em “Sol abrasador prepara solo fértil”, as mulheres amazônicas aparecem atravessadas por trabalho, migração e ciclos de exploração. Como você enxerga a relação entre gênero e modelo econômico na Amazônia?

As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na economia da Amazônia. No início do século XX, por exemplo, elas foram imprescindíveis para o processamento de castanha nas fábricas, sendo cem por cento da função ocupada por mulheres. Além disso, sempre fomos protagonistas no uso sustentável da floresta, transformando açaí, castanhas e óleos em biojoias e cosméticos, sem falar na presença maciça das mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas responsáveis pela agricultura familiar e extrativismo sustentável. Na capital, as mulheres são força de trabalho no Distrito industrial e no comércio. Várias empresas relatam que seu quadro de funcionários é composto majoritariamente por mulheres. Ou seja, há muito que as mulheres amazônidas são protagonistas da própria vida, da economia local e fundamentais para o crescimento da região.

Sua obra evita tanto a romantização da floresta quanto a vitimização das mulheres. Por que é politicamente importante disputar essas duas imagens tão recorrentes sobre a Amazônia e sobre as mulheres nortistas?

Nem a floresta nem as mulheres merecem ser reduzidas a adjetivos que não permitem conhecermos a complexidade de ambas. Afirmar que a floresta é exótica e que as mulheres são frágeis e eternas vítimas em nada contribui para que os estereótipos reducionistas mudem e se complexifiquem. Procuro escrever a partir da observação e ao longo dos anos compreendi o quanto floresta e mulheres passaram tempo demais sendo mal compreendidas e interpretadas. É preciso desestruturar-se, como bem aponta a ativista e escritora Eliane Brum, mesmo que seja arriscado, pois, diz ela, em sua obra Banzeiro Okotó, desestruturar-se significa que “você já não pode se conformar a uma estrutura de pensamento único. E com isso, jamais voltará a se sentir confortável, talvez nem mesmo poderá voltar a ser coerente. Penso que a reconstrução das narrativas é tão indispensável quanto a alteração de nossas certezas em relação à floresta e às mulheres, daí minhas obras desejarem mostrar outras perspectivas e possibilidades para ambas.

A literatura produzida no Norte ainda enfrenta barreiras no circuito editorial brasileiro. Que estruturas de poder — simbólicas e materiais — você identifica nesse apagamento das escritoras amazônicas?

Acredito que enfrentamos muitas vezes o descaso do mercado editorial em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-São Paulo e adjacências. Costumo participar de feiras literárias na região sudeste e o que mais ouço quando falo de onde venho é “nossa, você veio de longe, né?” Pergunto: longe para quem? O que é longe? Ainda mais quando se tem a tecnologia encurtando distâncias. Não compreendo, por exemplo, podcasts literários que não abrem espaço para quem é de fora e optam por entrevistas exclusivamente presenciais. Não entendo revistas que não ampliam seu olhar e só escolhem mais do mesmo para todas as suas edições. É preciso haver mudança de pensamento naqueles que ocupam os lugares de prestígio e poder no cenário cultural e literário para que outras vozes também consigam seu lugar ao sol no mercado. Não é falta de interesse do leitor, é escolha de direcionamento de quem dita o que deve ou não ser lido.

Em seus contos, Manaus não é cenário, mas força ativa que molda destinos. Como a cidade — com suas contradições entre Zona Franca, desigualdade e memória dos ciclos econômicos — impacta de forma específica a vida das mulheres?

Então, nesse livro, mesmo quando os narradores são homens, são as mulheres que movem o curso das ações, que interrompem, deslocam ou salvam trajetórias. Manaus é esse solo quente que pode tanto oprimir quanto fecundar. O mesmo sol que queima também prepara, como as mulheres que atravessam esses contos: muitas vezes marcadas pela dor, mas sempre portadoras de força germinante. Meus contos descrevem mulheres, que tais como as da realidade manauara, não se deixam abater, seja pelas questões climáticas, seja pelas desigualdades econômicas que enfrentam. 

Como suas personagens dialogam com a centralidade do trabalho na vida das mulheres, especialmente quando pensamos em trabalho informal, precarização e sobrecarga feminina na Amazônia? 

Mesmo sendo uma obra de ficção, não é possível ignorar a realidade do trabalho informal, da precarização e da sobrecarga feminina na Amazônia; situação que, na verdade, ocorre em várias partes do mundo. Não à toa, minhas personagens são plurais: algumas bem sucedidas, algumas na informalidade e outras em total precariedade. Mas todas as histórias deixam evidente que  o trabalho é fundamental para as mulheres, pois garante independência financeira, fator imprescindível no enfrentamento da violência doméstica, por exemplo. Muitas conseguem romper relações abusivas justamente quando passam a ter alguma renda, ainda que precária.

No entanto, é necessário que o poder público vá além de ações apenas remediadoras, investindo em educação e qualificação profissional para que a informalidade e a precarização deixem de ser a única alternativa. A educação continua sendo o caminho mais eficaz para que as mulheres conquistem autonomia financeira, reconheçam seu próprio valor e consigam sair de relações que as violentam.

Você transita entre Direito e Literatura. De que forma compreender as estruturas jurídicas e institucionais ajuda a revelar as camadas de violência — inclusive as naturalizadas — que atravessam suas personagens?

Embora já faça alguns anos que me afastei do Direito como profissão, é inevitável recorrer às teorias que aprendi ao longo do período em que me dediquei à área jurídica. Esse repertório foi fundamental para que eu passasse a compreender a violência como um fenômeno estrutural e a olhar de forma mais crítica para questões como o machismo e o patriarcado. Nos últimos anos, esse entendimento foi ampliado pelas leituras de obras feministas, que aprofundaram minha percepção sobre as relações de gênero; processo facilitado pelo conhecimento jurídico prévio que eu já possuía. No fundo, acredito que o conhecimento amplia nossa empatia em relação ao outro, e que a literatura é uma ferramenta poderosa nesse sentido.

Ao escrever mulheres “em sua inteireza, contradição e potência”, você rompe com quais estereótipos historicamente impostos às mulheres da região Norte?

Procuro escrever nas minhas obras, seja prosa, seja poesia, mulheres que apresentem a realidade do cotidiano amazônico e quando escrevo “em sua inteireza” quero dizer das suas virtudes e defeitos, da possibilidade de não sermos lineares, pois humanas que somos, oscilamos. Não há como padronizar, se somos tantas, vindas de realidades diversas, sobretudo econômica. Procuro, portanto, romper com a ideia de que, por sermos da região amazônica, temos os mesmos traços, os mesmos desejos, os mesmo talentos. Somos mulheres, como em qualquer lugar do mundo, plurais, com as nossas inúmeras possibilidades de existirmos, embora contraditórias, mas sempre carregadas de potência.

A migração é um eixo forte do livro. Como o deslocamento, seja forçado ou desejado, atravessa os corpos femininos de maneira diferente, especialmente em territórios marcados por desigualdade e extrativismo?

Normalmente, quando lemos literatura que fala de deslocamento, viajamos pelas páginas do livro carregados pela perspectiva de um narrador homem, aventureiro, que percebe o deslocamento/migração como uma possibilidade de aventura, de grandes descobertas e mudanças de vida. Tentei, por exemplo, no meu conto “Terra Prometida”, abordar o deslocamento sob o olhar da mulher, daquela que fica, que espera, que vive sob o signo da falta e da saudade e o quanto isso pode moldá-la, adoecê-la, inclusive. Ademais, por muito tempo a histórias de mulheres que estiveram lado a lado de seus companheiros no extrativismo e na economia familiar amazônica sofreram o apagamento dos registros históricos. É o caso de mulheres seringueiras que mesmo extraindo tanta seiva quanto seus companheiros não tiveram o reconhecimento nem dos coronéis nem da História. Hoje, através de documentários e entrevistas, estamos reescrevendo a participação de tantas que saíram de suas terras e contribuíram tanto quanto os homens para o desenvolvimento da região.

Há uma dimensão ambiental incontornável na Amazônia. Como você articula, na sua escrita, as relações entre devastação ambiental e exploração dos corpos das mulheres?

Essa pergunta me leva, mais uma vez, à obra Banzeiro Okotó. Eliane Brum decide se deslocar para Altamira, no Pará, para viver à beira do rio. E, é preciso frisar, viver na beira do rio, hoje, é viver à beira do colapso. Ela fala do banzeiro como a agitação que o rio sofre depois da passagem de algo. A literatura, para mim (como para ela), é esse tremor: o que continua reverberando depois da história, do trauma. Aliás, como mulher que escreve da Amazônia, não precisei ir à margem: eu vim dela. E é daí que falo, que escuto, que invento. Mulher-margem não é ausência de centro: é criação de outro centro possível. É a mulher que banzeia o rio, a que se sabe floresta e, com isso, refloresta o mundo. Escrevo da margem com a certeza de que é ali que a vida insiste em brotar, apesar das dificuldades, apesar da violência contra a floresta e contra os corpos femininos. Inclusive, Brum faz uma analogia entre o corpo da mulher e a floresta, ambos como sinônimo de exploração. Ela precisou se deslocar do sul para o Norte para compreender que a floresta funciona para os exploradores como os corpos das mulheres funcionam para os homens (não à toa ambos pertencem ao mesmo gênero): deve ser sugada, consumida, devastada ao máximo. Banzeiro Okotó mexeu demais comigo e, claro, respingou na escrita dos meus contos. A bravura e a ousadia da escrita e do ativismo de Brum me inspiraram a não recear escrever histórias que sempre achei necessárias, mas temia a recepção dos leitores. Hoje, já não me autocensuro.

Sua trajetória inclui romance, literatura juvenil, poesia e agora contos. Você percebe diferenças na recepção crítica quando escreve a partir de uma perspectiva amazônica e feminina?

Eu percebo que falta oportunidade para que minhas obras e das minhas companheiras de escrita do Amazonas sejam mais lidas, pois quando chegam aos leitores, por meio de clubes de leitura, por exemplo, percebo o quanto há interesse pela literatura produzida no Norte. O que dificulta, como respondi acima, é o mercado editorial muitas vezes fingir que não existimos. Sem espaço na mídia, nas livrarias e nas grandes editoras fica quase impossível chegar aos leitores e aos críticos.

Que autoras nortistas — contemporâneas ou anteriores — você considera fundamentais para pensarmos uma tradição literária feita por mulheres na Amazônia? E como fortalecer essas redes em um país ainda tão concentrado no eixo Sul-Sudeste?

Sou porque outras abriram o caminho. Antes de mim vieram mulheres escritoras as quais reverencio: as poetas Violeta Branca e Astrid Cabral são um farol para a literatura produzida por mulheres no Amazonas. Nos últimos anos, tenho a sorte de caminhar bem acompanhada por escritoras que, apesar de todas as dificuldades para publicar, persistem. Faço parte de um coletivo de poetas amazonenses chamado Enluaradas que promove saraus e encontros ao longo do ano a fim de fortalecer a poesia produzida por mulheres na cidade, bem como fortalecer o fazer literário em si. Poetas como Marta Cortezão, Rita Alencar Clarck, Tainá Vieira, Gracinete Felinto, Rakel Caminha, Lucila Bonina, Sandra Godinho, entre outras. Além disso, sou curadora do festival literário de Manaus sob a coordenação de João Fernandes, diretor do Centro Cultural Casarão de Ideias, um espaço que está sempre de portas abertas para os artistas locais. Durante o festival, a literatura amazonense ganha destaque para que escritores e escritoras possam mostrar seus trabalhos para o grande público. Ainda não é o ideal, mas não estamos paradas, ao contrário, estamos produzindo muito e prontas para despontar em outras regiões do país.