Foto Júlia Vita Amanda Erthal
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Novo livro de Júlia Vita mostra como o elemento aquático transforma

“Com sensibilidade rara e uma atenção que opera com exuberância nos escoamentos da matéria água entre teoria e poesia, Júlia Vita nos oferece, com ‘Rítmica marítima’, um trabalho poderoso — aporte bibliográfico tanto para poetas e escritores quanto para pesquisadores.”

Mar Becker, escritora, no texto de quarta capa da obra

A Sophia Editora lança“Rítmica marítima: água como matéria para a escrita de poemas”, da poeta, pesquisadora e editora Júlia Vita. Resultado de sua dissertação de mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF), o livro investiga a profunda conexão entre o elemento aquático e a fundação do ritmo poético, propondo uma reflexão inovadora sobre como a água influencia a criação literária.

O livro conta com texto de quarta capa assinado pela escritora Mar Becker; o prefácio por Gabriel Morais Medeiros, doutor em Teoria e História Literária (Unicamp) e editor na Ofícios Terrestres Edições; posfácio por Bruno Jalles, Historiador, doutor em Filosofia da Arte pela UFF e poeta; e texto de orelha de juliana C. alvernaz, poeta e professora do Departamento de Línguas e Letras da UFES. A obra foi pré-lançada durante a Festa Literária Internacional de Niterói (Flin).

“Esta pesquisa parte do processo empenhado na publicação do meu primeiro livro de poemas, ‘Alga viva’, que foi elaborado a partir dessas sensações aquáticas que permeiam minha característica de escrita”, explica a autora. A obra surgiu de uma inquietação gerada pela observação dos movimentos das águas e sua relação com a escrita poética, amplificada pela comoção diante de desastres ambientais como os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho e os vazamentos de óleo no litoral brasileiro. “Além disso, esse enfoque rítmico dialoga com o acompanhamento do curso de degradações via rios e correntes marinhas, que além de textos também contou com obras visuais e ações ambientais coletivas, como a série Souvenir, em que mobilizei moradores de regiões afetadas para coletarmos amostras naturais anteriores à chegada de rejeitos de mineração, por exemplo”, comenta.

O livro percorre três eixos principais. No primeiro, ela examina a origem do conceito de ritmo, desde a associação mítica ao “fluir” das águas – derivada do grego rhythmós, que teria se originado do verbo reo (fluir) – até as reformulações linguísticas de Émile Benveniste e Henri Meschonnic. “Aprofundando na etimologia da palavra ‘ritmo’, que me fez encontrar e reencontrar a água diversas vezes, não demorei a descobrir que havia uma refutação linguística que colocava em xeque a explicação do termo ter derivado do ‘fluir’ das ondas”, comenta.

No segundo momento, a autora aproxima o pensamento de Octavio Paz e Gaston Bachelard para explorar como a respiração, o corpo e a voz dialogam com o movimento das águas. “O poeta cria por analogia: a dinâmica móvel da linguagem permite ao poeta criar seu próprio universo rítmico, utilizando as mesmas potências universais de atração e repulsa”, reflete, citando Paz.

A terceira parte dedica-se à imaginação material bachelardiana, explorando as águas como produtoras de imagens poéticas. “A água opera no mundo com uma função reflexiva distinta dos espelhos estáticos: as águas refletem o mundo devolvendo as imagens banhadas por elas”, observa a autora. Nesse segmento, Júlia também analisa como degradações ambientais provocam quebras rítmicas na poesia, relacionando-as a grandes desastres ecológicos recentes no Brasil.

Um dos aspectos mais originais da obra é o recorte de gênero que perpassa toda a análise. A escritora privilegia poemas de autoria feminina, situando-se numa linhagem de pensamento latino-americano que reivindica a natureza como sujeito de direitos. “Amplio a compreensão do que se entende por sujeito, para abarcar também o próprio discurso poético da matéria aquática”, afirma.

O livro representa ainda uma contribuição importante para a dissolução de fronteiras rígidas entre criação artística e produção acadêmica. “Me interessa enfatizar esse ponto, circulando o resultado atualizado após a defesa, para que também seja um ponto de contribuição para a dissolução de certos limites que até hoje geram barreiras de diálogo entre as áreas”, destaca a autora.

Além de seu caráter teórico, “Rítmica marítima” funciona como uma antologia comentada da poesia brasileira contemporânea, analisando obras de mais de quarenta autoras e autores, incluindo Ana Cristina Cesar, Marília Garcia, Olga Savary, Orides Fontela e Prisca Agustoni, entre outras vozes significativas da cena literária atual — com destaque para poetas com quem a própria autora atuou no preparo, revisão e edição de textos, como Bárbara Mançanares, Beatriz Rodrigues, Bruna Vilaça, Brunna Côrtes, Bruno Jalles, Bruno Pacífico, Camille Perissé, Danielle Freitas, Érica Magni, juliana C. alvernaz, Laura Redfern Navarro, Nathália Ranny e Rodrigo Cabral.

Para Júlia, a publicação simboliza a culminância de um processo de pesquisa que começou com sua própria prática artística e se expandiu para abarcar um amplo espectro de criadoras. “Mostra que os textos estão vivos. E isso, todo esse pessoal que aborda água em seus textos, também me mostrou de volta que o assunto está vivo”, celebra.

Sobre a autora

Júlia Vita (Niterói, 1995) é mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Escritora, artista, professora e editora, é responsável pela Laboriosa Produções Poéticas. Publicou o livro de poemas “Alga viva” (Córrego, 2019), premiado no edital Cultura nas Redes (SECEC-RJ) em 2020, ano em que também recebeu o Prêmio Erika Ferreira (SMC-Niterói). Como profissional do texto, atuou na preparação de obras para o Grupo Editorial Record e para editoras como Ofícios Terrestres, Patuá e Sophia. Sua pesquisa articula escrita poética, questões ambientais e patrimônio imaterial, com ênfase na relação entre ritmo, água e criação literária.

FICHA TÉCNICA

Livro: “Rítmica marítima: água como matéria para a escrita de poemas”
Autora: Júlia Vita
Número de páginas: 166
ISBN: 978-65-88609-55-2
Gênero: Não-ficção
Editora: Sophia Editora
Ano: 2025

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