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3 poemas de Alice Puterman em “Candura”

Julianamonteirocarrascoza

Alice Monteiro Puterman nasceu em Petrópolis (RJ) em 2002 e vive atualmente na capital fluminense. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras na UERJ, dedica-se também à especialização na área de inclusão. Autista com mutismo seletivo na infância, encontrou na palavra escrita a primeira linguagem que conseguia acessar. Candura, seu livro de estreia, é fruto de seis anos de escrita sobre suas experiência com saúde mental e violência sexual. 

1.

às vezes eu rezo mecânica quântica

se uma partícula pode estar em dois estados
isso significa que 
em alguma dimensão, você não foi embora
e parece estranho pensar
que esse desejo vem na frente de
não precisar ter medo dos homens
ou de não ter um cérebro que
tenta me enterrar viva
mas nenhuma quantidade de tragédia é maior
do que não ser amada por você

meus vinte anos nessa Terra
foram marcados
por feridas que nunca saram
que nunca param
eu estou sempre sangrando
seja lá de onde vierem os cortes
e ainda assim
eu não me encontro agora
implorando aos céus
pelo fim das agressões
eu rezo pelo amor

e não é lindo pensar
que por maior dor que contraia a nossa caixa torácica
e se espalhe pelo nosso ser
que
o amor
importa mais
do que a violência?

então, eu sei
que mesmo num mundo
que me põe em chamas
e ainda me pede pra dançar
enquanto eu viro pó
ainda assim
eu não preciso de escapatória

porque

o amor importa mais do que a violência

e isso,
é tudo que importa

2.

eu te prescrevo acupuntura
fratura de ossos calcificados da maneira errada
tilápias para tratar queimaduras
cirurgia sem anestesia
eu quero que você se cure
do jeito mais excruciante

pra você entender 
o que me fez passar

eu quero que você floresça
mas crescer dói
faz a gente ter que sair da gente
e virar parasita
pra entender o que é ser outro

eu quero que você se limpe 
de tudo aquilo que você nem sabe que fede

talvez assim
suas mãos parem de cheirar à morte

talvez assim
haja esperança pra você

3.

a partir de hoje,
vou acolher rachaduras em janela,
e deixar que toda a luz que vem de mim
reflita para fora

vou tatuar meu nome nas sombras,
batizar que elas não pertencem mais
a você

costurar cada ferida 
como quem remenda asas,
e chorar só onde as sementes 
esperam por chuva

não vou afogar no naufrágio 
nem deixar o furacão ser mais alto 
que a minha voz

vou recolher as águas da tempestade,
e lavar toda a imundice que você 
tentou 
deixar em mim

eu estou coberta de sujeira,
mas

a vida foi feita do barro, afinal 

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