Literatura

O Baile das Lobas: A Câmara Maldita

Em 1500, na França, Isabel estava prestes a se casar e fugir com seu noivo para não ter que se submeter à Francisco de Chazeron, senhor de Vollore, em plena noite de núpcias. Porém, a fuga não dá certo. Isabel é capturada, e vê seu marido morrer tentando salvá-la. Ela é castigada por Chazeron, que a deixa à mercê dos lobos famintos. Mas Isabel não é uma mulher comum. Sua família tem o sangue dos lobos correndo nas veias, e ela se refugia em uma caverna com eles. Seu único desejo agora é se vingar. E depois de 15 anos, esse desejo persiste.

É assim que começa O Baile das Lobas, da francesa Mireille Calmel. Dividido em dois volumes, a trama foi um sucesso na França, o que o fez ser traduzido para o Brasil, sendo publicado pela editora Nova Fronteira. Em A Câmara Maldita, o primeiro livro, vemos a luta de Isabel para superar sua tragédia e a determinação de Albéria, sua irmã, para levar a cabo a vingança tramada por ela. Embora O Baile das Lobas tenha como principal característica a abordagem feminina, é um homem o grande herói do livro. Hugo de La Faye, administrador de Chazeron e casado com Albéria, se mostra carismático, sincero e justiceiro. Ele compartilha a dor das mulheres que o cercam, por isso é nele que todas encontram a força que precisam para agüentar os abusos do senhor de Vollore. Inclusive Antonieta, mulher de Francisco. Ele é de longe o mais interessante da história.

A carga emocional das personagens é intensa. São os sentimentos de cada um que fazem a trama andar. Isso confere uma falta de razão aos atos narrados por Mireille, pois tudo é feito no calor das emoções e de forma muito precipitada. Principalmente em se tratando de Loralina, filha de Isabel, que tenta dar cabo à vingança planejada pela mãe. São os sentimentos que deram início a história, logo são eles que garantem a continuação dela. Mesmo com todo o clichê que envolve a trama, o livro prende. A autora constrói muito bem a narração, inserindo acontecimentos passados em momentos específicos para caracterizar as personagens. Isso é feito de forma natural e clara, convincente. Sua intenção é solidarizar o leitor com as dores das mulheres, e ela consegue. Às vezes tudo parece ser fantasioso demais, mas isso não é problema. Afinal, trata-se de ficção.

Os lobos sempre estão presente na narrativa, mas a questão do lobisomen fica em segundo plano, porque o que mais interessa aqui são as relações entre as personagens. É de se esperar que o objetivo principal não se cumpra no primeiro livro. O desejo de Isabel e Albéria é frustrado em A Câmara Maldita, e ele será concretizado apenas no segundo volume, A Vingança de Isabel. Mais um motivo que prende o leitor, pois Mireille sabe como deixá-lo com vontade de continuar a acompanhar essa história. O Baile das Lobas lembra em alguns momentos aqueles livros de tia solteirona que se vendem em bancas de jornais. Entretanto, não deixa de ser um bom entretenimento.

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