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O poético A cidade e as Estrelas de Arthur C. Clarke

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“Qual gema resplandecente, a cidade jazia sobre o selo do deserto. Houve época em que ela conhecera mudanças e inovações, mas agora o Tempo cristaliza tudo. Noites e dias passavam sobre a face do deserto, mas nas ruas de Diaspar era sempre tarde…” Eis o início de A cidade e as estrelas de Arthur C. Clarke, um memorável festejo literário que nos conduz a uma das melhores narrativas de ficção científica de todos os tempos. Uma aventura sobre a curiosidade humana como valor central de sua própria condição, publicado pela Devir Livraria  ano passado, com a clássica tradução de Hélio Pólvora (1928).

Clarke foi de uma geração de escritores insolitamente pura, junto com Robert Heinlein, Isaac Asimov, Ray Brandbury, logo depois Philip K. Dick, Brian Aldiss, Michael Moorcock entre outros, construiu muitos dos conceitos básicos do gênero que conhecemos. Suas narrativas em sci-fi traçaram um perfil cultural que se tornou popular nos dias de hoje e em The city and the stars cumpre com os requisitos mínimos de uma boa história do gênero e vai além do esperado.

cidade-estrelasAmbientada num futuro longínquo, daqui há um bilhão de anos, com viagens espaciais, muitos seres extraterrestres e máquinas surpreendentes, sua história é de uma visão futurística tão poética, que se prima a diversas releituras e ainda temos o anseio da primeira leitura feita. Escrita originalmente na década de 1940 como um pequeno conto e publicada com o título de Against the Fall of Night, a versão definitiva apareceu em 1956, onde Clarke abriu vistas e possibilidades que estavam longe quando o livro foi originalmente planejado. A sensibilidade e a harmonia de sua narrativa se adéquam àqueles contos que La Fontaine construiu no século XVII.

Aqui trata do simbolismo que o elemento Cidade tem para a civilização humana. Da Babilônia às cidades-estados gregas, da Roma Antiga às cidades modernas como Tóquio, Londres ou Nova Iorque, a cidade representou a síntese do progresso e da realização de nossa sociedade. E se estendêssemos este símbolo para o mais alto nível utópico? Em A Cidade e as Estrelas Clarke responde essa e outras perguntas como São todas as utopias distopias? Seria a imortalidade uma meta realmente desejável? A segurança valeria a pena em sacrifício da curiosidade? Para alcançar o dito Paraíso, poderíamos esquecer a nossa humanidade? Questões que provocam respostas pela leitura reflexiva que o autor desenvolve em uma história considerada uma das melhores de todos os tempos.

Diaspar é a ultima cidade da Terra e já tem milhões de anos de fundação, auto-suficiente, totalmente isolada e funciona com uma hipertecnologia que provê todas as necessidades dos seus cidadãos. Eles mesmos não nascem por meio naturais, a família tradicionalmente conhecida não existe, o modelo de cada individuo se encontra armazenado na matrix dos Bancos de memória da cidade e todos se reencarnam várias vezes, ao longo dos séculos. A população não tem urgência para nada, tampouco em sair da cidade, tem em seu alcance as mais infinitas formas de entretenimento: jogos, práticas sexuais, artes e ciências. Todos foram condicionados para evitar o exterior, e suas lendas relatam que a humanidade já foi um império galáctico, porém foi obrigada a regressar a planeta por forças alienígenas. Voltar ao espaço, inclusive sair das muralhas da cidade, provocaria a ira desses invasores.

Assim tem sido há milênios. Até que nosso protagonista, Alvin, o único homem a nascer em Diaspar depois de um milhão de anos, se lança a tarefa de deixar os muros da cidade e descobrir o que existe além dos desertos e mesmo além das estrelas. A investigação que Alvin faz para conseguir suas respostas é arquetípico na ficção cientifica: a ruptura de um mundo fechado, a descoberta da verdadeira natureza da realidade e o retorno sofrido para revitalizar uma sociedade que parou no tempo.

Como é habitual em Clarke, a caracterização dos personagens é mínima, a trama é lenta e o diálogo embaraçosamente rebuscado, mas a narrativa consegue trazer aquele sentimento da descoberta, mas a intenção do autor é provocar as expectativas do leitor, suas especulações e concepções. Como O fim da eternidade de Asimov, o texto do autor passa uma mensagem de otimismo aos seus leitores, ainda mostrando de forma bem romântica o possível destino de nossa raça e o apelo à vontade humana de conquistar as estrelas. Brilhante.

[xrr rating=5/5]

A Cidade e as estrelas (The City and the stars) de Arthur C. Clarke
Devir Livraria, 2012 Selo Pulsar Tradução: Hélio Pólvora
Acabamento: Brochura com laminação brilhante e orelhas de 7,5 cm
Miolo: 280 páginas preto e branco em papel off-set 75 g/m²
Formato: 14,0 cm × 21,0 cm
ISBN:978 85 7532 519 3

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