ColunasLiteratura

Por que a ficção ainda invisibiliza mulheres 40+?

Evoto
Evoto

A invisibilidade da mulher madura na ficção é sintoma de um imaginário que ainda teme o envelhecimento feminino

Por Ana Paula Couto

“Não importa onde e nem em que tempo estejamos. Se você nasce mulher, já nasce fadada ao combate, ao embate, ao confronto, à resistência.”  Essa frase, de minha autoria, presente no prefácio de Amor de Manjericão, reflete perfeitamente a trajetória feminina e seus desafios. 

No âmbito da literatura, ela também faz todo o sentido se nos ativermos às dificuldades enfrentadas pelas escritoras para se firmarem no mercado editorial e serem lidas. E também se aplica quando constatamos que mulheres 40+ raramente ocupam o centro das narrativas de ficção. É uma batalha para desbravar caminhos, pois para a mulher nada vem de graça, nem no mundo da ficção.

O mundo literário sempre foi masculino. No passado, as mulheres se valiam de pseudônimos para escreverem e não serem reconhecidas. A literatura não era, com toda certeza, um espaço para elas. E hoje, é? Depende. Pode-se dizer que é e não é.  É notória a quantidade de mulheres produzindo boas narrativas e de como esse número cresceu. Elas vieram para se posicionar definitivamente no mercado e fincar a sua bandeira nesse chão outrora pisado somente por homens. No entanto, há muito que se caminhar, considerando a ainda existente e expressiva disparidade entre escritores e escritoras, com os homens liderando o ranking de mais publicados.

Se mulheres leem mais, por que ainda são menos publicadas e menos centrais nas narrativas?

Mulheres leem mais do que homens, fato constatado por pesquisas, mas, os escritores são mais lidos do que as mulheres. Árdua trilha para as escritoras: encarar esse front e essa triste realidade! Basta dar um breve olhar para a Academia Brasileira de Letras que demorou 80 anos para nomear a primeira mulher, a talentosíssima Rachel de Queiroz. Esse padrão ainda é perpetuado com pouca representatividade feminina ocupando as cadeiras da instituição.

A realidade da mulher sob a tutela do patriarcado persiste, em todas as áreas em que ela atua, respingando e borrando as narrativas de ficção que pouco a representam. As personagens femininas acabam por revelar e refletir o que a sociedade delas espera. Por isso, as mocinhas são mais bem vistas como protagonistas interessantes do que as personagens mais velhas.

Mercado editorial, patriarcado e etarismo ajudam a explicar o apagamento das protagonistas maduras

Autores acabam por ceder às expectativas do mercado e escrevem para serem vendáveis. Surge aí a invisibilidade da mulher 40+ nas narrativas de ficção. Vê-se a perda do valor feminino e o evidente etarismo prevalecerem nas histórias que buscam personagens jovens, repletas de colágeno e formas perfeitas, em detrimento à mulher real que envelhece ornando suas brancas madeixas e sua vulnerabilidade latente.

Os papéis da mulher na maturidade se restringem a tipos caricatos e estereotipados ou desinteressantes, mostrando-a apagada e sem desejo. As mulheres 40+ costumam ser colocadas em um lugar colateral e sem protagonismo ou brilho próprios. Isso é lamentável, mas é fruto de uma sociedade machista e etarista.

É frustrante para a mulher envelhecer e não se reconhecer nas narrativas e ter seus desejos e anseios invalidados. A literatura mostra a sociedade tal e qual ela é, mas, por ser arte, pode e deve recriá-la, mudá-la, ou melhor, chacoalhá-la, de preferência, e virá-la de ponta cabeça, se possível.

Precisamos dar luz a essa mulher que quer ser vista, que tem o que mostrar e dizer. Ela continua a ser quem era quando jovem, mas agora, mais vivida, torna-se uma versão melhorada de si mesma, agregando a maturidade ao desejo pulsante de vida.

O envelhecer está mudando e cabe a nós, escritoras e leitoras, fazer a nossa parte trazendo à tona personagens mais velhas e cheias de potência, pois a invisibilidade da mulher 40+ vem de um ranço cultural e não é uma fatalidade da qual devemos nos conformar e aceitar.

Essa é só mais uma batalha que, entre as tantas travadas diariamente, temos que enfrentar. Queremos ver mulheres mais velhas nos enredos de ficção, pois elas têm muito a dizer, a encantar e a seduzir. 

Relembrando a frase inicial do meu primeiro romance, em que a protagonista é uma recém-divorciada 40+, somos talhadas para o combate, para o embate e para a resistência. Pois bem, resistam! E leiam mais mulheres, para ontem!

Deixe um comentário

Sugeridos
AgendaLiteratura

Flautista Ivan Melillo lança o livro “Crônicas Musicais”

Na obra, ele expõe partituras das suas próprias músicas, compostas diariamente em...

FestivaisLançamentosLiteratura

“Guia de conduta para mulheres bravas” na Flip 2026

A pesquisadora, artista visual e escritora Marina Jerusalinsky é semifinalista do Prêmio...

AgendaFestivaisLiteratura

Flip 2026: cearense Maurício Mendes com Manual do Mediador

Nova edição de “O homem não foi feito para ser feliz” chega...

AgendaLiteratura

Danilo Heitor leva ficção científica e memória política na Flip

O que acontece quando os crimes de uma ditadura não ficam no...

LançamentosLiteratura

O manual do turista que ninguém aguenta 

Reclamadores, invasores de espaço e entrosões ajudam a explicar por que a...

LançamentosLiteratura

Thainá Fernandez lança romance  “Beijada pela maré”

Com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, novo romance...

LançamentosLiteraturaTecnologia

Lançamento da Flip 2026, “Biotecnosfera”

Romance de Lucas Araújo mistura ficção especulativa, crise climática e debates sobre...

AgendaLiteratura

Mariana Brecht participa de roda de conversa do Clube do Livro Feminista

Neste sábado (4/7), a Livraria Bandolim receberá uma roda de conversa do...

LançamentosLiteratura

“Cheiro de Outono”: livro de estreia da capixaba Edna A. chega à Flip

Entre malas, mapas e poltronas de hospital, uma viagem pode começar muito...

FestivaisLançamentosLiteratura

Velhice Sinistra, do paulistano Gil Camargo, desembarca na Flip 2026

Elogiado por Juca Kfouri, romance sobre quatro amigos atravessa ditadura, pandemia e...