Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP e mora em São Paulo há quase vinte anos. É defensora pública e atua na defesa das pessoas pobres que estão cumprindo pena. Sempre foi apaixonada por livros e há alguns anos vem inventando suas próprias histórias. Foi finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2016 e 2017. Lançou seu livro de contos, Enfim, imperatriz, pela Editora Patuá.

1-) Seus contos falam de questões de alteridade tanto numa cidade urbana quanto no sertão, e você desenvolve personagens cujo profundidade é bem tridimensional. São cheios de carnadura e vitalidade. São vivos! Como foi pensar neste Brazilzão focando o aspecto da alteridade?

Acredito que o grande desafio do escritor seja vestir a pele do outro. Conseguimos falar de nós, mostrando as nossas verdades e crenças falando do outro. É através do outro que falamos do eu. Faço disso um exercício, não só na escrita, mas na vida. Aliás, meu trabalho exige isso. Sou defensora pública, defendo pessoas pobres que estão cumprindo pena. Colocar-se na perspectiva do outro é uma necessidade.

A questão do urbano e rural vem da minha própria trajetória: sou de Cajuru, interior de São Paulo e morei lá até os dezessete anos. Minha ligação com o rural vem muito da minha mãe, que nasceu na roça. É alguma coisa que faz parte da minha constituição, da construção da minha subjetividade. Apesar disso, moro em São Paulo há quase vinte anos. Então, assim como Drummond, no elevador penso na roça, na roça penso no elevador.

A carnadura dos personagens decorre da observação do humano. Gosto de tudo o que é demasiadamente humano e aqui não no sentido de benevolência. Ao contrário, a humanidade na acepção da falha, da contradição, da covardia. Meus personagens nascem na falha, no defeito, talvez por isso pareçam reais.

2-) Gostei muito da forma que você narra sem fazer julgamentos com relação ao cerne de seus personagens. Como foi se amparar nesta posição de ver o outro? deste jeito.

No sentido de censura você tem razão, não censuro os personagens, justamente porque não há nada mais desculpável do que ser gente, humano.

Mas penso que o escritor faz julgamento sempre, ainda quando não pretenda fazer. E aqui não na acepção de censura, mas de escolha. A gente julga quando escolhe a história, a perspectiva de contar. E o resultado disso, é um texto que reflete as coisas que acreditamos, o que nos é caro. Não há intencionalidade nisso e nem deve haver. Um texto escrito a partir de uma temática, com a pretensão de mostrar alguma coisa, é mais panfletário que literário. Não escrevo com a intenção de que seja uma literatura feminista ou sensível às questões sociais. Mas é óbvio que sendo eu feminista e sensível às questões sociais, os textos estarão imbuídos disso. O escritor tem, ou ao menos deveria ter, um compromisso ético com o que produz.  Acho que é justamente nesse aspecto que entra o julgamento.                       

3-) Sua linguagem é seca, mas carrega um lirismo atordoante. Você dá à seu enredo uma imagética rica tanto na parte da linguagem estrutural como na parte das imagens pictóricas com uma forte musicalidade operando na cavalgadura do texto. Como foi esta elaboração estética?

A linguagem é um aspecto do texto que considero fundamental. Gosto de histórias, mas gosto sobretudo da linguagem. Amo palavras, a densidade, o som. Desde sempre gosto de dicionários, de estranhar palavras, repetir mentalmente até que esvaziem de sentido.

Importa muito menos a história do que a maneira de contar. Minha professora de escrita, a incrível Noemi Jaffe, diz que na literatura, senão tudo, quase tudo, é sobre amor ou morte. Então por que existem histórias boas e ruins? Por conta da maneira de contar. É aí que entra a linguagem.  No meu processo criativo a linguagem vem junto com a história, aliás mais que isso, é por meio da linguagem que a história aparece. É claro que depois há um trabalho de revisão, de pensar o texto (releio tanto o que escrevo que acabo decorando longos trechos), mas o resultado final é muito parecido com a primeira versão. Isso justamente porque não há uma cisão história/linguagem.

4-) Queria que você falasse do afeto que perpassa boa parte dos seus contos, e um certa solicitude à solidão e desterro. Me fala um pouco desta afetividade.

Tento escrever histórias que gostaria de ler. Gosto de tristeza e lirismo, a tristeza lírica e o lirismo triste. Esse afeto, bem percebido por você, decorre dessa fusão. Tudo não é só triste, não é só dor, assim como nada é apenas alegre. Os sentimentos de verdade são todos muito misturados, na vida não há sensações puras, não contaminadas. Então há afeto na solidão, no abandono.

O desterro vem de um sentimento de não lugar, que acho que grande parte das pessoas sentem, ou ao menos sentiu alguma vez na vida. De onde sou, de onde pertenço? Gosto dos não pertencidos, dos sem lugar, dos que não se adequam, não se submetem. Gosto da rebeldia dos que se recusam ao encaixe e da tristeza dos que a vida nega o lugar.

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