Literatura

Resenha: "Todos Nós Adorávamos Caubóis", de Carol Bensimon

Uma viagem idealizada há anos, uma viagem cujo maior prazer (inicialmente) talvez fosse não a sua concretização, mas a sua maquinação em conjunto. Uma viagem que talvez nunca fosse se realizar e que, enfim, acontece. Falo da viagem de Cora e Julia, protagonistas de “Todos Nós Adorávamos Caubóis”, romance de 2013 da escritora gaúcha Carol Bensimon, pela Companhia das Letras, e que será publicado na Espanha pela Editora Continta Me Tienes. Carol Bensimon estreou pela Não-Editora, em 2008, com o livro “Pó de Parede” e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, e do Prêmio Jabuti, em 2010, por “Sinuca Embaixo D’água”. Em 2012, foi selecionada pela Revista Granta entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros.
13581_gg“Todos Nós Adorávamos Caubóis” trata de uma viagem e de um reencontro. Essa é, em linhas gerais, a premissa do ótimo romance da autora, que já estava há tempos querendo ler.
Mas havia aquelas filas caóticas de livros me esperando. Havia as filas físicas (os livros empilhados na estante) somando-se às filas mentais (aqueles que você mais ou menos ordenou na sua cabeça, os títulos que precisa ler embora ainda não os tenha em mãos), sem contar os títulos penetras: livros-canetas-bic, que surgem na sua mão sem que você se dê conta da rapidez de sua aparição, e que mostram que o acaso faz suas maiores benesses no seu mundinho particular de leitura (tal qual o acaso que se insere em qualquer viagem, o inesperado inerente aos reencontros). Bem, tudo isso adiava o início da minha leitura particular do romance. Enfim, consegui iniciar a leitura e aviso logo que, se você for começar também, não o faça em data próxima a um concurso público para o qual deveria estar se preparando, ou com nenhum outro compromisso inadiável, para não se embananar por dificuldade de fechar o livro antes de chegar ao final.
Cora e Julia eram amigas de faculdade que não se viam há quatro anos. Imaginavam juntas conhecer as cidades mais disparatadas, cidades sem nome que elas mesmas não conseguiam visualizar. O que interessava era viagem pela viagem ou, mais ainda, a maquinação da viagem pela maquinação da viagem, um exercício de idealização em conjunto, a criação de territórios existenciais e afetivos compartilhados.
Mas a viagem se realiza, no interior do Rio Grande do Sul. Cora vem da França (onde estuda Moda), Julia vem do Canadá. No início da jornada, parece haver uma barreira entre elas, uma expectativa que não se refere apenas àquilo que será encontrado na estrada, mas principalmente ao que será possível esperar dessa relação.
Cora se pergunta: “Como ter certeza se, da mesma forma que para mim, o importante para Julia não era estar em algum lugar, mas sim cair fora de outro?”. Cora não quer exatamente um lugar, mas traçar um desvio de um cenário anterior, imprimir uma guinada. Cair fora do mesmo, buscar o outro, um outro, qualquer outro?
A viagem pode também ser vista como a metáfora dessa amizade, que aponta para caminhos que antes não poderiam ter sido trilhados. Era necessário aquele tempo de espera. As conversas incompletas entre Cora e Julia, a tensão sexual entre ambas, o descanso de mágoas, nada disso poderia ser apressado, e seria preciso mesmo uma viagem, contanto que parte dela já tivesse sido percorrida e partilhada em um terreno que não o da estrada e do asfalto.
Junto a isso, referências deliciosas para quem cresceu nos anos 80: MTV Music Awards, Ken, pogobol. Pogobol! Como adorei quando li pogobol (a palavra ecoa) nas observações afiadas e irônicas de Cora face ao que encontra pelo caminho, aos seus sentimentos, às suas memórias.
Mais não direi para não incomodar os que não gostam de detalhes da história antecipando a leitura. O livro vale lugar de destaque em sua pilha física ou mental de livros para ler. Vale também entrar de penetra, furando as filas preexistentes, um desvio no projeto de leituras que cada um tem, uma guinada tal qual a viagem de nossas protagonistas.
Mas, se você já apanhou o livro, se está ao seu lado ou na sua mão, primeiro adiante as urgências, espere passar o concurso público. Depois abra o livro e engrene.

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