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A importância de Charlie Watts

Faleceu na última terça-feira (24) o baterista dos Rolling Stones Charlie Watts aos 80 anos. Membro fundador da lendária banda, Watts era conhecido como o stone discreto, assim como George Harrison era o beatle calado. Avesso a holofotes, ele pilotava a bateria dos Stones com a sua característica marcação jazzística e muita elegância, que mostrava também fora do palco.

Charlie Watts começou a tocar bateria com 13 anos de idade, e praticava ouvindo sua já considerável coleção de discos de jazz. Sua primeira banda foi a Blues Incorporated, a primeira banda britânica, formada unicamente por músicos brancos, que era atração recorrente no Ealing Club em Londres. Lá, Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones, que eram fãs do gênero, conheceram o baterista. Quando resolveram formar os Rolling Stones, convidaram humildemente Watts para o projeto e ele aceitou trocar a Blues pelo projeto de Jagger e companhia, decisão que, claro, mudaria sua vida.

O estilo de tocar bateria de Charlie Watts é bastante característico. É um baterista de jazz, mas que se moldou perfeitamente ao rock dos Stones, e vice-versa. É comum chamá-lo de econômico, mas especialistas no instrumento destacam técnicas sofisticadas usadas pelo baterista sob a aparente simplicidade. Suas marcas registradas são a marcação precisa e as viradas, sem contar com as inimitáveis alternâncias entre o chimbal e a caixa. Esse é indubitavelmente o tempero da sonoridade stoneana.

A postura anti-rockstar sempre chamou a atenção. Sempre elegante no vestuário e na postura pública, tímido e avesso a entrevistas. Quando os Stones vieram ao Brasil pela primeira vez em janeiro de 1995, ele entrou mudo e saiu calado da coletiva de imprensa. Enquanto seus companheiros de banda passaram anos em farras com mulheres e sucessivos relacionamentos, Watts foi casado com a mesma mulher, Shirley Ann Scott, desde 1964.

Bill Wyman, baixista dos Stones até 1993 sempre gostou de se vangloriar como o membro da banda com maior número conquistas amorosas, por assim dizer. Na sua contabilidade, o baterista não levou ninguém para a cama nos pós-shows. Durante as gravações do célebre álbum “Exile on Main Street”, de 1972, por exemplo, em que a banda passou um tempo em uma mansão na Riviera francesa mergulhada em sexo, drogas e rock n’ roll, Watts passou ileso à toda aquela loucura.

Essa conduta de lorde e seu carisma discreto o tornaram o queridinho dos fãs. No show de São Paulo da turnê Voodoo Lounge foi o integrante mais aplaudido – por mais de um minuto – o que o deixou visivelmente emocionado. As palmas só cessaram porque Mick Jagger interveio.

Mas se engana quem pensa que Charlie Watts é uma criatura celestial. Há o famoso caso, que Keith Richards gosta de contar às gargalhadas de quando os Stones se reuniram em um hotel em Amsterdã na Holanda em 1984 para resolver se seguiriam juntos ou terminariam. Na época, a banda vinha do fracassado disco “Undercover” (1983) que não teve sequer turnê. Mick Jagger na ocasião já estava focado em sua carreira solo, ligou para o quarto de Watts dizendo que queria que seu baterista descesse a seu encontro. Watts fez a barba, colocou seu melhor terno e desceu até o quarto de Jagger. Quando este abriu a porta, Charlie deu-lhe um soco na cara e disse “não sou seu baterista, você que é meu cantor”.

É sabido também que Charlie Watts teve problemas com álcool e cocaína entre o final dos anos setenta até meados dos oitenta. Ele confessa ter sido a forma que encontrou para lidar com a crise da meia idade, que o afetou profundamente. E, pasmem, quem foi fundamental para ajudá-lo a largar o vício foi ninguém menos que Keith Richards.

Charlie Watts era designer gráfico. Foi dele o conceito da capa do álbum dos Rolling Stones “Between The Buttons” (1967). Ele também colaborava na elaboração de palco de algumas turnês. Quando Bill Wyman saiu da banda, foi Charlie que se encarregou de procurar o substituto, afinal, precisava saber se o músico se adequaria para fazer a dobradinha com ele na cozinha da banda.

Em 2020 Charlie Watts chamou atenção por sua bateria inusitada no  One World: Together At Home, live beneficente organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de curadoria artística de Lady Gaga. A banda lendária apresentou a música ‘You Can’t Always Get What You Want’, cada Stone apareceu em sua casa com seu respectivo instrumento, enquanto Watts estava sentado, com suas baquetas usando caixas e um braço d sofá para simular uma bateria (previamente gravada).

E claro, Charlie Watts também tem uma carreira solo como músico de jazz que rendeu belos trabalhos que valem muito a pena serem conferidos. São eles: Live at Fulham Town Hall (1986) com sua orquestra; Tribute to Charlie Parker with Strings (1991), com quinteto, assim como From One Charlie, do mesmo ano; Warm & Tender (1993); sua parceria com Jim Keltner Charlie Watts/Jim Keltner Project (2000); Watts at Scott’s (2004) e o derradeiro The Magic of Boogie Woogie (2010).

“Todos pensam que Mick e Keith são os Rolling Stones. Mas se Charlie não estivesse fazendo o que faz na bateria, isso não seria verdade. Você descobriria que Charlie Watts é o Stones” Keith Richards, em uma entrevista em 1979

Descanse em paz, Charlie!

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