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Dois lançamentos que ditam os rumos da chamada MPB

Dois lançamentos musicais apontam para os caminhos que a tradicional MPB anda trilhando em tempos de redefinições de modos, conceitos e formas de se fazer, ouvir e trabalhar a música, como um todo. O termo MPB nunca foi muito claro, mas popularmente ganhou uma significância que aponta os novos de CDs de Vanessa da Matta e Milton Nascimento como de um mesmo gênero.

Vanessa lança seu Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, o quinto de sua carreira, com a missão de estabelecer-se na seara das grandes cantoras e compositoras do país. Missão complexa, mas que ela esbarra com frequência, ainda que aqui e ali, resvale em alguma pretensão demasiada. Essa Boneca Tem Manual ainda é seu trabalho mais consistente, mas o novo CD é interessante em sua ênfase na melodia tropicalista, com letras de poética cotidianas e extremamente espirituosas. Apesar da horrorosa e apelativa (no sentido dramático) canção Te Amo, Vanessa demonstra bastante fôlego em músicas que vão da observação madura de Um Tal Casal até o lirismo pungente de Quando Amanhecer, sua parceria com Gilberto Gil. Mas é em músicas como Bolsa de Grife e Fiu Fiu (a melhor do CD) que a cantora justifica a atenção que seu nome desperta: inventivas e musicalmente ricas, são composições que dão vida a um repertório que dá um quê de vanguarda ao ideário pop a qual Vanessa faz parte.

Milton Nascimento é um cantor que sempre mostrou-se interessado em transgredir sua própria zona de conforto. E agora, com o lançamento de seu mais novo CD, E a Gente Sonhando, o cantor evoca suas referências iniciais para um trabalho que mira o futuro, até em sua concepção. Milton escalou 25 jovens músicos e compositores de Três Pontas, interior de Minas (parte deles ligado ao rock, parte ao Jazz), para que a sonoridade ilustre o que de novo tem nessa terra que gestou seu Clube da Esquina. E conseguiu. Arrisco dizer que E a Gente Sonhando é o melhor CD de MPB de 2010.

A energia jovial do grupo dialogou perfeitamente com o “barroquismo pop” do cantor, resultando num trabalho extremamente bem realizado. Da canção título, composta por Milton na década de 70 e nunca gravada por ele, que ecoa uma análise sobre o tempo; até às regravações belíssimas como a de Resposta do Tempo (imortalizada por Nana Caymmi), que ganhou uma curiosa densidade e Adivinha o quê, de Lulu Santos, revelando um Milton bem soltinho… Isso sem contar as composições novas, como a melancólica Amor do céu, Amor do mar, em que o cantor exorciza sua saudade da amiga Elis Regina, e Olhos do Mundo, de Heitor Branquinho, que vislumbra bem essa jovialidade que Milton busca, principalmente em versos como “Quem é capaz de fechar os olhos do mundo, Olhar para si?”.

Enfim, são 16 canções que desfilam numa mesma toada a perspectiva de um olhar com o expertise de um talento (com a voz ainda impecável) tão icônico quanto o de Nascimento.

Agora, quais são os rumos da MPB? Por esses lançamentos, percebe-se que passam pela observação do mundo a sua volta. Seja para se reciclar ou apenas para… transcender.

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Ativista

Publicado por Renan de Andrade

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