Shows internacionais de grande porte já não são mais algo extraordinário no Brasil. Porém, uma coisa ainda causa certo espécime: turnês conjuntas de grandes bandas. No exterior é bastante comum dois nomes de expressão realizarem juntos uma excursão por algumas cidades americanas ou países europeus. Aqui, para termos um pacote semelhante só mesmo em festivais. Por isso o anúncio da vinda de Foo Fighters junto com o Queens of the Stone Age gerou muita animação e expectativa. São duas bandas em momentos extremamente favoráveis de consolidação de status. A primeira, após vinte e três anos de sucesso, comprova que é uma das maiores em atividade. A segunda reafirma sua relevância e maturidade após lançar um grande disco.

Em certo momento do show do FF Dave Grohl chegou a dizer que “esse é o verdadeiro Rock In Rio”. Inclusive, tanto ele quanto o QOTSA estiveram na terceira edição do festival, em 2001. A observação procede. Os shows no Maracanã dos últimos dias – ontem (domingo, 25/02) no pontapé inicial da turnê das duas bandas pelo Brasil e quinta-feira com Phil Collins e Pretender – proporcionaram mesmo um clima de Rock In Rio fora de época.

O atestado de relevância

Crédito: Tenho Mais Discos Que Amigos

A apresentação do Queens of the Stone Age era ansiosamente aguardada por muitos. Após o lançamento do aclamado “Villains”, todos queríamos atestar o poder de fogo de Josh Homme e cia ao vivo. Mas o show foi aberto (às 19h24, seis minutos antes do horário marcado) com uma trinca do disco anterior, “…Like Clockwork”. Sucederam-se, na sequência, ‘If I Had a Tail’, ‘Smooth Sailing’ e o hit ‘My God is the Sun’. Só então foi trazida uma faixa do novo trabalho, ‘Feet Don’t Fail Me’, que abre o disco. A música teve uma boa reação da plateia, que, em sua maioria, estava mesmo para assistir ao Foo Fighters. Tanto que na primeira metade do show, muitos ainda estavam chegando.

Em seguida, mais uma nova, ‘The Way We Used To Do’. Daí foi a vez das faixas do arrasador “Songs For the Deaf”, de 2002. Primeiro ‘You Think I Ain’t Worth a Dollar, But I feel Like a Millionaire’. E depois a já clássica ‘No One Knows’, levantou o público, com a memória refrescada, no ponto alto da apresentação. Foi emendada em um solo arrasador do baterista Jon Theodore. O QOTSA é uma banda que se agiganta no palco com um show energético, de guitarra alta. A cada música eles vão conquistando um bloco do estádio. Como verdadeiros estrategistas. Até porque algumas têm boa execução em rádios rock brasileiras, mas muitos não faziam a associação. ‘Little Sister’, do álbum “Lullabies to Paralyze” é outro bom exemplo disso. A essa altura a plateia já estava em grande parte dominada pela banda.

Mais três músicas se seguiram: ‘The Lost Art of Keeping a Secret’, a que Josh se referiu como uma música sobre transar, ‘Go With the Flow’ e o final com ‘Song for the Dead’, uma porrada que literalmente abalou as estruturas do Maracanã. Foi um show para calar aqueles que afirmam que não existem mais grandes bandas de rock. Também ficou claro que de fato não se tratava de um show de abertura, embora alguns tenham visto como tal. Quem prestigiou certamente não esquecerá. Não chegou a ser um show tão arrebatador quanto o da última vez no Brasil, no Lollapalooza de 2013. Mas isso não diminui a magnitude da apresentação que certamente configurará entre as melhores do ano.

Saraivada de hits

Crédito: Estadão

O Foo Fighters é aquela banda que joga para a torcida. Ao longo de 23 anos de estrada, o que não falta é hit. Dave Grohl quando conversa com o público pela primeira vez sempre diz que vai tocar o repertório da discografia inteira. Exageros à parte, pelo menos os sucessos entram quase todos. E ainda sobra espaço para alguns covers e jams. O “boi de piranha” foi ‘Run’, do último disco “Concrete and Gold”, lançado em setembro de 2017. A recepção do público foi calorosa, pois além da empolgação de ver a banda entrando, a música teve uma boa veiculação quando lançada (a do clipe dos velhinhos). Com ‘All My Life’, primeiro megahit da noite, iniciou-se o script que seria seguido até o final das duas horas e meia de rock: Dave berra e a plateia pula. Exatamente com há3 anos no mesmo estádio. A seguinte foi outro clássico, ‘Learn to Fly’, que os mais velhos dirão ser “da época em que a MTV era boa”.

A boa mas não tão estourada ‘Rope’, do disco “Wasting Light”, de 2011, ganhou uma energética versão ao vivo. No final um virulento solo de bateria de Taylor Hawkins, com direito ao set sendo erguido soltando fumaça, no melhor estilo rock de arena. Depois da música, Dave saudou o público mais uma vez, agradeceu a presença e realizou uma enquete: quem já tinha ido a um show da banda e quem estava indo pela primeira vez? Segundo os cálculos do próprio, deu meio a meio. Provavelmente era isso mesmo, dada a faixa etária reduzida. O Foo Fighters é como Ramones, Iron Maiden e Guns N’ Roses, a base de fãs sempre se renova.

Depois de mais uma outra do disco novo, ‘Sunday Rain’ (titulo que seria bastante sugestivo caso as nuvens carregadas sobre o Maracanã de fato tivessem vertido água), ‘My Hero’ foi presentada apenas na voz e guitarra, para no terço final a banda voltar e executar como no original. O bloco de sucessos seguiu com ‘These Days’, ‘Walk’ e ‘Breakout’. Na última houve uma desacelerada no meio e, com as luzes do palco totalmente desligadas, a banda solicitou que luzes dos celulares tomassem conta, dando aquele efeito constelação.

O momento em que os integrantes são apresentados é a deixa para o já tradicional segmento de covers que a banda faz. Quando introduzidos, os aplaudidos com mais efusividade foram Taylor e Pat Smear, que foi guitarrista de apoio do Nirvana e fundou o Foo Fighters junto com Dave Grohl. Primeiro foi o guitarrista Chris Shiflett que puxou uma versão bastante fiel de ‘Under My Wheels’ de Alice Cooper. Depois foi a vez de o baixista Nate Mendel dar uma palinha da linha de baixo de ‘Another One Bites the Dust’ do Queen. O mesmo se daria com ‘Blitzkrieg Bop’ do Ramones, mas diante da insistência da plateia, o cover foi tocado quase em sua totalidade. Daí Dave Grohl abriu brecha para Taylor brincar de Freddie Mercury. Regeu coro chilreado como o vocalista fazia nos shows e cantou ‘Love of My Life’ à capela.

Ainda no clima do Queen, trocou de lugar com Dave, que foi para a bateria, seu posto da época de Nirvana, e os dois emularam o dueto de Freddie e David Bowie com ‘Under Pressure’. Era um momento já aguardado pelos fãs que acompanham as apresentações do FF. Depois dessa hora do recreio, os rapazes voltam ao batente com mais cavalos de batalha: ‘Monkey Wrench’, ‘Times Like These’ (na mesma configuração de ‘My Hero’, Dave solo na primeira metade e banda completa no final) e ‘Best of You’. A saída da banda, depois de mais de duas horas de show, enganou alguns desavisados que já se encaminhavam para a saída acreditando que a festa acabara. Alguns com forças esgotadas também seguiram o rumo. Só que tinha mais.

Depois da brincadeira nos bastidores mostrada no telão em que Taylor e Dave resolvem quantas músicas a mais tocarão, usando os urros da plateia como termômetro para a decisão, eles retornam com ‘This is a Call’. EM homenagem ao guitarrista do AC/DC Malcom Young, fizeram um cover de ‘Let There Be Rock’. No final da música uma imagem do música surgiu no telão. ‘Everlong’ (do álbum “The Colour and the Shape”, de 1997) fechou a tampa, mandando a plateia para casa de alma lavada.

O show do Foo Fighters vem em conformidade com a proporção que a banda tomou. Embebedando os fãs com um setlist greatest hits, Dave Grohl mostra perfeito domínio de palco e abusa de seu carisma aprimorado ao longo desse tempo na função de frontman. Como cenário, um palco com telões laterais de alta definição, um telão central em forma de losango e jogo de luz que vão mudando de posição e em alguns momentos formam também um losango.

É irresistível pensar o que Kurt Cobain acharia disso. É a antítese do que ele arquitetou para o Nirvana. Mas Dave é como Paul McCartney. Gosta de palco, de excursão, e, principalmente, de entreter seus fãs. É nítido como ele se diverte em cena. E é um grande devoto do rock n’ roll. A única frustração foi não ter ocorrido um crossover com o Queens of the Stone Age. As bandas têm uma famosa brodagem, e depois de colaborações em estúdio e ao vivo, esperava-se que nessa turnê conjunta rolasse uma jam. Seria a cerejinha da torta de um farto banquete que saciou a todos.

*Foto de capa: Marcos Hermes/Divulgação

Deixe sua opinião

Sua mensagem
Seu nome