Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa é o nome do novo trabalho de Emicida. E não só o nome é composto em seu resultado. Trata-se de um discurso musical composto de vertentes políticas, geográficas e sociais que se fragmentam em músicas de protesto e poesia que só engrandecem a carreira já tão notável do cantor.

Emicida esteve investigando suas raízes pela África e trouxe de lá não só os simbolismos étnicos para seu novo trabalho, mas sim a consciência musical que emerge daquele continente. Isso fica muito claro na sonoridade conseguida, para além de batidas folclóricas.

O rapper tem uma gramática sonora um tanto contundente e a encaixa em melodias que estão entre o eficiente (repare em “Madagascar“) e o comovente (como lidar com a faixa que abre o álbum, “Mãe“?). Essa é uma qualidade já bem explorada no CD anterior, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, e que sempre chamou muita atenção no seu trabalho. Esse é também, justamente um contraponto com a obra dos Racionais, uma vez que estabelecem seu (legitimo) discurso, mas sem a mesma força musicalmente.

De Afrika Bambaataa a Talib Kweli, o movimento como gênero, sempre fora marcado pela veemência política das letras, mas também pela proeminência das melodias que as adornavam. Emicida equilibra bem essas habilidades (“Casa“, com seu coral de crianças, é uma maravilha).

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Seu segundo disco é ótimo. A música “Boa Esperança“, que ganhou o impactante clipe de João Wainer e Katia Lund, sobre a urgência de um racismo ainda cultural na sociedade, é a síntese do disco, mas o cantor reserva uma boa coleção de músicas ainda mais sólidas sobre o que realmente quer dizer.

As letras – música a música – levantam uma boa reflexão sobre a banalização do oprimido numa sociedade de opressores tão arraigados. E Emicida levanta a questão sem querer ser mais importante que sua própria música (ou seja, borrando a linha que separa o estigma underground – dos discursos feéricos como em “Trabalhadores do Brasil” – da possibilidade maistream – basta ouvir a simpática parceria com Vanessa da Mata em “Passarinhos ). E é o que tem a dizer que fica martelando na nossa cabeça depois que o disco termina, em frases como “a tristeza deforma o rosto aqui, entre o que não te deixa sonhar e o que não te deixa dormir…”.