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Paul McCartney encanta os cariocas depois de 21 anos de espera

É divertido hoje nos lembrar da letra de When I’m Sixty Four do aclamado Sgt Pepper’s dos Beatles: When I get older losing my hair,  many years from now… will you still need me will you still feed me when I’m sixty-four? (quando eu estiver velho e perdendo cabelo daqui a alguns anos…você ainda precisará de mim e me alimentará quando eu tiver 64 anos?) É divertido porque primeiro, ter 64 anos hoje não é mais como naquele distante 1967, quando a expectativa de vida era 70 (no primeiro mundo!) e segundo que Paul McCartney às vésperas de completar 69 está muito distante da figura senil e no fim da vida projetada por ele quando escreveu a letra antes mesmo de entrar para ao Beatles. Há a piada de que em um acordo com o divino, ficou acertado que as rugas iriam para os Rolling Stones, porém dois Beatles teriam de morrer. Para felicidade dos amantes de boa música na metade sobrevivente está justamente o Beatle de carreira solo mais profícua e o que mais excursiona, com isso, pelo menos durante três horas podemos ter a sensação de que o sonho nunca acabou.

Essa sensação foi sentida pelas 90 mil pessoas que lotaram o Engenhão no Rio de Janeiro nos dois dias de show do astro inglês que ao longo de 2 horas e 40 minutos brindou e recompensou o público pagante dos caros ingressos com seu hits da fase do quarteto de Liverpool e também sucessos da fase Wings além de algumas poucas da carreira solo. O show da última segunda feira iniciou sem atraso ao contrário do de domingo. Eram 21h10 quando terminou o set do DJ Chris Holmes, amigo pessoal de Paul que esquentou o público com músicas dos Beatles em ritmos inusitados como salsa e reggae, além de versões de Rita Lee e de uma Taj Mahal de Jorge Bem perdida ali no meio. Logo os telões laterais começaram a exibir a colagem de fotos e algumas imagens em movimento que abre o show, fazendo um apanhado da carreira de Paul McCartney com várias referências de época e ao fundo um remix de músicas da carreira solo e, claro, dos Beatles. Precisamente às 21h30, para azar de quem chegou atrasado, Paul adentra o palco sob gritos histéricos que davam a impressão de que os anos sessenta não tinham passado e depois do tradicional one two three four executa o primeiro hit da noite, Magical Mistery Tour, faixa título do álbum de 1967. Em seguida Jet, clássico do brilhante Band on the run manteve o público em polvorosa. Claro, não poderiam faltar as saudações em português como e aí, cariocas, tudo bem? Nem precisava, Paul já tinha a platéia em suas mãos, platéia bem heterogênea: tinha gente de todas as idades, gente que pegou a beatlemania, gente que começou a ouvir música quando eles tinham acabado de se separar, e um número bem numeroso de jovens que não eram sequer nascidos na primeira visita de Paul ao Brasil em abril de 1990. Como não poderia deixar de ser, os Beatles foram lembrados não apenas nas músicas que ocuparam a maior parte do setlist (22 de 33), mas também em imagens do telão, com referências à fase iê-iê-iê em All my loving e até ao game Beatles Rock Band  e na homenagem à George Harrison em Something, uma das músicas mais belas do álbum Abbey Road, em que foram exibidas fotos de Paul ao lado do amigo na época em que , como dizia a letra de uma canção de George, eram fabulosos (When we were fab) e muitos fãs não contiveram as lágrimas.

Mas Paul McCartney não foi sucesso apenas com seus três companheiros de Liverpool, havia também uma longa e bem sucedida carreira pós 1970 a ser lembrada, com músicas que também sacudiram o público como 1985, Let me in, Mrs Vanderbilt, Band on the Run e a sempre apoteótica Live and Let Die com toda a sorte de efeitos pirotécnicos. A competentíssima banda de apoio é a mesma que o tem acompanhado nas últimas turnês formada pelo guitarrista americano Rusty Anderson, que já trabalhou com Elton John, Willie Nelson, Santana e Joe Cocker, o guitarrista também americano Brian Ray que tem no currículo Keith Richards e Peter Frampton, Paul Wix Wickens, o que está há mais tempo ao lado de Paul, era ele que segurava a onda de verdade nos teclados enquanto Linda apenas apertava algumas teclas (lembrando que ela só estava na banda porque Paul a queria do seu lado). E o destaque é o baterista Abe Laboriel Jr. talentosíssimo músico que é o mais novo da banda, com apenas 39 anos, requisitado por vários artistas, de Steve Winwood a Lady Gaga, ele não só dá um show com as baquetas como também rouba a cena em uma coreografia hilária na bonitinha Dance Tonight, única música do último álbum Memory Almost Full de 2007 presente no repertório do show. Paul McCartney no palco esbanja carisma e um fôlego de causar inveja a muito jovem e a impressão que temos é que ele continuaria ali por pelo menos mais uma hora. É como se o tempo não tivesse passado, mantém o mesmo ar jovial de quando começou sua carreira e é claramente visível que aquilo tudo para ele é mais diversão do que trabalho, brinca com a platéia o tempo inteiro, chamou meninas para receberem autógrafo no palco, alterna instrumentos, ora com seu baixo Hoffner, ora com sua guitarra, além do piano clássico e do piano psicodélico de estimação, além de violão e ukelele. Depois de dois bis matadores que continham Day Tripper, Lady Madonna e I Saw Her Standing There no primeiro e Yesterday, Helter Skelter, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band Reprise/The End no último, Paul se despediu do público carioca que já estava deseperançoso de ver o ex-Beatle ao vivo, haja visto a quantidade de pessoas que também assistiram as apresentações em Porto Alegre e em São Paulo no final ano passado. Todos saíram de alma lavada, e torcendo para que a próxima vez prometida pelo músico seja bem breve.

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