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Pearl Jam leva fãs ao delírio em show memorável no Rio

Os dois maiores ícones do rock de Seattle, que ficou conhecido como grunge, seguiram caminhos opostos. O Nirvana acabou depois da morte de Kurt Cobain, já o Pearl Jam se encarregou de seguir adiante com o legado daquela cena musical da fria e cinzenta cidade do noroeste americano que tomou o mundo de assalto no início dos anos 90. Para muitos, inclusive, foi o último movimento relevante da História do rock.

E aqui estamos em 2015, o quinteto continua em plena atividade, agora laureados como dinossauros do rock, lotando arenas e até lançando bons discos, como o último “Lightning Bolt” de 2013. O que se pôde ver na noite do domingo, dia 22 de novembro, no Maracanã, no Rio de Janeiro, foi a celebração de uma das maiores bandas de rock em atividade, literalmente jogando para a plateia. Era como se fosse um culto com os pastores apoiados no carisma de seu líder no púlpito, acompanhados por um rebanho de milhares de fiéis. O protocolo foi garantido desde discursos em português divertidamente macarrônico e com a ajuda de um papel – “meu português melhorou um pouco desde a última vez, mas continua uma merda” bricou – e bandeira nacional enrolada no corpo no bis.

O show se iniciou com atraso de uma hora, uma hora e cinco minutos para ser mais exato. A previsão de início era para as 20 horas, mas somente às 21h05 que Eddie Vedder (vocais, guitarra e violão), Stone Gossard (guitarra rítmica) Jeff Ament (baixo), Mike McCready (guitarra solo) e Matt Cameron (bateria) subiram ao palco adornado com lâmpadas que surtiam um belo efeito e um painel ao fundo com a arte do último disco. Era o último show no Brasil, e a banda já entrou em campo com o jogo ganho, ainda mais após ter doado o cachê da turnê pelo país para as vítimas da tragédia na cidade mineira de Mariana.

pj3Os primeiros acordes de ‘Oceans’, do clássico álbum de estreia “Ten” fez dissipar a irritação de quem teve que esperar uma hora a mais. O pequeno erro ao iniciar a música de certa forma deu o tom do que seria o show: espontâneo e descontraído e ainda (talvez até por isso) emocionante e com muita entrega, como o da Praça da Apoteose em 2005, na primeira vez do PJ no país. A chuva que não veio também ajudou. Do alto de 25 anos de estrada, havia música o suficiente para preencher três horas de rock alternando clássicos, sucessos, faixas mais desconhecidas, músicas do novo trabalho. Um passeio pelos dez álbuns de estúdio com espaço até para uma da carreira solo de Vedder, ‘Setting Forth’. As faixas de “Lightning Bolt” não fizeram feio ao vivo, sobretudo a energética ‘Mind Your Manners’, mas como já era de se esperar, a mais bem recebida e acompanhada pelo público foi ‘Sirens’, executada frequentemente nas rádios rock do dial nacional.

Em ‘Given To Fly’, uma bela homenagem ao Rio com imagens aéreas, inclusive sobrevoando os primeiros a chegar ao estádio à tarde. Durante o set acústico, iniciado por ‘Yellow Moon’, um fã pediu para subir ao palco e cantar com a banda, dizendo em um cartaz que estava fazendo aniversário. , mas a farsa foi desmascarada pelo vocalista que disse tê-lo visto em outros shows com a mesma placa, então prometeu pagar uma cerveja. Os 25 anos de carreira foram lembrados, e a banda dedicou ‘Just Breath’ para os casais na plateia comemorando aniversário e para um fã que estava completando 22 anos de casado “e ainda transando” brincou Vedder.

pj2Os atentados de Paris não podiam deixar de ser lembrados (o bumbo da bateria trazia um desenho da torre Eiffel), Vedder pediu que todos acendessem os celulares e iniciou o cover do hino pacifista‘Imagine’ de John Lennon, com as arquibancadas cintilantes, no momento mais emocionante do show. O engajamento é uma das marcas registradas da banda e um dos mortos no Bataclan durante o show do Eagles of Death Metal (que também foram lembrados no cover da música ‘I Want You So Hard’) era também um fã do Pearl Jam, “estava sempre na primeira fila”, lembrou o vocalista.

O PJ é conhecido por suas versões de músicas de outros artistas, seja dando personalidade própria como em ‘Last Kiss’ (sim, o hit de 1999 é cover de Wayne Cochrane, de 1961), acompanhada em coro pela plateia, ou pela fidelidade como em ‘Comfortably Numb’ do Pink Floyd, que fez a alegria de quem também era fã da banda inglesa.

Os momentos mais empolgantes? Como era de se esperar, foram os clássicos ‘Even Flow’, ‘Do The Evolution’, ‘Jeremy’ e ‘Black’, que se encerrou com as 60 mil vozes entoando a última estrofe, enquanto a banda fazia o fechamento instrumental. Já aquele fã que pediu para subir no palco acabou conseguindo realizar seu sonho. Bebeu vinho da garrafa de Vedder e cantou a primeira estrofe ‘Porch’. Logo se viu que se tratava de um cover do cantor, dada a fidelidade da execução. A música terminou com o vocalista literalmente nos braços da multidão em uma pequena passarela que cortava a pista Premium, depois de uma ameaça de mosh. Logo Após ‘Better Man’, música do disco “Vitology”, com direito a Vedder quebrando a guitarra no final, entra, quase como um medley, Alive, o momento de apoteose. Para encerrar, o já tradicional cover de Neil Young ‘Rockin’ In The Free World’ e ‘Yellow Ledbetter’, momento em que Vedder vestiu por cima da bermuda uma sunga vermelha jogada por alguém da pista.

Uma apresentação memorável de uma banda empolgada, que após um quarto de século ainda parece se divertir no palco como no auge, ali circa 1992/93. Nem pareciam cinco senhores cinqüentões. Músicos afiadíssimos, afinal é a mesma formação desde 1998, quando Cameron assumiu as baquetas, e o inabalável carisma do frontman, sem dúvida a maior voz do rock em atividade, somados à descontração de último show da turnê no país deram a receita do sucesso da noite. Um deleite de um domingo que encerrou um feriadão para fãs, desde os que foram conquistados na época do primeiro álbum até os que sequer eram nascidos na era grunge. E enquanto termino este texto cai no Rio a temida chuva que felizmente não veio durante o show.

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