Entrevista: Rodrigo Suricato abre a alma e fala sobre o novo álbum | Música | Revista Ambrosia
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Entrevista: Rodrigo Suricato abre a alma e fala sobre o novo álbum

Rodrigo Suricato é um daqueles artistas inquietos e cheio de facetas. O cantor, compositor, multi-instrumentista e atual voz do Barão Vermelho lançou, em julho, o seu novo álbum, “Na Mão as Flores”.

Com shows marcados no Rio e São Paulo — dias 20 e 29, respectivamente — Suricato pretende levar aos palcos o mesmo formato one man band com o qual gravou o álbum.

O cantor conversou com a Revista Ambrosia e contou detalhes do novo trabalho.

Nesse novo álbum você toca todos os instrumentos, o que não é uma coisa muito comum. Como foi isso?

— Realmente não é muito comum. Acho que todo músico que compõe suas próprias canções e é capaz de tocar bem os instrumentos, em algum momento, vai se autoproduzir e fazer um disco sozinho. Esse disco é o “suco puro do Rodrigo”.

Por que assinou como Suricato (projeto por onde já passaram vários músicos) e não Rodrigo Suricato?

— Suricato é um projeto pelo qual já passaram uns 12 músicos e não uma banda. Nesse álbum eu estou com esse formato solo e no próximo posso mudar tudo. Tenho muita liberdade com esse projeto.

Você é bastante conhecido como guitarrista. Como é a sua relação com o instrumento?

— Eu toco guitarra desde os 8 anos de idade. Eu nasci guitarrista. Tocar um instrumento demanda tempo, dá trabalho. Exige uma dedicação que nem sempre as pessoas estão dispostas a dar, principalmente nos dias de hoje, onde tudo é tão instantâneo.

Como surgiu o repertório de “Na Mão as Flores”?

— A gente nunca sabe quando está compondo para um disco. Eu tinha uma série de canções e comecei a perceber que elas tinham uma certa identidade. E, quando você vê, as canções formam uma narrativa. Foi isso que aconteceu.

E qual era essa identidade?

— Sou tímido e estava passando por uma fase mais introspectiva. Eu sentia que a minha linguagem precisava ser mais verdadeira com o momento que eu estava vivendo, o que me fez fazer o disco quase autobiográfico. ‘Tatua’, por exemplo, é uma canção que eu fiz para mim, quase como uma oração para me tirar do sufoco nos momentos difíceis. Ela fala de questões tão universais que as pessoas se identificam. Os meus medos e angústias são exatamente iguais aos de todo mundo.

Foram muitas canções até chegar ao repertório do álbum?

— Sim. Eu selecionei 30 canções e dessas nós fizemos a peneira final com 12. E fiz várias versões de cada uma delas.

Ainda há canções para lançar?

— Além dessas 12, outras duas ficaram de fora, mas que eu pretendo lançar em breve com uma versão acústica do disco. Eu quero dar a oportunidade para as pessoas ouvirem as canções da maneira que foram compostas. Todas foram compostas no violão, mas eu não quis fazer um disco de violão e voz. Eu estava experimentando muito com a música eletrônica e quis trazer essa linguagem.

Suricato

Todas as canções são autorais, com exceção de ‘Como Nossos Pais’, do Belchior. Qual a razão da inclusão dessa canção no álbum?

— Essa música já fazia parte do setlist dos meus shows. Esse é um momento bem guitarrístico. O Belchior era fã de blues, eu também sou, e como estou falando de natureza humana, foi impossível não ser afetado por tudo o que aconteceu no Brasil no ano passado. E essa música do Belchior é incrivelmente atual até hoje. Achei que ela fechava bem esse ciclo. A Terra já girou tanto e a humanidade mudou tão pouco. Então, tive a coragem de dar uma forma própria para a canção.

Por falar em Brasil, como você vê esse clima de divisão do país?

— A humanidade está discutindo relações e está lidando com uma realidade nova. Novas tecnologias e um ambiente público que não existia antes. É inevitável a gente sofrer as consequências, mas cada um precisa entender o seu papel e o que pode fazer para melhorar o mundo exterior.

Não precisa partir para a guerra para melhorar o mundo, certo?

— Toda arte é uma forma de fazer política. Só que nem todo soldado é talhado para ir para o front. Minha forma de convencimento e de fazer política é um pouco mais estratégica, tocando a alma das pessoas de outra forma. Minha maneira é falando de amor, o que é muito diferente de ser isento. Eu acredito no cultivo da individualidade para o bem do coletivo.

Você tem participações como músico acompanhando vários artistas. Como foi essa mudança para a frente dos holofotes com vários projetos ao mesmo tempo?

— Eu não planejei isso para a minha vida. Quando eu estava iniciando na música eu não queria nem cantar. Queria ficar do lado escuro do palco acompanhando os artistas, o que tinha mais relação com a minha timidez. Só que comecei a gravar e excursionar com vários artistas e surgiu a oportunidade do Barão Vermelho, num momento em que a formação televisiva do meu trabalho já não estava mais me deixando feliz. E o Barão é o melhor processo coletivo que eu já vivi na minha vida. Essas pessoas já passaram por muita coisa, então o nível de maturidade do diálogo é absurda. Agora eu posso ter o melhor dos dois mundos: um espaço mais solitário e um outro bem democrático. Fico feliz em conseguir ser vocalista de uma banda e também tocar uma carreira solo.

E como se sente sendo vocalista do Barão?

— Quando entrei no Barão, eu já era o Suricato. Já tinha um Grammy Latino e havia participado do Lollapalooza. Eu não me formei no Barão e não tinha a intenção de imitar o Cazuza ou o Frejat. Quero dar minha voz e personalidade ao grupo. É um tremendo desafio. Vamos lançar um álbum de inéditas ainda neste ano e várias das canções são minhas. Estou ansioso.

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