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A Semana dos Realizadores acontece no Rio de Janeiro

Nesta última quarta feira, dia 23, começou uma das semanas mais esperadas dos cariocas que fazem ou adoram cinema, A Semana dos Realizadores.

Pra quem não conhece, o Festival, de curadoria por Lis Kogan e Daniel Queiroz e com patrocínio da Petrobras e da RioFilme, é voltado para produções independentes brasileiras que não conseguiriam, por diversos motivos, seja duração, temática ou falta de recursos mesmo, entrar em cartaz.

Em sua oitava edição, sempre no Espaço Itaú de Cinema, trazem filmes que falam sobre a macro e as micropolíticas. Sobre a luta indígena, em filmes como Taego Awã, exibido ontem, e Martírio, filme de Vincent Carelli, que após tanto sucesso na abertura do festival, será exibido novamente amanhã, às 11 horas da manhã.

Martírio é um documentário que traz um histórico da luta dos índios Guarani-Kaiowá, por sobrevivência e por seu próprio espaço, em imagens de arquivo e entrevistas, guiadas pela voz do diretor, que vem desenvolvendo projetos com grupos indígenas há muitos anos. Seria de pensar que depois de tanto tempo, teríamos aprendido alguma coisa, teríamos deixado de ser condescendentes com os ancestrais de nossas terras, ao invés de tratá-los como seres menos evoluídos que foram devidamente educados e estruturados por uma sociedade mais avançada. O filme mostra, entretanto, que apenas os métodos mudam, mas o descaso e o desrespeito permanecem.

Martírio é um belíssimo documentário e uma porrada no estômago que merece ser visto. Para aqueles que acham o tema muito específico e não tão interessante, é só irem com o olhar de quem vai observar a história de qualquer povo subjulgado por outro, de qualquer grupo dominado por outro. Bastante útil em tempos como os que vivemos. ‘Martírio’ ganhou os prêmios de Melhor Filme de longa-metragem pelo Júri Popular e Prêmio Especial do Júri Oficial no Festival de Brasília.

Outras micropolíticas também estão super bem apresentadas e representadas. A temática da mulher será abordada em filmes feitos por elas ou sobre elas, contando ainda com a retrospectiva da diretora mineira Marília Rocha e com uma mostra chamada Com Mulheres, de filmes selecionados pelo festival Cachoeiradoc. Entre os destaques, está o programa Encantarias, dedicado à obra da cineasta/artista Louise Botkay, que será exibido no último dia, dia 30, às 15h.

As questões de gênero e sexualidade, tão em pauta, também surgem com força através da voz de diversos nomes das artes e do cinema, tais como o artista Luiz Roque, cujos trabalhos são, geralmente, voltados para exibição em galerias e museus, ou ainda através do resgate de Amor Maldito, realizado em 1984 por Adélia Sampaio, primeiro longa metragem brasileiro dirigido por uma mulher negra.

Nele, vemos uma trágica história de amor entre duas mulheres: uma executiva e uma ex-miss, filha de família evangélica e opressora, que comete suicídio. Tornada réu pela morte da ex-companheira, a executiva é julgada por uma corte preconceituosa e cruel. O filme, redescoberto por conta das discussões em torno de realizadoras negras, é baseado em uma história real (os diálogos do julgamento, por exemplo, foram tirados dos autos do julgamento real) e será exibido amanhã, domingo, às 16h. Para complementar a sessão, também será exibido o belíssimo curta Kbela, da diretora Yasmin Thayná. Kbela é um filme que, mesmo não seguindo nenhuma narrativa clássica, consegue transmitir diversos sentimentos com extrema força. É composto por extratos de momentos e movimentos que estão ali para falar sobre a beleza negra, sobre os padrões estéticos que lhes são impostos e sobre a coragem e a liberdade de ir contra eles e abraçar todas as possíveis referências de uma cultura negra ancestral.

Também serão abordadas as ocupações nas escolas – em curtas metragens realizados com os próprios alunos, como o sensível Desmonte – a desigualdade e o abismo social e geográfico entre a cidade e as comunidades e o descaso institucional com as artes – em um longa que será exibido hoje, à meia noite chamado A grávida da cinemateca. Mas não temam, mesmo falando sobre diversos assuntos polêmicos ou de encalço político, os filmes não se resumem a denúncias. São obras sensíveis, realizadas por diretores que tentam trazer poesia e ludicidade às suas narrativas.

Desde as últimas edições, o festival vem abrindo cada vez mais espaço para linguagens e gêneros diferentes, abraçando a vídeo-arte e os filmes feitos por artistas. Hoje, às 14h e às 15h, serão exibidas sessões compostas por curtas e médias metragens de nomes como Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco, Daniel Steegman, Thiago Rocha Pitta e Luiz Roque.
Apesar de ser dedicado à produções de gerações mais recentes, o Festival não se fecha à participação dos cineastas já estabelecidos e, que, muitas vezes, são inspiradores para muitos jovens começando. Nos últimos dois dias, serão exibidos o longa novo de Julio Bressane, Beduíno e de Luiz Rozemberg, Guerra do Paraguay.

São muitos filmes, pra todos os gostos. Vale a pena conferir. O ingresso cheio está a 12 reais e 6 a meia, preços módicos até, em tempos de crise e de valores exorbitantes. Recomendo olharem a programação com calma e escolher, ou simplesmente ir no espírito de aventura e dar uma oportunidade a assistirem algo bem diferente do que estão acostumados a ver.

Serviço

8ª Semana dos Realizadores
De 23 a 30 de novembro de 2016
Espaço Itaú de Cinema Rio de Janeiro
Praia de Botafogo, 316 – Botafogo (2559-8751)
Ingressos: R$ 6 (meia-entrada) e R$ 12
www.semanadosrealizadores.com.br
www.facebook.com/semanadosrealizadores
www.instagram.com/semanadosrealizadores

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