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A saga dos Bojeffries, o tesouro esquecido de Alan Moore

Com apenas 26 edições, a revista britânica Warrior foi, junto com a 2000AD, a incubadora de algumas das vozes mais importantes dos quadrinhos britânicos durante os anos 1980. Nessa magazine Alan Moore se estabeleceu como um dos escritores mais incisivos graças a Miracleman e V de Vingança (V for Vendetta).

Seguindo outras resenhas e artigos com trabalhos do roteirista inglês como suas histórias em Star Wars, Dossiê Negro de A Liga Extraordinária ou o primeiro volume de Providence; trazemos um trabalho dos anos 1980, uma obra meio que esquecida, que embora não tenha ajudado a consolidar seu nome nos quadrinhos, é parte integrante de sua poética.

Bojeffries A Saga

No caso Bojeffries: A Saga, uma HQ, publicado pela Devir por aqui, com prefácio do Alexandre Callari, da Editora P&N; que narra a vida de uma família inglesa de mesmo nome composta por seu pai Jobremus, seus filhos Reth e Ginda, seus tios Festus e Raoul, respectivamente um vampiro e um lobisomem; Vovô Podlasp – um ser nos últimos estágios da matéria orgânica inspirado nos Grandes Antigos Lovecraftianos; e e caçula Festus, um bebê que consegue gerar energia termonuclear suficiente para iluminar toda a Inglaterra e o País de Gales… Obviamente, não se trata de uma família normal.

Uma narrativa bastante engraçada, com piadas, ironias e sarcasmos; além de um Steve Parkhouse que agarra o humor de Moore na hora e o reapresenta em preto e branco, incrível. A beleza, no entanto, é que Moore insere algumas ideias bem interessantes numa ideia não tão original.

Como um sitcom ao estilo de A família Addams ou Os monstros, que derrubaram a dinâmica dos sitcoms familiares da época (mesmo que para Moore as referências sejam às histórias de Henry Kuttner e ao teatro de NF Simpson); Bojeffries: A Saga em vez de representar a normalidade da família padronizada, mostra a igualmente normal – para eles, não para nós – a vida de um núcleo de monstros. E dá até ara imaginas aquelas risadas gravadas, os arroubos quando uma uma estrela convidada entra, ou um “Awwww” nas cenas adocicadas. Quem lembra dos primeiros capítulos de Wandavision, sabe do que estamos falando.

Bojeffries causa um choque, pelo período que usa como cenário: a Inglaterra da década de 1980. Época que a moralidade vitoriana (repressão sexual, rígido código de conduta) encontrou terreno fértil com o governo Thatcher. Por outro lado, se tornou lugar comum do pós-guerra, e aqui Moore aproveita para criar uma justaposição do fantástico e do real para mostrar como a vida cotidiana é irracional.

Mas este é apenas o nível superficial. Moore brinca com tudo isso, em parte invertendo os sentidos, com sátira e humor ácido; como fez em Miracleman, o roteirista usa quadrinhos para falar sobre a Inglaterra e desafiar o thatcherismo, localizando a história para que não faça sentido em outro lugar.

Mais do que contos divertidos e engraçados sobre um vampiro que sai para fazer compras e é queimado pelo sol ou perfurado por estacas de madeira (mas também há isso); Bojeffries: A Saga é sobre a cidade natal de Moore, Northampton; da classe trabalhadora, de inglesidade, de essência britânica, para ir além dos estereótipos sinistros.

E Parkhouse incuba densamente sua arte, indo além dos desenhos animados que sempre apresentam aqueles ônibus de dois andares e cabines telefônicas,

A família e a sociedade britânica

Os Bojeffries estão todos procurando por seu papel na atual sociedade inglesa, aqueles que formaram a sociedade britânica, mas sempre permaneceram à margem. Da filha troll ao tio operário; passando pelo cobrador de impostos que representa o estado, a autoridade; e acaba se tornando um vegetal na casa dos Bojeffries, preferindo ser assim do que um humano.

Esse primeiro conto mostra o que encontraremos na série, aqui o monstruoso é identificado com a domesticidade e a norma passa a ser sinônimo de exclusão.

Os Bojeffries vivem no Reino Unido pós-colonial, onde não basta buscar uma identidade nacional, mas também é preciso descobrir uma nova identidade, a das segundas gerações de imigrantes. Só que Moore, no lugar de usar personagens densos, coloca vampiros e outros monstros de gênero, dentro de uma estrutura de sitcom muito tradicional, produzindo uma distorção surrealista .

Alan Moore

Novamente, Moore usa monstros para falar sobre si mesmo. Quase todos os personagens falam sua própria língua, um dialeto com fonemas muitas vezes incompreensíveis e distorções sintáticas. O que a Devir valorizou em trazer uma edição bem traduzida, por Leandro Luigi Del Manto, que apesar de algumas referências bem locais, preservou a veia sarcástica do Bruxo; dá para acompanhar bem as peculiares histórias desta excêntrica família.

Sombria e surreal a saga vai além da crítica social; Moore cria um universo à esfera privada da família, em que cada gesto esconde uma tradição impenetrável aos olhos de estranhos. Exemplificada na história inicial: Jobremus ensina seu filho a pescar morcegos com mariposas, numa sequência imbuída de um estranho lirismo, precisamente porque não conseguimos apreender totalmente o sentido, mas ainda entendemos que por trás dele há um legado repleto.

Conclusão

Se procuram um humor inglês, daquelas gags conhecidas a la Mr Bean, com um Alan Moore engraçadinho; quadrinhos de uma prosa ligeira, cheia de momentos engraçados e ácidos; Bojeffries A Saga é um achado. Recomendamos a leitura deste épico desconstrucionista satírico da família britânica contemporânea, divertido e estranho.

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

A saga dos Bojeffries, o tesouro esquecido de Alan Moore
4 / 5 Crítico
Avaliação

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