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Craig Thompson se supera em Habibi, uma história de amor numa orgia de arte sequencial

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O norte-americano Craig Thompson tornou-se conhecido pelo seu Retalhos (Blankets, no original), um êxito de crítica e vendas – a obra foi vencedora de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e de dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista). Seu estilo autobiográfico comove pela delicadeza que trata as dores e as paixões de um adolescente e suas descobertas, ainda mais com a linguagem gráfica desenvolvida, e por sinal, extremamente original. Por isso aguardava com muita expectativa o Habibi (Habibi, tradução de Érico Assis, 672 páginas, R$ 57,00) lançado ano passado pela Companhia das Letras pelo selo Quadrinhos na Cia.

Foram sete anos de pesquisa e desenvolvimento da narrativa gráfica, onde a Pantheon Graphics bancou e Thompson aproveitou para construir uma história que abordasse elementos como escravidão infantil, fantasia, lugares exóticos e cultura islâmica. Entretanto, na idealização do projeto de Habibi, segundo seu blog, Thompson sentia intimidado por dois obstáculos, um, pelo sentimento, diante das expectativas geradas, de superar o trabalho feito em Retalhos e pelas as dúvidas em relação a ferir sensibilidades no processo de criação. Por causa disso, o trabalho que estaria destinado a uma narrativa gráfica de duzentas páginas, com um prazo de dois anos, converteu-se numa obra, que triplicou a extensão prevista e consumiu alguns anos de sua vida.

Mas o resultado é primoroso, através de mais de seiscentas páginas o autor articula uma história centrada nas vivencias de Dodola e Zam, o habibi (meu amado, em árabe) que dá o título da graphic. Órfãos e escravos fugitivos, os dois personagens moram num país indeterminado, assolado pela extrema pobreza, em contraste com o comodismo de algumas classes privilegiadas. Ao se encontrarem começam a construir uma estreita relação de carinho e proteção, que oscila entre o maternal e o fraternal, mas que vai derivando a um vínculo amoroso. Um amor que, colocado a prova pelo curso do tempo, se converte num porto seguro, a qual os personagens convergem, pela lembrança contida nas recordações e pela esperança do reencontro, motivo que os ajuda a sobreviver perante o inferno que irão passar.

Craig Thompson

Podemos encontrar algumas características de Retalhos como a visão da sexualidade associada ao trauma, a adoção de culpa e vingança pela perda da inocência, o papel da religião como fator condicionante da personalidade e a história de amor com barreiras por todos os lados.  Entretanto neste novo trabalho Thompson toma arquétipos, situações e reflexões de uma forma que se sobressai perante o trabalho anterior, uma maturidade ímpar, notável no uso de várias ferramentas narrativas e composições literárias que tem ao seu alcance, conseguindo sair da sombra de seu trabalho anterior. Abusa das histórias paralelas, inspiradas, é claro, nas Mil e uma noites, como uma homenagem aos personagens dos célebres contos árabes.

A estrutura narrativa é de um equilíbrio vertiginoso, que mesmo parecendo cronologicamente desordenada, está perfeitamente compreensível, pela forma que funde texto e desenhos a uma sensibilidade artística que jamais vi. Ao mesmo tempo em que conta a história de amor dos protagonistas o autor reflete sobre desigualdade social, escravidão estupro, política, islamismo, cristianismo e ecologia, inserindo num cenário constituído de versos do Corão, da caligrafia e da iconografia árabe.

Neste sentido, o autor consegue expor metáforas e simbolismos em conjunto com a escrita árabe, formando palavras e frases que se transformam aos olhos do leitor, que mudam o sentido em meio à narrativa que está associada, compondo quadros carregados de significado e de um impacto estético incrível. Arabescos, ornamentos e arquitetura do Oriente Médio, linhas geométricas, curvas, sensualidade, estampas bíblicas e do alcorão entre outros elementos fazem um conjunto artístico sem parecer fora do contexto, convertendo num verdadeiro trabalho artesanal.

Mas nem tudo é perfeito em Habibi, como determinadas mensagens óbvias por demais, uma ou outra metáfora gráfica repetitiva – especialmente aos traumas sexuais de Zam – a descontextualização temporal, que resulta por alguns momentos estranha; em todo caso, não são suficientes para tirar a atenção, a cumplicidade ou o interesse do leitor pelo trabalho detalhista e minucioso de Thompson. E afinal, o autor chega a maturidade de poucos privilegiados, um domínio da linguagem gráfica como Will Eisner considerava perfeito, pela sensibilidade contida a cada página, a cada quadro, a cada desenho, a cada traço.

Fenomenal seria a palavra correta para finalizar este artigo, Habibi é uma história maravilhosa, nos dois sentidos, pela universalidade dos elementos contidos em seu argumento e pela forma moderna de mostrar o sacrifício, a crueldade, a culpa e a esperança humanas. E ante tudo, uma história de amor, daquelas de verdade…

[xrr rating=5/5]

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Ativista

Publicado por Cadorno Teles

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