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Heróis Reunidos: Liga da Justiça – A Era de Ouro

[Daniel Braga é nosso ilustre autor convidado]

A idéia desta série de artigos é ser mais um ensaio do que uma reportagem sobre o maior e mais famoso grupo de heróis das histórias em quadrinhos. Mesmo que passando por suas encarnações, cronologia, histórias e reformulações desta vasta obra de ficção, a idéia é muito mais abordar o contexto de cada período da Liga, já que a equipe está para passar por uma mudança, como já foi noticiado aqui. Não se trata portanto de uma ordem cronológica definitiva, mas sim um recorte sobre cada momento vivido pelo grupo ficcional. Divirtam-se.

Action Comics #1
Action Comics #1

A Era de Ouro (1938 -1951) – Nasce a Sociedade

O período histórico conhecido como a Era de Ouro é onde as histórias em quadrinhos americanas se tornaram populares, onde também o arquétipo do super-herói foi criado, moldado definido e muitos dos seus mais famosos representantes surgiram. Superman foi o primeiro protótipo icônico de todos os heróis que vieram depois, sendo um sucesso enorme e imediato entre o público leitor. Sua publicação em Junho de 1938 na revista Action Comics #1 estabeleceu parâmetros para o grande gênero dos super-heróis que se multiplicou rapidamente com Batman, as primeiras encarnações do Lanterna Verde, do Flash , do Gavião Negro e Mulher-Maravilha pelas duas editoras irmãs National Allied Publications e All-American-Comics (a futura DC Comics).

Bem como o Tocha Humana e Centelha, Namor, Visão e Capitão América e Bucky pela Timely Comics (futura Marvel Comics) e ainda tantos outros como o Homem-Borracha da Quality Comics, as tiras em jornal do Spirit de Will Wisner e claro, o herói que teve sua revista mais vendida na época, Capitão Marvel (Shazam) pela Fawcett Comics (Editora que mais tarde seria comprada pela DC). A popularidade dessas histórias se dá pelo fato de que, nesta época de guerra mundial, as HQs não eram só vendidas para crianças, mas também para os combatentes aliados pelo globo, e, portanto seus temas (lutar contra o crime e a tirania) eram bastante apelativos para seu público alvo.

A idéia de um time de grandes super-heróis, todos juntos em um só lugar (e uma só revista) começou com o nome Sociedade da Justiça da América, tendo sua primeira aparição na em 1940 em All-Star Comics #3. Na história, o Presidente Roosevelt dos EUA convoca todos os heróis para uma reunião. Apenas dois deles, Batman e Superman não comparecem por estarem muito ocupados (na verdade, por serem muito populares em suas próprias revistas), se tornando apenas membros honorários. Mas apesar da ausência dos dois mais famosos personagens, os integrantes eram os heróis mais conhecidos das duas editoras irmãs National e All-American: Gavião Negro (Hawkman), Lanterna Verde (Green Lantern, Alan Scott), Flash (Jay Garrick, Joel Ciclone no Brasil), Átomo (Atom), Homem-Hora (Hourman), Sandman, Dr. Meia-Noite (Dr. Mid-Nite), Senhor Destino (Dr. Fate) e Espectro (Spectre). A junção desses personagens de diferentes revistas causou uma comoção e uma epifania nos leitores infantis e em serviço militar: “Esses personagens habitam o mesmo universo! Eles podem se encontrar no mesmo lugar!”.

All-Star Comics #3
All-Star Comics #3

Era o começo do que hoje é o Universo DC. O time se tornou muito popular, alavancando alguns personagens como Flash e o Lanterna, que antes não eram tão famosos a se tornaram mais tarde membros honorários. Na verdade, com o grande sucesso as editoras irmãs passaram a brigar e os dois “sumiram” das histórias, sendo visto apenas em seus títulos próprios. Apenas o Gavião Negro é o único membro original da Sociedade da Justiça a aparecer em todas as suas histórias. Mais tarde ainda outros personagens se juntaram ao grupo: Starman, Johnny Thunder (Johnny Trovoada), Sr. Incrível (Mr. Terrific), Celestial (Star Sprangle Kid, posteriormente Skyman), Red Tornado (Mathilda Hunkel, Tornado Vermelho), Canário Negro (Dinah Drake Lance, Black Canary) e a primeira super-heroína de todas, a estreante Mulher-Maravilha, em 1941 na mesma All-Star Comics.

Apesar disso, no começo ela não participava ativamente da equipe, sendo considerada uma secretária do grupo, (uma atitude que seria considerada bastante chauvinista hoje em dia). Curiosamente o Átomo sumiu por dois volumes. A bem verdade o personagem era não era tão popular, só muitos anos depois, em suas revisões de continuidade a DC explicou o sumiço e reaparecimento de alguns membros. As primeiras histórias da Sociedade foram escritas por Gardner Fox (falaremos dele mais para frente) e passou por uma legião de desenhistas como E.E. Hibard, Jack Burley, Jack Kirby e Joe Kubert. As histórias de Gardner começaram mais com capítulos separados onde o time se reunia e se separava entre ameaças (algumas vezes com diferentes desenhistas para cada capítulo). Após três números, histórias onde eles combatiam um inimigo comum diretamente começaram a aparecer também (e a fazer mais sucesso, servindo como elemento catalisador para o que estaria por vir).

All-Star Comics #57
All-Star Comics #57

Após o fim da Segunda guerra mundial, os soldados voltaram para seus lares e a necessidade de heróis passou a ser menor do quanto antes. Assim o gênero dos super-heróis começou a cair. Além disso, alguns também apontam outros motivos: Começaram a aparecer escândalos e afirmativas que as HQs eram responsáveis pela delinqüência juvenil e todo tipo de “perturbações” e outros absurdos advindas do Macartismo . De fato, as vendas das revistas em quadrinhos começaram a cair no começo dos anos 50, em particular as de super-heróis, a Timely cancelou seus gibis de heróis, e a não ser pelas revistas da tríade Batman, Superman e Wonder Woman a maioria dos outros títulos caíram na obscuridade por alguns anos. Para muitos a Era de Ouro termina de fato quando a DC cancela em All-Star Comics #57 em 1951, que marca o final da Sociedade da Justiça em sua ultima aventura.

Após a queda dos super-heróis, vários outros gêneros de HQs começaram a florescer para preencher o vácuo nas vendas: Faroeste, Terror, Ficção Científica, Capa e Espada, Romance, Humor. Editores de HQs estavam alertas, sempre de olho nas tendências do mercado e nos títulos da concorrência. De uma noite para outras pessoas como Stan Lee eram convocadas criarem histórias de um gênero para outro em busca da nova galinha dos ovos de ouro. Cancelada, All-Star Comics reaparece como All-Star Western, cheias de caubóis, cavalos, revolveres e índios.

All-Star Western #60 (1951)
All-Star Western #60 (1951)

Nesta época uma das mais importantes figuras de toda a história das revistas em quadrinhos apareceu: o editor da Julius “Julie” Schwartz. Contratado pela DC de fora da cena das HQs durante a queda dos super-heróis, Julius foi escolhido como editor pelo seu conhecimento de ficção científica e revistas pulp . Anos depois de sua contratação, em 1956, teve uma intuição: Percebendo que já haviam passados muito tempo que os super-heróis da Era de Ouro haviam sumido de cena e que o publico da HQs já havia mudado totalmente, Julie resolveu que já era hora de trazê-los de volta e ver o que acontecia. Mas em vez de só reviver o Flash, com seu capacete do deus Hermes/Mercúrio, decidiu fazer uma versão modernizada, com uma origem mais contemporânea, com uma base mais científica e mais ousada e ainda com um novo design de Carmine Infantino e arte-finalizado por Joe Kubert.

Só o nome e os poderes continuaram iguais, mas ele tinha uma personalidade completamente diferente e bem como também um visual completamente diferente. Isso chamou a atenção dos fãs, que passaram a adorar o novo Flash. E assim, em Showcase #4 em 1956 não apenas nasceu o novo Flash, mas também um novo período nas histórias em quadrinhos: A Era de Prata.

9 COMENTÁRIOS

  1. A Canario Negro Original, Dinah Drake Lance, que estreou na Flash Comics #86 (Agosto de 1947), é mãe da Canario Negro atual, Dinah Laurel Lance.
    E houve uma pequena participação do Tornado Vermelho que era mulher, sua primeira aparição em All-American Comics #3 (Junho de 1939).

  2. Camino, obrigado pelo elogio. Fico muito honrado de escrever aqui no Ambrosia, que curto e acompanho desde sua gênese. Foi muito divertido escrever esse ensaio.E divertido mesmo é ver ele prublicado aqui na página branca e clean do Ambr’s. rs
    Ah, adorei essa imagem da sociedade revista pelo Alex Ross. Valeu pela formatação!
    Já estou anscioso pra ver o resto publicado, adoro a parte sobre Era de Prata.
    É bizarro mesmo essa coisa da Diana de secretária, porém, me parece que seja uma coisa de uma idéia que evolui. Afinal, ela começou na sua identidade mortal como enfermeira, depois passou para a Força Aérea Americana. Sem desmerecer a profissão, que eu acho linda, mas pensar numa enfermeira dos 40 para HQs para crianças e soldados é pensar num esteriótipo de uma mulher servidora, e não uma “curandeira”. Acho bacana identificar essa evolução, mesmo que ela se passe por lugares “questionáveis”. Lembrando, ela é a primeira. Se hoje uma Huntress é uma mulher Lacaniana, fálica, se hoje uma Prometheia é uma protagonista de enredos com forte cunhos místicos e filosóficos, se hoje a líder da Liga é a Canário Negro, que manda o Batman resolver a papelada burocrática pela destruição de metade do Salão da Justiça pelo Amazo, se hoje a Mulher Gato derrota o Batman com um beijo e depois roubando o Batmóvel ou rouba do anel do Hal Jordan em que ele perceba no meio de uma porraria, se hoje o melhor artista marcial da DC é a Lady Shiva é porque existiu uma Mulher Maravilha no começo, enfermeira, secretária da SJA, mas guerreira, se jogando com coragem na frente de balas, confiante que seus braceletes irão refleti-las. Pensa numa mulher assim na época sendo concebida como modelo para meninas, é muito legal!
    Acho de fato uma bobagem essas sugerstões de sadomasoquismo na personagem, e sinceramente , quase me arependi de comentar que o criador dela era polígamo. Acho que a maldade está nos olhos de quem vê, mas enfim, omitir isso também é meio que não informar. Se para algumas pessoas isso pode soar imoral, acho que imoral é o mal uso das criaçõe dele como o detector de mentiras ou o preconceito sobre opções alternativas de relacionamento afetivo ou mesmo de preferências sexuais.
    Vale a pena conhecer a Mulher Maravilha do Frank Miller de Cavaleiro das Trevas 2 e All Star Batman and Robin the Boy Wonder. Ou mesmo a da Fronteira Final, do Reino do Amanhã ou a da dos desenhos da Liga que pra mim já são extensões do que Pérez começou a trabalhar lá no pós-Crise. Como qualquer mulher interessante, Diana é um mistério, sempre que você acha que a entendeu, ela vai lá e te dá uma rasteira.
    Lam, é isso mesmo, grande toque, já foi incluido na matéria. Foi difícil manter uma visão geral sobre o assunto, muita coisa foi escrita e revisada nos ultimos 50 anos sobre a Sociedade/Liga, principalmente se vc pensar que eram duas editoras irmãs, e não a forte DC de hoje em dia. Os heróis apareciam e sumiam, como o caso do Átomo , Lanterna I e Flash I sem menor aviso. Meu enfoque era a Liga, só quando fui escrevendo que percebi que precisava me deter mais na Sociedade*. Valeu mesmo pela ajuda. Afinal vc é o cara das HQs aqui.
    Espero que você esteja curtindo a parada , manda um Eu acho ai quando quiser. Gosto de ler suas opniões.
    Vale lembrar que antes de se chamar Skyman, o Celestial se chamava Star Sprangle Kid. Ainda bem que logo depois mudaram o nome do rapaz. E assim como no Brasil o Flash I tinha o nome de Joel Ciclone o Hawkman I foi chamado (pelo menos na Abril, não sei se na Ebal) de Falcão da Noite, com o sentido de se diferenciar do Gavião Negro, acho.
    Fê, cara, que saudade já, só tenho noticias sua (que não são sobre a sua pessoa, mas não deixam de ser suas) aqui.
    A vida tá aquela correria, e agora tô muito envolvido com o Teseu do Sonho de uma noite de verão e com meu pré-projeto final, dai já viu.
    Mas tão logo sobre uma brecha, eu apareco. Beijos na Di e abraços na galera.
    * Imagino que seja engraçado para leitores mais recentes (que não acompanharam a primeira Crise) ler uma matéria da Liga que começa falando da Sociedade. Continuem lendo, a coisa se exclarece depois.
    E comentem, tirem dúvidas, tamos ai. rs

  3. Nas primeiras histórias da Mulher Maravilha nota-se muito a repressão sexual da época ao mesmo tempo que alguns personagens claramente possuem uma homossexualidade embutida.
    Nesta edição que a Panini lançou a pouco, As Maiores Histórias da Mulher-Maravilha chama atenção um pouco disso, a uma história em que uma ex-vilã e cativa das Amazonas mostra um amor pouco contido pela Diana, agradecendo ela inclusive por ter lhe mantido presa e lhe ‘ensinado bons modos’.
    Neste final de semana estarei publicando minha resenha (atrasada) do especial e pretendo colocar estes quadrinhos.

  4. Lam, é isso mesmo, grande toque, já foi incluido na matéria. Foi difícil manter uma visão geral sobre o assunto, muita coisa foi escrita e revisada nos ultimos 50 anos sobre a Sociedade/Liga, principalmente se vc pensar que eram duas editoras irmãs, e não a forte DC de hoje em dia. Os heróis apareciam e sumiam, como o caso do Átomo , Lanterna I e Flash I sem menor aviso. Meu enfoque era a Liga, só quando fui escrevendo que percebi que precisava me deter mais na Sociedade*. Valeu mesmo pela ajuda. Afinal vc é o cara das HQs aqui.
    Espero que você esteja curtindo a parada , manda um Eu acho ai quando quiser. Gosto de ler suas opniões.

    Que isso, cara! São seus olhos, hahaha!
    Atualizei lá o nome do Celestial como Star Sprangle Kid, posteriormente Skyman, reparou que eu coloquei o 1° Tornado Vermelho né?! Estou ansioso esperando o texto da Era de Prata!
    O que eu acho? Os Vingadores sempre terão que comer MUITO arroz e feijão pra tentar chegar aos pés da Liga e tenho dito!
    Abraços, Lam.

  5. Dan, você é realmente The Man. Muito bom.
    Mal posso esperar pela próxima parte, e a chegarmos nos saudosos anos 80 (pelo menos na cronologia do Brasil!).
    [ ]’s
    Sergio o Salvador

  6. Dani, amei o artigo. Parabéns!!!
    Se ele fez sucesso entre os entendidos de HQs, imagina com pessoas como eu, que não conhecem quase nada desse universo (bom, não tanto como vocês que sabem nomes de editores, autores, desenhistas, etc…)!!
    Um grande beijo

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