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Mais vale um trauma na mão do que dois dragões voando?

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Recentemente li “Você é minha mãe?” (Quadrinhos na Cia.), de Alison Bechdel, que conta de forma atemporal a relação conturbada com sua mãe. Entre essa brincadeira de Passado e Presente, ela retrata seu flerte com a Psicologia e muitos momentos da sua vida (como suas paixões, seu início de trabalho como artista e até os chifres).
Se você não está reconhecendo a cara com o crachá, permita-me um leve histórico: além desta HQ, a autora antes produziu “Fun Home: Uma Tragicomédia em Família” (Conrad). Esta obra foi simplesmente escolhida pela revista Time como o melhor livro daquele ano. Sobre o que é este primeiro trabalho? Sobre a conturbada relação com seu pai… Ué? De novo?
Entenda: não quero criticar as obras dela especificamente. Elas são muito boas, complexas e bem estruturadas. Mas uma página em específico em “Você é minha mãe?” me pegou. Nela, Bechdel conversava com sua mãe que, em um tom provocativo, ao falar do trabalho de uma autora aleatória, disse “eu só não sei por que todo mundo tem que escrever sobre si mesmo”.
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Bem, e eu meio que concordo. Ao terminar de ler ambos os trabalhos de Bechdel me senti muito mais lendo algo que ela fez para trabalhar internamente – um exorcismo psicológico, digamos assim – do que uma obra para o público. O segundo trabalho da autora principalmente possui uma série de elementos que não acrescentam em si e são questões pessoais dela. Não incomoda e não atrapalha a narrativa, mas me indaguei sua razão.
Além dela, existem inúmeros trabalhos autobiográficos sobre um trauma específico (e a maioria são premiados). E isso me lembra uma conversa de bar que tive com um quadrinista brasileiro. Se não me engano estávamos falando sobre “Retalhos” (Quadrinhos da Cia.), de Craig Thompson, – que eu, pessoalmente, gosto muito – e ele soltou: “Fico puto com isso! O cara pega um problema da vida pessoal dele, desenha e ganha prêmio! E eu aqui… Tendo um baita de um trabalho pensando numa história de ficção com dragões e tudo mais!”
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Claro que essa era uma conversa informal que não precisa ser levada como literal, mas sempre me lembro dela quando leio uma HQ autobiográfica. Mas também existem conceitos e forma diferentes de se trabalhar algo pessoal. “Maus” (mais um da Companhia das Letras), de Art Spiegelman, mostra isso muito bem: é a história do avô judeu do autor, contado pelo seu pai, tendo todos os personagens representados por animais.
No fim, é uma questão de estilo. Apesar de tudo isso que eu questionei, Alison Bechdel ganhou este ano o prêmio de Grande Gênio da MacArthur Fellows pelo seu conjunto da obra. Então o errado devo ser eu… E um irritado autor de HQs sobre dragões!
 

58 opinaram!

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  1. É que os malucos tem uma vida sem graça pra cacete e ficam com vergonha de fazer quadrinhos autobiográficos. Mas cada um que faça quadrinhos sobre o que quiser, né? Desde que faça.

  2. Fiquei curiosa pra saber que elementos são esses que não acrescentaram à trama por serem apenas questões pessoais da autora, já que, sendo um trabalho autobiográfico, tudo são questões pessoais.
    Outra curiosidade é o que fez com que, dos trabalhos citados, apenas os de Bechdel fossem categorizados como “exorcismo psicológico”. O que torna Retalhos e Maus diferentes disso na opinião do autor do texto, além, é claro, de em Maus os personagens serem animais.

  3. Esse assunto rende uma discussão muito boa, mas achei que faltou você expor mais seu ponto de vista. Nunca li nada da Bechdel, mas amo Retalhos e pelo que você escreveu, Fun Home e Você é minha mãe? tem características bem semelhantes com o livro do Craig Thompson. Pra você, Retalhos também seria um caso de “exorcismo psicológico”? Fala mais 🙂

  4. Luísa e Morgana, questões legais abordadas por vocês.
    Claro que poderia fazer uma verdadeira dissertação de mestrado sobre essa obra Bechdel – que em certos momentos parece realmente um texto acadêmico, com aspas e fontes – mas a ideia dessa coluna é apenas fazer um pequeno mergulho nele.
    Sobre o que não acrescenta a trama, acho que a questão dos relacionamentos dela, por exemplo. Como é uma história não-linear alguns acontecimentos não mudavam a estrutura ou o raciocínio de seu pensamento. Sendo mais específico, quando ela descobre que era traída. Não me pareceu que acrescentou nada a obra, pelos motivos que falei agora pouco. Talvez essa sensação apareça já que o foco em si seria o relacionamento com sua mãe.
    Sim, acredito que Thompson em “Retalhos” também trabalhou com um “exorcismo psicológico”. Talvez apenas o que mude seja a forma menos realista e mais poética de desenhar e o fato dele ter feito isso em apenas uma obra, e não em duas, como foi o caso da Bechdel.
    Outro exemplo que trabalha muito bem essa questão do autobiográico com uma narrativa exagerada típica de quadrinhos é a Marjane Satrapi em “Persepólis”. E nela, em nenhum momento do seu longo livro, me deu a sensação de “Tá! E aí? Para onde isso vai me levar?”.
    Acho que “Maus” não se encaixa nisso pois é o autor desenhando as histórias do seu pai sobre seu avô. Ele se torna um personagem mais “passivo” na história, apesar de ter seu momento de conflito também. Mas nada realmente relevante.

  5. Me soou uma crítica vazia, você não se identificou com a história e portanto ela é ruim, desconexa. Acho que no ponto de vista de mulheres lésbicas, as obras da Bechdel não são simplesmente sobre ela e seus relacionamentos são completamente relevantes a história. E pro seu amigo, ser quadrinista vai muito além de fazer uma história mirabolante com dragões, pra que ficar “puto” com um quadrinista sendo reconhecido? Será que ele acha que se esforçou mais?
    Achei curioso também que você tenha focado a crítica na Bechdel, citando títulos de homens que você considera que conseguiram fazer o que ela não fez. Sabemos que o meio dos quadrinhos ainda é dominado por homens, então não custava nada citar o Persepolis ali no texto.

  6. Hehehe, Aline! Mas é por aí mesmo. Perceba que no texto inteiro não falo mal da obra em momento nenhum e a elogio de muito boa, complexa e bem estruturada. Ainda falo dos seus prêmios e, no fim, considero que o errado sou eu. Essa é apenas a minha visão sobre um aspecto da HQ. Visão essa, obviamente e completamente, pessoal e subjetiva.
    Tailor, novamente, em nenhum momento disse que a história é ruim ou desconexa. Gostaria que você me mostrasse aonde escrevi isso no texto.
    Não considero um texto vazio, pois não estou fazendo uma análise ou um review. Se fosse, claro que teria que ter sido mais trabalho. Mas isso é uma coluna em que tento esmiuçar rapidamente minha opinião sobre algo que li recentemente. Apenas isso.
    E não entendi sua última questão. Por indagar uma obra de uma quadrinista mulher, preciso, obrigatoriamente, elogiar outra quadrinista mulher, do contrário, vou passar uma mensagem de machismo e de que mulher não sabe fazer quadrinhos? Oras, francamente! Minha coluna não é uma guerra dos sexos.
    Apenas refleti sobre uma obra de uma HQ e levantei mais duas, em nenhum momento critico Brechel por ser mulher ou por ser lésbica, ou pensei nesta questão da diferença de gênero. Desculpa, mas acho que não é por aí!

  7. Bernardo, acho que você devia levar em consideração que em uma sociedade em que as experiências de mulheres e ainda mais de mulheres lésbicas são constantemente ignoradas e menosprezadas, um comentário desse não é simplesmente neutro. Pois foi especificamente esse quadrinho autobiográfico que você não gostou, enquanto os quadrinhos que narram experiências de homens não foram problemáticos para você, e nem deu uma justificativa para tal além do seu gosto pessoal. É um raciocínio parecido com o pensamento comum de que mulheres fazem quadrinhos “de menina” “sentimental”, entendido de um jeito pejorativo, enquanto os do Thompson e Spiegelman não sofrem esse preconceito, apesar de serem do mesmo gênero. Não tem nada a ver com não poder criticar mulher ou lésbica. Mas tenha consciência de que já é um meio (por ser uma sociedade) fechado para as mulheres, principalmente quando narram as suas experiências, então uma crítica tão vaga e justo ao fato dela narrar suas experiências pode ser uma coisa ruim, sim.

  8. “Me soou uma crítica vazia, você não se identificou com a história e portanto ela é ruim, desconexa.”
    Fatality
    Mas cuidado, ele costuma dar achaques quando se sente contrariado.

  9. Bom, achei que se você estava se propondo a escrever sobre algo fosse pra ter algum critério. Não precisa ser dissertação de mestrado não, basta ter argumentos. Sabe como é, puro “gostei/não gostei” a gente espera ver em comentário de facebook ou no twitter. Mas se o objetivo é ser inútil e superficial, beleza, não preciso ler mais.
    Boa sorte com sua coluna.

  10. A gratuidade troll tem várias formas, pequeno doutor. Algumas parecem ilustradas, dialógicas e educadas, mas podem ter a mesma vibe negativa e sectária de outras pocilgas da internet. Mas nada que um “Faz melhor, então.” não resolva.

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