em

O Paraíso de Zahra

As brutais repressões aos direitos civis nos países islâmicos já são bastante comuns nos noticiários. Todo dia somos atingidos pelas balas e explosões de “Exército mata 9 pessoas de uma mesma família”, “Explosão mata tantos em Bagdá”, “Israel ataca a faixa de Gaza e é retaliado com lançamento de foguete”, o sangue de inocentes vocifera e clama pela liberdade, justiça e democracia.  As rebeliões crescem e os manifestantes parecem determinados em sua luta. A Síria que o diga exemplo é a onda de protestos civis que ocorrem no país de Bashar al-Assad, era o tsunami da Primavera Árabe atingindo a nação síria. As revoluções varreram uma região marcada pela rigidez das ditaduras e da religião e mostrou que o povo em geral tem o poder da insurgência apesar de toda violência e que o resultado imediato é a liberdade. Saldo positivo: quatro ditaduras a menos (Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen); saldo negativo dezenas de milhares de mortos nos confrontos que ocorreram.

Entretanto muito antes em 2009, no Irã, milhares de iranianos saíram às ruas para protestar contra a suposto fraude eleitoral que manteve na presidência do país Mahmoud Ahmadinejad. As milícias (Basij) foram ordenadas a barrar os manifestantes. Poucos conseguiram mostrar o que aconteceu realmente naquele ano, tudo foi abafado, entre muitas tentativas de mostrar ao mundo o que ocorreu, a graphic novel O Paraíso de Zahra (Leya, 2012) foi uma das mais bem sucedidas, mesmo que seu argumento não seja, no sentido estrito, real, a narrativa gráfica usa de fragmentos verídicos de dezenas de história contadas por familiares e amigos de muitos que “desapareceram”, em sua maioria estudantes, na prisão de Evin. Detidos pela Pásdárán, a Guarda Revolucionária iraniana, durante as manifestações que reclamavam pela transparência no processo eleitoral.

Seus autores, Amir e Khalil, tratam do período posterior às eleições no Irã, e publicaram sua história primeiramente em páginas da internet e de tão impactante ultrapassou a barreira virtual e ganho versões impressas. ”No início, nossa idéia era contar a história de uma mãe iraniana que perdera seu filho naquele ano e que ficou famosa graças a vídeos no Youtube”, assegura Khalil em entrevista, “porém, no lugar disso decidimos escrever uma história baseada livremente nesta história real, a fim de evitar expor mais ainda essa mãe da ira do regime iraniano”.

Com os microrelatos e a inspiração dos vídeos e fotos que os manifestantes colocaram nas redes sociais, os autores conseguiram ter em O Paraíso de Zahra (tradução de Cassius Medauar) a impactante história de uma viúva, a Zahra do título, e Hassan, seu filho mais velho, que durante dias se dedicaram a buscar pela corrupta e burocratizada Teerã o paradeiro de Mhedi, um jovem pré-universitário de 19 anos. Passando por hospitais e necrotérios, implorando a burocratas corruptos, visitas diárias a prisão Edin, e esperando com todas as forças que sua busca não termine no cemitério ao sul  de Teerã, também chamado de Zahra’s Paradise (em persa, Behesht-e Zahra). Mas com o principal mote do argumento sempre lembrado: nem mesmo ditaduras possuem o poder de apagar memórias,.

Narrado como fosse um blog de Hassan, a história foi concebida como uma webcomic em várias línguas, e de fato foi, em treze idiomas, antes que a First Comics, publicasse em um único volume. Vivendo em San Francisco, os autores firmaram o trabalho como pseudônimos por temor a represarias contra eles mesmos ou alguns de seus familiares que vivem em países do Oriente Médio. Amir é um ativista dos direitos humanos iraniano-americano, jornalista e cineasta especializado em documentários, que se encarregou de estruturar o roteiro junto com Khalil, artista muito cultuado nos EUA, que ilustra sua primeira graphic novel.

O Paraíso de Zahra é uma crônica moderna sobre a sociedade de um regime teocrático, também serve como uma metáfora do Irã como um cadáver e o Islã como a tumba. Nas palavras de Amir “nosso sonho é que um dia esse cemitério liberará seu domínio sobre a população para que a vida possa escapar da morte, a luz das trevas e a verdade das mentiras”. Com uma linguagem consistente e impactante, a narrativa segue a linha de Persepolis de Marjane Satrapi, em sua densidade, mas consegue chocar mais pelas cenas amargas e pesadas. Um bom exemplo é o conjunto de cenas e texto no lânguido final, onde Zahra encontra o corpo de seu filho numa sepultura que só se identifica com um número.

Outra característica é a capacidade que as ilustrações possuem, com seu traço simples, limpo, com bom uso do lápis e da sombra, soltam aos olhos, como ao demonstrarem uma representação do sistema judicial iraniano como uma fábrica de montagem. Apesar da amargura os autores recorrem a frases poéticas que entrevem seus leitores a visão otimista do espírito de resistência que seus personagens transmitem. O tomo termina com o nome das 16.901 pessoas que, segundo a Fundação Abdorrahman Boroumand para a promoção dos direitos humanos, foram executados pela República Islâmica do Irã desde 1979.

O Paraíso de Zahra emprega assim a história de uma família, como tantas outras, que atingidas pelo tênue momento histórico compadecem e são esquecidas. Nessa esteira seus autores enriquecem pelo ato de amor e arte essas lembranças.

 [xrr rating=4,5/5]

  • Título: O Paraíso de Zahra
  • Autores: Amir e Khalil
  • Formato: 16 X 23 cm
  • Nº de páginas: 272
  • Preço: R$ 39,90


Participe com sua opinião!

Ativista

Publicado por Cadorno Teles

VerificadoEscritorGamerColecionadorPromotor(a)NarutoGibizeiroRepórterSuper-fãs

Sete Dias com Marilyn

“Revenge” – Vingança, mistério e drama numa combinação perfeita