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Phantasia, Resenha e Entrevista com o Criador

Hoje, para quebrar paradigmas iremos falar de um RPG nacional, Phantasia. Não apenas tive a chance de ler o livro, como também de conversar com o criador do mesmo: André Neves.

Primeiramente vou falar um pouco sobre o livro. É importante mencionar que o mesmo ainda está em fase de desenvolvimento, portanto a versão apresentada de forma gratuita no site, ainda que inteiramente jogável, não é a final.

O livro tem um design bastante simples, ideal para aqueles que desejam imprimo-lo já que as figuras e as bordas não possuem muita tinta. A mesma coisa pode se dizer do livro. Ele é de fácil acesso, rápido e funcional.

Phantasia é um jogo situado no período clássico da Grécia, séculos V e IV, ao contrário da maioria dos jogos, que se limitam a idade dos heróis, o período arcaico e homérico. Ainda sim, deveria haver um pouco mais de material sobre a ambientação, nem todos são historiadores ou tem tempo de fazer pesquisa (ou desejam faze-la), e esta falta se faz clara no livro.

Suas mecânicas me recordam alguns outros livros independentes, como Cold City, com apenas três atributos básicos: Mental, Social e Físico. Todos os testes na verdade se baseiam em uma média entre este atributo + habilidade + modificador circunstancial + dado contra um número alvo. Simples e eficiente, misturando alguns conceitos intersistemas.

Devo confessar que de longe as coisas mais interessantes de Phantasia ficam a cargo do lado mais interpretativo da criação de personagens. Aqui são aplicados dois conceitos fundamentais: “Alma” e “Gênio”. O primeiro é a maior sacada do autor, é aqui que se tem uma pequena base da personalidade do personagem, e o melhor de tudo é que a mesma é baseada nas distinções de Platão, ou seja, está muito coerente com o cenário. Você pode ter três tipos “almas” diferentes: apetitiva, irascível e logística. Já o “Gênio” funciona como o vício do storytelling e como um sistema de moralidade. Cada personagem tem níveis neste gênio, que representam fraquezas de caráter (todas vinculadas a atitudes má vistas na Grécia Clássica), quanto mais pontos o personagem acumular, ou seja, mais desvios ele cometer, o mesmo vai enlouquecendo. O sistema é bastante simples, e deve receber aprimoramentos, mas possui raízes coerentes e interessantes.

Como já disse o livro está inacabado e ainda precisa de muito trabalho, mas está no caminho certo. O Ambrosia conversou com o autor do mesmo e um pouco dessa “entrevista informal” será apresentada agora:

Ambrosia: Por que Phantasia?

André: Bem, é Phantasia por que não sei escrever em grego, porque senão seria Phantasía, alias já o foi mas por ignorância minha ficou sem o acento mesmo. Porque Phantasia significa imaginação e é isso que procuro fomentar nos jogos. Hoje os jogadores encontram-se muito atrelados as regras, não observam a liberdade que o jogo proporciona e com isso perdem a criatividade e a imaginação. Então fiz meu sistema, almejando retomar esse espírito de imaginar além de trazer uma atmosfera de autoconhecimento e reflexão nos jogos.

Ambrosia: Mas então, por que a Grécia Clássica?

André: Bem, a filosofia é a base do pensamento critico e ela é sempre mostrada como algo inatingível, apenas para os bons, mas não é, ela está mais próxima do que parece e é isso que eu busco mostrar: as correntes de pensamento. E como é na Grécia que isso tudo começou, nada mais justo não? A Grécia é o berço da cultura ocidental, da oratória, das idéias, mas nunca é revisitada por isso, é mostrada apenas como um lugar de heróis e monstros, ora, isso cansa. A base de meu sistema se inicia com a idéia da tripartição da alma, conceito gerado por Platão, quase tudo o que há nele foi embasado em pensamentos de filósofos gregos.

Ambrosia: Você por acaso já jogou Agon ou outros RPGs baseados na Grécia antiga? Que sistemas influenciaram o Phantasia?

André: Sobre o Agon eu ouvi falar há muito pouco tempo, os sistemas que mais o influenciaram foram 3D&T, GURPs e Storyteller, basicamente esses três.

Ambrosia: Eu tenho Agon, é um belo livro, mas é muito mais sobre o período homérico, de heróis e etc… O livro tem um sistema muito inovador, feito no molde para este tipo de crônica. Um dia se você puder, tente lê-lo, pode lhe trazer boas idéias..

André: Eu tenho o demo aqui, ainda estou de dar uma olhada.

Ambrosia: E qual é o futuro do Phantasia, você pretende lança-lo? pretende fazer suplementos para a internet?

André: Bem, quanto a lançar um livro, isso não está mais em meus planos, depois que obtive patrocínio posso trabalhar melhor, em meu tempo, sem pressão e com dignidade. Mas nada impede que eu lance no futuro, primeiro tenho que concluir o livro, por que ele ainda não está pronto, foi registrado um ano antes do previsto em razão de insegurança.

Ambrosia: Pois é, mas o que você pensa de alternativas como o PoD (print on demand) que quase todos os rpgs indies estrangeiros e alguns nacionais estão adotando?

André: Trabalhar sobre encomenda ou qualquer outra forma que seja, no mundo real implica em certos problemas que a internet com netbooks não oferece, como impostos, mas é algo a se avaliar. Todavia prefiro deixar como está gratuito e acessível, o livro é bem limpo e básico, você pode imprimir em casa mesmo, sem torrar todo o cartucho de tinta.

Quanto a suplementos, tenho a pretensão de faze-los mas apenas depois de acabar o livro básico.

Ambrosia: Existe uma outra alternativa para se publicar na internet também, essa advinda do Greg Stolze, que escreveu Reign, basicamente ele escreve mini-suplementos, ou seja, coisas com as quais ele perde dez, quinze dias de trabalho apenas, e aí o que ele faz é colocar tudo em um website, onde as pessoas podem depositar dinheiro…. Quando a quantia que ele acredita que o trabalho valha, geralmente algo em torno de 500 doláres, é alcançada ele libera o livro na net, para todos de graça. Se esse suplemento em específico não gera interesse ele perdeu pouco tempo de trabalho, e já tem novas apostas no site, dessa forma ele consegue viver de um RPG indie, com uma boa regularidade. Até agora todos os suplementos cruzaram a marca estabelecida.

André: Hum, é outra boa forma, bastante interessante.

Ambrosia: Sim, é uma boa idéia, eu mesmo já mandei dinheiro para ele, ainda que eu tenha comprado a versão de capa dura do módulo básico de Reign, que já foi um pouco cara e deve ter dado dinheiro o suficiente para o mesmo…

O que você acha do cenário nacional de rpg?

André: Já foi melhor, mas também você não vê as pessoas trabalhando de forma realista e comercial, de uma forma onde se consiga promover adequadamente o RPG, muitos reclamam e ficam nisso, precisam de dinheiro mas não vão atrás de patrocínio, desistem, não trabalham em grupo. O engraçado é que é o contrario do que ocorre nos jogos, no jogo se tem um objetivo claro, trabalham juntos e se esforçam, aqui eles apenas choram. Como fazer algo assim?

Ambrosia: Sobre o cenário internacional? Alguma coisa a dizer? Planos para traduzir o Phantasia?

André: Bem, serei franco, sou do tipo que deixa o amanhã para amanhã, enquanto não tiver terminado as fundações não sonho em construir castelo, logo, se nem meu manual básico está completo nem penso acerca de tradução para inglês. Mas é algo muito interessante, todavia, depois que tudo estiver pronto é uma boa idéia.

Ambrosia: Sim, infelizmente esse tipo de coisa tem mais chance de dar mais certo em inglês do que em português, eu mesmo praticamente não tenho livros de RPG em português em casa…

André: Depois que eu fiz o meu, ah muito tempo não compro nada, estou um pouco desligado do mundo do RPG. Até por que me centro mais em minha área de estudo, o direito, mas RPG é uma grande paixão, vejo nele bem mais do que um jogo. Eu o vejo como uma ferramenta eficaz e muito válida na construção de pessoas melhores.

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Publicado por Felipe Velloso

Editor e Autor veterano do Ambrosia. Formado em História pela UFRJ, mantém praticamente todos os campos do site como áreas de seu interesse. Felipe é um viciado em letras, quadrinhos e games desde quando ele só tinha oito bits.