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Resenha: Lady Blackbird

Resenha: Lady Blackbird | RPG | Revista AmbrosiaEscrito por John Harper, Lady Blackbird foi ganhador da prata no Ennies Awards de 2010 como Melhor Jogo Gratuito, só perdendo para o playtest de um dos livros mais esperados de Pathfinder. O jogo foi escrito por John Harper, é gratuito e disponível em um pdf de 16 páginas, que pode ser baixado do site da One Seven Design.

O jogo se passa numa ambientação que mistura steampunk e histórias de piratas (com grandes doses de fantasia). Mundos com temática steampunk, um gênero ainda com pouca representação nos jogos disponíveis no Brasil, seguem uma tecnologia fantástica baseada no uso da força a vapor. Ela é avançada e ao mesmo tempo possui uma aparência anacrônica que lembra máquinas antigas. Isso também influencia o vestuário e os costumes, que lembram a Inglaterra do século XIX.

Já o aspecto de pirataria fantástica se reflete na geografia do cenário. Em vez de um mundo padrão e que lembre a Terra, as aventuras ocorrem em ‘skyships’, máquinas a vapor que lembram submarinos e navios de guerra modernos e que voam pelo espaço habitável do céu. Diversos mundos existem flutuando nesse território, sendo que ele é controlado pelo Império. O que não impede que existam também piratas, com suas próprias skyships e bases escondidas em locais inóspitos.

O sistema é simples, cabe em poucas páginas e tem como foco representar uma campanha básica,que vem junto no mesmo arquivo. Nesta história, Lady Blackbird é uma nobre que está tentando escapar de um casamento arranjado e se encontrar com um antigo amor, o rei dos piratas Uriah Flint. Para isso, ela contrata uma pequena tripulação e tenta fugir escondida do Império. Sua fuga parecia ter sido bem sucedida, mas sua sorte acaba quando seu transporte é parado por um skyship muito maior e pertencente ao Império. O jogo começa nesse ponto, com os jogadores tendo que lidar com o problema.

O sistema é simples, feito para ser jogado sem muita preocupação e ocupar somente algumas sessões. A maior parte dele é incluído em cada uma das cinco fichas de personagens que compõe o arquivo. A resolução das ações é feita jogando um dado. Resultados acima de quatro são considerado um sucesso. Para ser bem sucedido numa ação é preciso conseguir um número mínimo de sucessos de acordo com a dificuldade do teste. Um teste fácil exige pelo menos dois sucessos, um teste médio três. O que faz com que seja importante acumular mais dados para ser bem sucedido nos testes. Existem quatro formas de fazer isso:

A primeira é utilizando dados de uma reserva de sete dados extras que cada personagem possui. Eles podem ser usados em qualquer teste, porém, sempre que ele for bem sucedido num destes testes, ele perde os dados retirados dessa reserva.

A segunda maneira é quando o personagem falha num teste. Ele mantém o número de dados que havia utilizado (incluindo qualquer dado retirado de sua reserva) e mais um dado. Ele pode voltar a tentar, entretanto a situação onde ele está piora. Se ele está tentando escalar a parte de fora de seu skyship, uma das mãos escorrega e agora ele está pendurado. Se ele está tentando arrombar uma porta, ele pode quebrar suas ferramentas. Se ele está lutando com alguém, ele pode ter recebido um ferimento leve ou sua pistola ficou sem munição. O mestre pode adicionar uma condição, como ferido ou cansado, de acordo com a situação onde ocorreu a falha. Da forma como o autor apresenta, sua intenção parecer ser utilizar das falhas e condições como forma de adicionar à história gerando mais complexidade nos eventos através de novos problemas e não como penalização.

Resenha: Lady Blackbird | RPG | Revista AmbrosiaA terceira forma de adicionar dados é utilizando dos Traits dos personagens. Essa é um dos três elementos que formam as fichas de personagens. Traits definem características ligadas ao conceito do personagem, havendo a possibilidade de especificar isso de forma mais detalhada através de uma série de palavras (chamadas de Tags). Um dos membros do grupo, por exemplo, possui Ladrão como trait. Esse elemento por sua vez é divido em uma série de palavras (Quieto, Silêncio, Se Esconder, etc.). Sempre que realizando uma ação relacionada a um trait do personagem, ele soma mais um dado a jogada. Quando ela também é relacionada a um dos tags, ele soma ainda outro. Então se o ladrão tentar roubar algo, ele joga mais um dado. Se ele especificar que está fazendo isso de forma silênciosa ou enquanto se esconde de alguém, ele joga dois dados extras.

A quarta e última forma, é adquirindo mais dados através das Keys dos personagens. Enquanto traits são conjuntos de palavras, keys são frases simples que definem melhor o personagem. Como “Key of Paragon: Por ser um nobre, você é superior as pessoas comuns” possuída por Lady Blackbird. Cada key possui também uma ação que a faz ser acionada. No caso da Key of Paragon, sempre que Lady Blackbird demonstrar sua superioridade ou suas características como nobre a ajudarem a superar um problema. Ao acionar uma key, o personagem ganha um ponto de experiência ou um dado extra para adicionar a sua reserva de dados. Se para acionar a key foi preciso correr perigo, então a premiação é de dois pontos de experência ou dois dados extras.

Isso mostra como a maioria dos elementos da ficha giram em torno de adquirir mais dados para realizar os testes. A única exceção são os Secrets, habilidades especiais que os personagens podem possuir. Secret of Leadership, possuído pelo capitão do skyship do grupo, permite que um aliado role novamente um teste falho, desde que o capitão possa lhe dar ordens. Já o goblin do grupo possui Secret of Shape Warping, que permite que ele mude suas características físicas, como altura e peso.

Tudo que foi descrito acima ocupa meia página da ficha de personagem, o que mostra a tentativa do autor em fazer com que as regras fossem acessíveis e fáceis de consultar. Poucas coisas estão incluídas fora das fichas, servindo mais como apoio para o mestre. E esse apoio acaba por ser necessário, pois o autor sugere uma alteração importante no modelo das aventuras. Na maioria dos RPGs os jogadares seguem um modelo reativo, onde mesmo quando o mestre não possui uma aventura já estruturada para jogar, é ele quem adiciona a maioria dos elementos a sessão e tem maior controle criativo sobre o mundo. E os jogadores ficam responsáveis por reagir a estes elementos. A proposta deste jogo é que o mestre tome o papel reativo para si, usando de perguntas aos jogadores para mover a sessão. As perguntas são usadas como incentivos, tentando criar reações e novas idéias para a história.

Resenha: Lady Blackbird | RPG | Revista AmbrosiaSupondo uma situação onde os personagens acabaram de encontrar um skyship abandonado, em vez de ter uma idéia do que aconteceu ali, o mestre deveria deixar que os jogadores preencham as lacunas. Em vez de afirmar ‘Você encontra isto e isto’, ele pergunta ‘Você não encontra alguma coisa interessante nas anotações do capitão?’. E permite que o jogador diga o que achou. Essa inversão de papéis é um modelo interessante e facilmente aplicável a outros jogos, mesmo porque não existe nenhuma mecânica adicional. Não que pedir opiniões ou usar idéias de jogadores na construção da sessão seja algo inédito. Mas o jogo propõe construir as sessões inteiras assim, tornando o mestre mais observador ao mesmo tempo que incentiva a criatividade dos jogadores.

O jogo é rápido de ler, agradável e traz diversas boas idéias. O capítulo do mestre (que ocupa uma página) vale a leitura mesmo para quem não pretende jogar Lady Blackbird. Seu sistema acessível é bom para iniciantes, sendo algo fácil de entender e utilizar rapidamente. Além disso, o fato de usar fichas prontas evita a necessidade de construção de personagens, o que facilita a introdução de novos jogadores ao hobby. E para jogadores mais experientes, Lady Blackbird é uma boa opção de jogo alternativo que conseguiria se sustentar numa campanha.

2 Comments

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  1. Kimble ainda bem que você fez essa resenha porque eu não tenho tido tempo pra pesquisar e catar as coisas obscuras do mercado. Então pra manter meu acervo em dia essa valeu. Até pq as unicas coisas que eu tenho jogado são DC Adventures (M&M 3rd), o eventual Polaris, e assim que conseguir uma torre de Jenga vou testar o Dread. To sem tempo e com muitas campanhas "pela metade" pq os jogadores desaparecem depois de um tempo. One of the many plights of getting old…

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Publicação cesar.kimble