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“A Rede Social” e sua maneira de nos mostrar primitivos

"A Rede Social" e sua maneira de nos mostrar primitivos | Sem categoria | Revista Ambrosia

Não vou esquecer do impacto causado pelo primeiro trailer do filme A Rede Social. As imagens de fotos espontâneas do Facebook iam se intercalando dramaticamente, ao som de Creep, melancólica e vívida canção da banda Radiohead, interpretada pelo coral feminino belga Scala & Kolacny Brothers, de forma paradoxalmente angelical, e logo em seguida, o filme ia se revelando num contexto de edição Shakespeareano.

Havia já ali a grande força do que o filme tinha a dizer: o retrato de uma geração sob os desígnios das redes sociais. E a certeza maior de que a vida ainda é bem mais interessante e dimensionada que a arte. Criada em 2003 em Harvard por um universitário desprezado por todas as mulheres do campus depois de ter desenvolvido um site que servia para classificá-las de acordo com sua aparência , o Facebook tornou-se parte da vida de quase toda a população conectada internet. Mas o que o filme procura evocar, principalmente ao demonstrar de forma irônica o contexto social cada vez mais vigente nos atuais relacionamentos interpessoais, é a personalidade de seu criador, Mark Zuckerberg, cuja genialidade o torna um ser tão idiossincrático quanto conflituoso.

O jovem ator Jesse Eisenberg (Zumbilândia) parece ter nascido para o papel, trafegando com segurança veterana, na linha tênue entre a esquizofrenia e a dissimulação. Seu Zuckerberg parece gravitar pelo senso de humanidade para com as pessoas. Vivendo num eixo de princípios próprios, vai construindo seu projeto como uma sina pessoal (potencializada com sua falta de traquejo com a namorada, que termina a relação) e acaba chamando a atenção dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hummer), que trabalham num projeto próprio de uma rede social dentro de Harvard (o que futuramente evoluiria para um processo dos gêmeos contra Mark, por roubo da ideia original). Mark mostrou-se mais ambicioso diante dos progressos de seus estudos para um site e, junto com o amigo brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield) criou o tal site, que acabou virando o fenômeno que se tornou.

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A direção de David Fincher é primorosa por perpassar toda a construção do que essa história acabou por se tornar de forma elegantemente relativizadora. Nas mão de Fincher, Zuckerberg é algo como um algoz do outro, mas algo como uma vítima de si. Nesta imprecisão de julgamentos reside a humanidade de suas consequências. O diretor é mestre em descentralizar uma trama em retratos universais (O clube da Luta, Zodíaco e O curioso caso de Benjamin Button se assemelham por isso). Sua câmera passeia pelos ambientes em busca das intenções. Seja a passionalidade fraternal (tão brasileira) de Saverin, muito bem explorada pelo trabalho de Garfield (aparentando ter sido mesmo uma boa escolha para o futuro Homem-Aranha), seja pela surpreendente performance de Justin Timberlake, como Sean Parker e a sutileza com que consegue adentrar no universo Facebook, seja pelo ar desolador (com uma fotografia elegantemente fria) com que cada personagem vai se relacionando e se repelindo.

A narrativa se impõe em flashbacks, estruturada pelos processos legais que Zuckerberg enfrentou (e ainda enfrenta até hoje) ao, longo desses sete anos. Por mais verborrágico que isso possa parecer (o que até é uma ironia num filme que se propõe a falar de redes sociais), o roteirista Aaron Sorkis consegue manter o interesse do discurso justamente por trabalhar a questão psicológica de seus personagens. O espectador então compreende mais a intenção daquela extensa profusão de diálogos que o filme apresenta. Diálogos esses, que são muito bem fundamentados na força de sua (real) história.

Imagino que o ponto de partida para esse filme tenha sido bastante difícil. Uma história que fala sobre o criador do Facebook, não é lá um tema muito animador. Pois foi só colocar uma lente de aumento nesse criador para o filme já estar pronto. A grande sacada de Fincher foi identificar ali uma radiografia de uma geração. Quando assistir ao filme e chegar a última cena, a reticência que o diretor ilustra numa cena cheia de significados, é transferida para nós. Diante de toda multiplicidade que o mundo agrega ano após ano, são nos sentimentos mais primitivos que ele mostra quem realmente é.

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Ah, sim… Agora entendi a razão da escolha de Creep para a trilha do filme: “I’m a weirdo. What the hell am I doing here? I don’t belong here. I don’t belong me”

[xrr rating=5/5]

One Comment

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  1. A última cena é a cereja do bolo, é aquele momento que você se dá conta de que o domínio das tecnologias nada te ajudarão, que você se volta à sua esseência, primitiva, como você colocou bem, aquele momento em que o sentimento pulsa e você é apenas humano, limitado, humano.

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Publicação Renan de Andrade