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BTS além do K-pop: a queda das fronteiras sonoras

Do hip-hop ao rock, R&B e pop, o grupo transforma a mistura de referências em identidade e abre diferentes portas para novos ouvintes

비대칭 (bidaeching). A palavra, que significa assimétrico em coreano, é pouco usual até mesmo n o idioma. Mas ela aparece em Born Singer, uma faixa que o BTS lançou de forma não oficial em 2013 — e que foi incluída na antologia Proof, de 2022. Na canção, RM transforma a palavra em uma imagem para o medo de não corresponder às expectativas. Ao dizer que temia estar “assimétrico” em relação às expectativas do mundo, o rapper descrevia o descompasso entre aquilo que sonhava entregar e aquilo que ainda precisava provar. A música, uma adaptação de Born Sinner, de J. Cole, carregava a urgência de sete jovens que acabavam de chegar ao palco e ainda buscavam seu lugar.

Born singer
Born sinner

Naquele momento, o BTS ainda era um grupo construído sobre o hip-hop, mas já carregava dentro de si uma tensão que ajudaria a definir sua trajetória: como permanecer fiel à própria origem sem transformar essa origem em limite? Se, na primeira matéria desta série, o hip-hop aparece como o mundo de onde o grupo partiu, agora a jornada chega ao momento em que é preciso atravessar a fronteira. Na lógica da Jornada do Herói, não basta deixar o mundo conhecido; é preciso descobrir o que existe depois dele — e aceitar que a transformação também pode alterar a maneira como o herói é reconhecido.

A resposta do BTS não foi abandonar o hip-hop, mas ampliar o que ele poderia significar. A partir de Dark & Wild, lançado em 2014, rap, R&B, rock, soul, música eletrônica, pop e outras referências começam a ocupar diferentes espaços na discografia do grupo. Essa expansão também desconstrói uma ideia comum sobre o K-pop: longe de ser um gênero musical, é na verdade uma indústria e um ecossistema de música popular capaz de reunir diferentes linguagens sonoras. É nessa travessia que o BTS começa a mostrar que sua identidade não depende de soar sempre igual — e que talvez existam muitas portas de entrada para quem ainda acredita que não gosta de BTS.

Essa diversidade também aparece na trajetória de quem escuta BTS. Há quem tenha chegado ao grupo pelo hip-hop, quem tenha reconhecido no som referências do rock e quem tenha sido atraído primeiro pelo pop, pela voz ou pela performance. Para três ARMYs ouvidas pelo Ambrosia, a descoberta aconteceu por caminhos diferentes — e cada uma encontrou, na música do grupo, algo que já fazia parte de seu próprio repertório. São histórias que ajudam a revelar como a travessia do BTS também pode ser uma travessia de quem o escuta: uma porta se abre por um gênero, uma referência ou uma música, e do outro lado existe um universo muito maior do que o rótulo K-pop poderia sugerir.

Uma imagem familiar em um grupo desconhecido

Antes de saber quem eram aqueles sete artistas, a jornalista Dora Tavares de Souza reconheceu uma imagem. Em fevereiro de 2016, durante uma viagem, ela assistiu pela primeira vez ao videoclipe de Fire e se deparou com uma cena que a levou imediatamente a Wish You Were Here, do Pink Floyd: duas pessoas de mãos dadas, enquanto uma delas pega fogo, diante de um cenário que também lhe pareceu familiar.

Dora, cuja formação musical tem o rock como uma de suas principais raízes, não conhecia BTS. Mas conhecia aquela linguagem. “Eu bati o olho naquela cena e pensei imediatamente em Pink Floyd. Aquilo me chamou muito a atenção. Eu queria entender por que eles estavam usando aquela referência”, afirmou. E em vez de procurar primeiro as músicas, foi atrás dos videoclipes.

A curiosidade acabou levando ao álbum que marcaria sua entrada definitiva no fandom. Em 10 de outubro de 2016, mesma data do seu aniversário, o BTS lançou Wings, primeiro disco do grupo cujo lançamento ela acompanhou em tempo real. O nome carregava ainda outra coincidência: Wings também era a banda formada por Paul McCartney após o fim dos Beatles, grupos que fazem parte da formação musical de Dora. “Eu conheci o BTS com Fire, mas foi com Wings que eu virei ARMY. E ainda era o meu aniversário. Para mim, foi muito simbólico.”

A partir dali, Dora começou a encontrar outras conexões com o rock. Uma apresentação de Save Me e I’m Fine chamou sua atenção por uma escolha visual de Jin que ela associou ao universo do punk rock do Dead Kennedys. A descoberta rendeu um “apelido interno” que permanece até hoje: “Rock Jin”. “Eu surtei quando reconheci aquela referência. Foi muito rock and roll. Por isso eu chamo o Jin de Rock Jin”, lembra, rindo.

Para Dora, essa mistura é parte do que torna a trajetória do BTS tão atraente. O rap encontra guitarras, o rock conversa com outras linguagens e os álbuns constroem narrativas que ela reconhece na tradição do rock progressivo. Ela chegou ao BTS por uma referência que já conhecia — e foi justamente essa familiaridade que abriu caminho para o desconhecido.

Entre o rap e o rock, nenhuma fronteira parecia definitiva

A isca de Mariana Parolini com o BTS foi a voz soul de V, com seu timbre diferenciado e inconfundível. A curiosidade ganhou outra dimensão quando ela descobriu que RM, SUGA e j-hope também tinham grande peso na composição e produção das músicas do grupo. Para quem já tinha crescido ouvindo artistas tão diferentes quanto Michael Jackson, Backstreet Boys, One Direction e Fifth Harmony, essa combinação despertou uma associação imediata.

“Eu cheguei por uma voz, mas logo descobri o envolvimento da rapline na canções. Isso me aproximou ainda mais, porque eu sempre gostei de Linkin Park e dessa mistura de rap com rock”, disse Mariana. A relação com o Linkin Park também a fez perceber um movimento maior. As duas bandas, cada uma a seu modo, foram cobradas por parte do público e da crítica a permanecerem próximas das identidades musicais que marcaram seus primeiros anos.

Para Mariana, o que aproxima as trajetórias é justamente a disposição para experimentar e ampliar essas fronteiras. “Vejo claramente um paralelo entre eles, porque os dois grupos ultrapassaram o gênero pelo qual eram conhecidos. Nunca ficaram presos ao que esperavam que fizessem. Foram experimentando, misturando estilos e alcançando pessoas que talvez nunca tivessem procurado aquele tipo de música”, afirmou a fã. E foi essa liberdade que Mariana passou a enxergar também na discografia do BTS.

Quando alguém diz que não gosta de k-pop, sua reação não é tentar convencer pelo rótulo, mas procurar uma música capaz de conversar com aquilo que a pessoa já escuta. Run BTS e Dionysus estão entre suas escolhas para quem transita pelo hip-hop e pelo rock. “Acho que depende muito do gosto da pessoa. Você pode mostrar uma música para quem gosta de rock, outra para quem gosta de hip-hop, outra para quem gosta de pop. O BTS consegue fazer essa ponte sem perder a identidade”, analisou Mariana.

RUN BTS
Dionysus

Do pop conhecido a um universo que ainda não tinha sido visto

A advogada criminalista Maria Fernanda Skolute já tinha ouvido BTS antes de se tornar ARMY. Boy With Luv chegou até ela na época do lançamento, quando suas referências passavam por Halsey e Melanie Martinez, mas a música não foi suficiente para provocar uma descoberta imediata. A aproximação mais profunda aconteceu depois de 2021, quando o interesse por séries coreanas a levou novamente ao grupo. Foi então que ela voltou à coreografia de Boy With Luv e passou a enxergar, por trás do pop colorido, o trabalho e a técnica necessários para sustentar uma apresentação daquele nível.

“Eu já tinha ouvido Boy With Luv, mas não tinha virado fã. Quando voltei depois de 2021, comecei a prestar atenção na coreografia, na técnica, no esforço deles. Foi aí que eu comecei realmente a olhar para o BTS”, lembrou. A descoberta também ganhou um aspecto inesperado quando Maria Fernanda passou a observar a relação dos integrantes com o inglês.

Perceber que aqueles artistas que pareciam tão seguros no palco enfrentavam dificuldades reais de pronúncia e comunicação provocou nela um “choque de realidade” e mudou a maneira como enxergava o grupo. “Foi um choque perceber que eles tinham dificuldades reais e que estavam aprendendo, tentando e superando aquilo. Eles deixaram de ser só aqueles artistas enormes que eu via no palco e se tornaram pessoas”, afirmou. A partir daí, veio o mergulho na música.

MIC Drop

Maria Fernanda se empenhou em aprender Dionysus em coreano e entrou em uma fase de escuta repetida de Mic Drop. O repertório que havia começado pelo pop de Boy With Luv agora passava pelo rap, por estruturas mais intensas e por uma escrita que despertava nela uma comparação inesperada: a primeira audição do álbum lhe trouxe a mesma sensação de descobrir Bohemian Rhapsody, do Queen. “Fiquei obcecada em aprender Dionysus em coreano. E Mic Drop eu ouvia o tempo todo. Quando comecei a ouvir os álbuns de verdade, tive uma sensação parecida com Bohemian Rhapsody, porque percebi o nível de construção e de escrita que existia ali”, opina.

Foi também pela escrita que Maria Fernanda passou a perceber os álbuns como registros de uma trajetória. Para ela, as músicas funcionam como um diário do crescimento dos integrantes, acompanhando mudanças pessoais, conquistas, medos e até as experiências do período de hiato e do serviço militar. “Os álbuns são como um diário. Você consegue acompanhar o crescimento deles, as mudanças na visão de mundo, os medos, tudo o que eles foram vivendo”, disse a ARMY.

Uma jornada que já não cabe só na música

As histórias de Dora, Mariana e Maria Fernanda revelam, por caminhos diferentes, um movimento que também está presente na trajetória do BTS. Uma chegou pelas referências do rock, outra reconheceu no grupo a mistura entre rap e rock que já fazia parte de seu repertório, enquanto a terceira entrou pelo pop e só depois descobriu as camadas de performance, rap e composição que existiam por trás daquela primeira impressão. Nenhuma precisou abandonar aquilo que já conhecia para encontrar o BTS. Foi justamente a partir dessas referências que novas portas se abriram.

É também assim que a travessia do grupo pode ser compreendida. O hip-hop permaneceu como parte da identidade construída desde o início, mas deixou de funcionar como uma fronteira. Ao incorporar R&B, rock, soul, pop, música eletrônica e outras linguagens, o BTS ampliou seu campo de expressão sem precisar escolher entre passado e transformação. A própria ideia de K-pop ganha outra dimensão nesse percurso: se o termo define um ecossistema da música popular sul-coreana e de sua indústria, ele não determina o que uma canção precisa soar.

Na Jornada do Herói, atravessar o limiar significa entrar em um território em que as certezas do início já não são suficientes. Para o BTS, essa passagem aconteceu também pela música: quanto maior a trajetória, maior a possibilidade de experimentar. E, quando as fronteiras sonoras começam a desaparecer, surge uma pergunta inevitável: o que acontece quando essa liberdade deixa de transformar apenas a música?

A resposta está no próximo capítulo desta jornada. O BTS não construiu sua identidade artística apenas com sons. Literatura, pintura, dança, cinema, psicologia e outras formas de expressão passaram a alimentar suas narrativas, videoclipes, performances e álbuns. A travessia, então, deixa de ser apenas musical e começa a ocupar outros territórios da arte.

Leia mais sobre BTS na Ambrosia

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