Brás Cubas: a versão cênica da obra de Machado de Assis no CCBB Rio

Brás Cubas é a nova montagem do Armazém Companhia de Teatro. A peça é a  versão cênica da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com dramaturgia de Maurício Arruda Almeida. Já é possível começar este comentário sobre o espetáculo sinalizando que o desafio de levar o texto literário aos palcos é…


Brás Cubas é a nova montagem do Armazém Companhia de Teatro. A peça é a  versão cênica da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com dramaturgia de Maurício Arruda Almeida. Já é possível começar este comentário sobre o espetáculo sinalizando que o desafio de levar o texto literário aos palcos é uma grande responsabilidade que foi executada com maestria pela Companhia. E eu diria que muito se pode falar sobre alguns elementos que compõem essa maestria e fazem com que tenhamos gosto de estar ali, no teatro.

Por exemplo, as soluções encontradas para as ligações importantes entre costumes e fatos da época e o que diz respeito ao que vivemos contemporaneamente, em especial ao debate da escravização de africanos e africanas e aos desdobramentos constantemente renovados que nos marcam enquanto sociedade escravagista, tudo isso sem prejuízo de texto, enredo e personagens. Ou então pela escolha de incluir o próprio autor na peça, o Bruxo do Cosme Velho sendo, portanto, mais um personagem que acaba por fazer inserções metalinguísticas e usa o recurso da lousa (junto com outros atores, em alguns momentos) para marcar algumas ideias e nomes de alguns personagens que aparecem menos, auxiliando no acompanhamento do enredo, já que são muitos os eventos que acontecem.

A metalinguagem mencionada traz a ironia que faz jus a essa que é uma das marcas literárias da escrita de Machado, isto é, aquilo que, junto à genialidade das ideias e da percepção psicológica das relações desenhadas nos enredos, traz um gosto todo especial à leitura de sua obra, porque nos insere como cúmplices dessa visão irônica. Além disso, essa ironia, presente nos romances, nos contos e nas crônicas, é também muito bem interpretada pelas tiradas e pelos traquejos dos personagens que encarnam as duas versões do protagonista: Jopa Moraes encarna o póstumo, com seu jeitão meio blasé, e costura a narrativa; e Sérgio Moraes encarna o vivo, com seu jeito de espertalhão, na mistura contraditória de sagacidade e parvoíce, e que vivencia os eventos biográficos de Brás Cubas desde o nascimento. A maestria, em síntese, tem a ver com o encadeamento das cenas, as soluções para a clareza do texto, a mistura das formas narrativas, tudo muito bem arranjado do início ao fim.

O elenco é formado por Bruno Lourenço, Isabel Pacheco, Jopa Moraes, Felipe Bustamante, Lorena Lima e Sérgio Machado, a iluminação é de Maneco Quinderé, a cenografia, de Carla Berri e Paulo de Moraes, os figurinos são de Carol Lobato e, por fim, Rico Vianna assina a direção musical. Faço questão de mencionar a preparação corporal assinada por Patrícia Selonk e Paulo Mantuano e pinçar a cena da viagem de navio de Brás Cubas à Europa. A cenografia e o movimento da moldura do quadro, nesse recorte, têm um papel especial nessa quase simulação que o elenco leva a plateia a viver, ajudando a todos a fazer parte daquele balanço perigoso da embarcação, do quase naufrágio, dos momentos em que estão (estamos) todos debaixo d’água engolindo ondas e sal, lutando por bolhas de ar, tudo isso tornando a cena memorável e irretocável.

Foto: Mauro Kury

Assistir a Brás Cubas me fez ter vontade de reler não apenas o livro como algumas outras obras do autor, especialmente por suas ideias. Os trechos do texto que são narrados no espetáculo, pelo menos aqueles que podemos reconhecer ou deduzir que são  da pena de Machado, despertam aquele prazer familiar que sua escrita suscita. Eu não lembrava de várias ideias que são ali discutidas pelos personagens e lanço mão aqui de apenas duas, para ilustrar o quão interessante é a literatura realista de Machado: a teoria da função da ponta do nariz e a teoria das duas janelas, essa última surgindo justamente quando Brás Cubas sente que precisa compensar, para si ou para o que julga ser alguma espécie de moral do mundo, alguma conduta que tacitamente supõe errada mas à qual decididamente não pretende renunciar.

Finalmente, se eu fosse fazer duas sugestões de ajustes nessa montagem, a primeira seria em relação ao volume sonoro da execução musical, principalmente quando faz uso de microfone. Nessas horas, não há como não reconhecer que tudo é muito bem escolhido, com ênfase para o talento vocal de Lorena Lima, além de ser sensacional a homenagem feita ao sineiro da Glória, levada a cabo por Bruno Lourenço. O sineiro homenageado está presente na história da cidade e do país, marcando todos os eventos importantes, sejam contraditórios entre si ou não; porém, e bota porém nisso, há um certo estouro que, quando as cenas que se utilizam de música são longas, acabam por incomodar um bocado e, consequentemente, diminuir a beleza do que se apresenta a nós. Não possuo conhecimento técnico para avaliar se isso foi algo que aconteceu no dia em que fui assistir ou se está sendo assim em todas as apresentações, mas há que lembrar que o Teatro II do CCBB não é tão grande assim. Friso o incômodo específico dos momentos musicais, pois o microfone, quando usado para um discurso na Câmara dos Deputados – aliás, outra excelente ponte sarcástica com as manifestações contemporâneas a nós no Parlamento brasileiro –, está bem modulado e não causa susto nem desconforto enquanto aconteceu.

A segunda sugestão seria em relação à pequena escada de três degraus usada para que os atores alcancem pontos mais altos da lousa: ela é muito estreita, fácil cair dali, e confesso ter ficado apreensiva pelo menos em um momento. Se houvesse algo mais largo (e seguro) que mantivesse a função para a qual foi escolhida, talvez fosse melhor para todos os trabalhadores e trabalhadoras da dramaturgia.

Ficha técnica

Direção: Paulo de Moraes

Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça

Montagem da Armazém Companhia de Teatro

Elenco/personagens: Sérgio Machado (Brás Cubas), Jopa Moraes (Defunto), Bruno Lourenço (Machado de Assis), Isabel Pacheco (Virgínia), Felipe Bustamante (Quincas) e Lorena Lima (Marcela e Natureza).

Músicos em cena: Ricco Viana ou Rafael Tavares

Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes

Iluminação: Maneco Quinderé

Figurinos: Carol Lobato

Direção Musical: Ricco Vianna

Preparação Corporal: Patrícia Selonk e Paulo Mantuano

Colaboração na Dramaturgia: Paulo de Moraes

Designer Gráfico: Jopa Moraes

Fotografias: Mauro Kury

Cabeça do Hipopótamo: Alex Grilli

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Direção de Produção: Patrícia Selonk e Bruno Mariozz

Produção Executiva: Sérgio Medeiros

Assistente de Produção: Amanda Rumbelsperger

Coordenação do Projeto: Paulo de Moraes e Patrícia Selonk

Patrocínio: Banco do Brasil

Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

Serviço

Estreia nacional de Brás Cubas: dia 23 de agosto de 2023, quarta-feira, às 19h

Temporada: de 23 de agosto a 01 de outubro de 2023

Dias e horários: Quarta à sábado, às 19h, e domingo, às 18h.

Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro II

Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro

Informações: 21 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br

Valor do ingresso: R$ 30 (inteira) e R$15 (meia)

Estudantes, maiores de 65 anos e Clientes Ourocard pagam meia entrada.

Ingressos adquiridos na bilheteria do CCBB ou antecipadamente pelo site bb.com.br/cultura

Funcionamento do CCBB Rio: de quarta a domingo, das 9h às 20h (fecha às terças).

Capacidade de público: 153 lugares

Classificação: Indicado para maiores de 14 anos.

Duração: 110 minutos