Teatro

O poder de Gleen Close e o fim de “Damages”

 

No cada vez mais fértil mercado de séries americanas, que nos últimos anos tem sido apontado como a salvação artística do audiovisual, suplantando até o Cinema, existem algumas obras-primas que já nascem clássicas. De Sopranos até Sex and The City, passando por Mad Men e Breaking Bad. Damages entra nessa seara, principalmente por ampliar a batida dramaturgia das chamadas “séries de tribunal”, para se ancorar na tensa relação de poder que esse nicho evoca. Com sua estrutura narrativa quebrada e construída por flashbacks, Damages, pelo menos em suas brilhantes três primeiras temporadas, inspirou ao gênero uma dimensão Shakespeariana, onde a desconstrução do humano era feita à base de muita tirania e antagonismo. Leia-se: o embate entre Patty Hewes (A excepcional Gleen Close) e Ellen Parsons (Rose Byrne) sob a regras de suas próprias leis.

Para muita gente, a série deveria ter terminado de fato nas 3 temporadas que o canal FX produziu. Foi a sua era de ouro, sendo uma unanimidade entre crítica e público. Seus roteiros e diálogos eram antológicos, num frequente jogo de poder entre as protagonistas, mas sempre bem amparadas por tramas bem construídas e personagens de camadas complexas. Quando o canal americano Direct foi ressuscitá-la para mais 2 temporadas mais curtas, a coisa desandou. Não que Damages tenha se tornado propriamente ruim ou indefensável, porém diante de seu passado, era gritante o desnível. A quarta e quinta temporadas foram bem fracas e só sobreviveram pelo assustador domínio de Gleen sobre seu papel, o que (ainda) rendia cenas inspiradoras.

Apesar de uma trama frágil e cheia de buracos, But You Don’t Do That Anymor, a season finale da série conseguiu terminar de forma bem digna, respondendo uma questão mal resolvida das primeiras temporadas para assim entregar o clímax do fim. Até mesmo o desenvolvimento das personagens principais (com seus passados e presentes) foi bem assertivo, o que não acontece na trama principal da temporada que é praticamente esquecida e “resolvida” de forma apressada e amadora. E o perfil de reviravoltas que  deu fama (consistente) à Damages, é mantido de forma inteligente. Uma figura tão rica como Patty não poderia ter final melhor, para justamente mantermos em mente os bons momentos de suas façanhas.

Mas Damages é Gleen Close. E a atriz fez dessa série o lugar para desenvolver o papel de sua vida. Sua manipuladora personagem tinha tudo para cair no lugar comum das vilãs unidimensionais de TV, mas sua inteligência cênica levou a persona a patamares mais humanos e críveis, ainda que dentro de certos paradigmas ficcionais. Uma pena que a série tenha tido essa carreira tão irregular em suas temporadas finais. Parece que os roteiristas (que foram os mesmos nas 5 temporadas) perderam a mão ou depositaram nas primeiras todo o arsenal de consistência que tinham. Tinham uma personagem (e uma atriz!) e tanto para desenvolver de forma mais séria, mas foram para a redundância dos termos do próprio universo criado. Daí, a série perdeu a força. Mas, como disse, se a série era Gleen Close, o resultado final não poderia ser tão ruim. E não foi. Não é a toa que mesmo com tudo isso, seu papel ainda é indicado a prêmios e os fãs da série, mesmo desmotivados com o caminho que tudo tomou, seguiram até o último episódio para confirmar que seu talento é maior que a dramaturgia que a cerca.

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