Teatro

TOC TOC em cartaz no Teatro do Leblon no Rio de Janeiro

Vista por mais de 34 mil pessoas em 100 apresentações em São Paulo, Toc Toc aborda os comportamentos provenientes do Transtorno Obsessivo Compulsivo – TOC

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Imagine, meu caro leitor, que eu tenho mania de usar nos meus bolsos frontais meu celular, no esquerdo e minha carteira no direito. São duas coisas que me causam um tremendo incomodo: Os bolsos das minhas calças dianteiros, principalmente não costumam ser muito fundos, diferente dos bolsos traseiros. Tenho, portanto a sensação que a qualquer momento, como de fato já aconteceu, vou perder esses dois pequenos bens, que não são especialmente caros, mas que dão uma dor de cabeça enorme quando somem. Isso eu nem estou colocando a questão de assalto, nem furto, só a de perda casual.

Bem, volta e meia quando pego a carteira para pagar algo ou atendo alguma ligação, antes de retornar aos meus bolsos sinto um leve impulso de aproveitar que eles já não estão na zona de perigo b e colocar-los na minha mochila ou mala ou qualquer bolsa onde estejam meus textos e roupas de ensaio. – engraçado chamar essa região frontal perto da minha virilha de zona de perigo – Freud explica, Jung sensibiliza e Lacan interrompe –

Para o leitor entender melhor: Eu entro, por exemplo, num coletivo (Ahá! Chamei ônibus de coletivo, dá-lhe Nelson!) pego a carteira, encosto a parte do meu Riocard na maquina do trocador para passar pela roleta. Já que a carteira não está mais no meu bolso resolvo jogá-la no compartimento frontal da minha pasta de textos. Com certeza, lá ela estará mais segura, e não cairá do meu bolso ,causando o transtorno de perda de dinheiro e documentos que demoram pra caramba pra tirar segunda via. Alem de um santinho aqui, uma camisinha emergencial amassada ali e a própria carteira, enfim. Ou então se entro numa peça, cinema, palestra , aula aberta ou reunião de grupo, puxo o celular para colocá-lo no silencioso e pelo mesmo instinto jogo-a dentro da minha mochila, garantindo que eu não vá ter que comprar um novo aparelho, cancelar o chip, perder eventualmente algum telefone que eu não fiz backup e até não ser surpreendido com uma conta telefônica reativada sem a minha autorização de 500 reais (500 reais em 2003, que já é diferente do que é 500 reais hoje).

Bom, então tomei essa ação, Ela me tranqüiliza me dá certa estabilidade que eu tinha perdido quando o celular ou a carteira (ou os dois) estavam nos meus bolsos. Me acalma tanto que chego a abstrair de tudo … E de repente, esqueço completamente que não retornei a carteira ou o celular ou os dois para onde eles sempre ficam!

Um pânico súbito de quem já se estressou muito com a perda de qualquer um desses dois elementos me domina completamente. Meu chão se desintegra, estou em queda livre de novo, me sinto um idiota, um débil mental que perde tudo, que esquece tudo, que é completamente desleixado com minhas posses materiais mais primarias. Cutuco varias vezes os bolsos a procura, não acho, e entro num estado de regressão total: Sou um pequeno garoto que quebrou um brinquedo e sabe que vai tomar uma grande bronca.

De repente, resolvo examinar minha pasta ou mochila, e mesmo antes de achar, tenho a impressão de já estou salvo, mas o pânico é traiçoeiro, e se por um acaso não acho de primeira (o celular se escondeu num bolso interno, a carteira caiu atrás da minha calça de ensaio) sou tomado por uma continuação do pânico muito mais aflitiva. Agora eu realmente estou f****** e mal pago!

Então, contato! Acho com o tato ou avisto o objeto perdido. Um alivio que vem é tão indescritível que seria obrigado a passar dois anos e meio escrevendo todo dia para tentar descrevê-lo aqui. E qual a primeira coisa que me ocorre na mente depois do alivio? Se pensou em “melhor devolver-lo(s) aos bolsos” o leitor terá acertado.

Sempre que vou ao teatro, seja como profissional seja como espetáculo, estou aberto a uma dimensão do humano que não posso estar nunca, como amante da arte, estar fechado. Como diria o letreiro dos Bombeiros “nada do que é humano nos é indiferente”. Sinto que nessa minha pequena, mas sufocante neurose me aproximo para tentar entender uma pessoa que tem realmente um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Se para mim isso pode ser um pequeno drama, imagine para quem precisa verificar MIL VEZES se as coisas estão dentro dos bolsos certos?

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Falar de uma síndrome e visualizar o drama da pessoa é um exercício que interioriza, mas quem sabe tratar a coisa com humor torne-a ainda mais humana? Não sei, tenho lá minhas duvidas, mas é Isso que a comédia TOC TOC se propõe a fazer.

Em cartaz com quatro apresentações semanais no Teatro do Leblon – Sala Marília Pêra, no Rio de Janeiro até 31 de maio de 2009, a despretensiosa peça do francês Laurent Baffie traz um jogo de mostra/esconde delicioso, traduzida (e porque não adaptada para o Brasil) porá Clara Carvalho e dirigida por Alexandre Reinecke com um elenco super divertido e muito sincronizado, entre as atrizes Marcia Cabrita e Angela Barros, os atores Marat Descartes, Riba Carlovich, Sergio Guizé mas meu destaque vai para a Flavia Garrafa no papel de Lili que utiliza uma das mais antigas ferramentas da comédia, a repetição, com uma propriedade magistral. Mais do que qualquer outro, ela realiza com perfeição na mera ação o fato que a comédia não se dá quando se tenta fazer graça, mas quando se empenha de verdade em realizar uma ação que, naquela circunstância, se torna cômica. Ela vive o seu drama e que de fato, e transforma esse sofrimento (como meu pânico com celular e carteira) engraçado.

“TOC TOC”
TEATRO DO LEBLON – SALA MARÍLIA PÊRA
Rua Conde de Bernadote, 26 lj 104 – Leblon
Telefone para contato: (21) 2529-7700
Quintas, Sextas e Sábados às 21h e Domingos às 20h.
PREÇOS: Quinta-feira: R$ 60,00/ Sexta e domingo: R$ 70,00 / Sábado: R$ 80,00
50% estudantes, aposentados e idosos
Gênero: Comédia
Duração: 90 minutos
Lugares: 472 lugares
TEMPORADA ATÉ 31 DE MAIO DE 2009
Estacionamento: entrada pela Rua Conde de Bernadotte e pela R. Adalberto Ferreira
Possui ar condicionado e acesso para deficientes
Censura: 12 anos
Televendas: Vendas por Telefone (21) 2529 7700 ou pelo site: www.ingresso.com
Bilheteria: Terça a domingo, a partir das 15h.

  • O anúncia da peça na tv tem um comentário desnecessário e que só alimenta bairrismos e rivalidade…

    “ate paulista achou graça…” achei de um tremendo mal gosto… tudo bem que é totalmente popular falar mal de paulistas no Rio, mas poderiam ter aproveitado o espaço para divulgação de outra forma, afinal os poucos minutos na tv em horário nobre devem ter um valor elevado…

  • O anúncio da peça na tv tem um comentário desnecessário e que só alimenta bairrismo e rivalidade…

    “ate paulista achou graça…” achei de um tremendo mal gosto… tudo bem que é totalmente popular falar mal de paulistas no Rio, mas poderiam ter aproveitado o espaço para divulgação de outra forma, afinal os poucos minutos na tv em horário nobre devem ter um valor elevado…

  • Nossa eu ri só com o comercial, imagina a peça ao vivo.
    Deve ser ótima!
    O Rio merece peças assim de qualidade.
    Só achei o preço meio salgado, mas vai valer a pena conferir!

  • O comentário do anúncio na TV não foi pra criticar os paulistas, só ressalta que eles, por sua vez, não têm o senso de humor tão elevado quanto nós, cariocas e, mesmo assim, acharam graça. Ou seja, foi simplesmente para enriquecer o nível de comédia da peça e não para ridicularizar os paulistas como foi interpretado pelo nosso colega.

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