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Sai em DVD filme raro de George Romero

Começo de carreira acidentado

Após realizar A Noite dos Mortos Vivos, o filme que revolucionou o cinema de terror no fim da década de 1960, George Romero recebeu de Hollywood várias ofertas de trabalho. O que fez o jovem diretor? Recusou todas as propostas e se aventurou na direção de There´s Always Vanilla, uma comédia romântica! Produzido com orçamento baixíssimo, o filme foi lançado em 1971 e se tornou um completo fracasso de bilheteria. É considerado, pelo próprio diretor, o pior filme de sua carreira.

Por mais estranho que pareça, Romero recusou as propostas de Hollywood porque não desejava fazer apenas filmes de terror. Na época, fins dos anos 1960, o gênero era sinônimo de cinema barato, pobre tanto no sentido financeiro como artístico. Romero tinha ampla formação cultural e não queria ficar preso a um gênero.

Ainda em 1971, Romero dirigiu outro filme de baixo orçamento, Season of the Witch, sobre uma mulher que se envolve com bruxaria. Também não era um filme de terror, mas uma mistura de drama e suspense sobrenatural. Lento e com péssimas atuações, desagradou o público e não deu lucro.

Crazies

O projeto seguinte de Romero era adaptar um roteiro sobre uma cidade que é acidentalmente atingida por uma arma biológica. Os habitantes contaminados por essa arma começam a agir de modo insano. Após uma série de incidentes violentos, o exército cerca a cidade e coloca sua população em quarentena. Os moradores da cidade entram em conflito com os soldados, e alguns tentam fugir do cerco militar.

O produtor pediu que Romero reescrevesse o roteiro original, acrescentando mais cenas de ação e violência. Em troca ofereceu um orçamento de quase trezentos mil dólares, pouco para os padrões norte-americanos, mas aproximadamente o dobro do que o diretor gastara em seu último filme.

Romero aceitou, as filmagens duraram pouco mais de um mês, e o filme foi lançado em 1973 com o título Crazies. Era o quarto longa-metragem dirigido por ele, e se tornou seu terceiro fracasso comercial consecutivo. Por pouco não foi o fim da carreira do diretor, que só voltaria a dirigir um longa-metragem em 1976.

Soldados Zumbis

Embora seja uma obra menor de George Romero, Crazies é um capítulo curioso e pouco conhecido de sua carreira. Muito irregular, o filme é um conjunto de idéias interessantes mal costuradas. Os efeitos especiais parecem amadores, mesmo para o padrão da época, e a trilha sonora é irritante, mas o pior certamente é a montagem, que retalha as cenas com cortes abruptos. Tudo é mostrado tão rapidamente que fica difícil se envolver com o enredo e os personagens.

O que o filme apresenta de mais instigante é a sugestão de que seria difícil diferenciar quem foi contaminado e, conseqüentemente enlouqueceu, de quem permanece são. Mas o diretor não leva essa idéia muito longe. Sempre que um personagem é contaminado pela arma biológica, percebemos em pouco tempo.

Não há quase nada da violência “gore” que aparecia em seu filme de estréia e marcaria suas obras posteriores. As seqüências que ficam na memória são as que incomodam pelo seu realismo, como a terrível cena de incesto; ou as de humor negro, como quando a senhora de aparência inofensiva ataca um soldado usando como arma suas agulhas de crochê. Em outra ótima seqüência, uma mulher segurando uma vassoura surge em uma colina, no meio de um feroz tiroteio, e age tranquilamente, como se estivesse varrendo sua casa.

O que funciona bem no filme é seu caráter anti-militar. Com o desenrolar da trama percebemos que os verdadeiros monstros desta história não são os soldados, disparando contra inocentes ou contra seus próprios companheiros. A alegoria à atuação americana na Guerra do Vietnam é clara. Os militares são os responsáveis pela contaminação da população e são incapazes de conter a epidemia, mentem para encobrir seus erros e parecem dispostos a exterminar uma cidade inteira sem piedade. Numa das melhores cenas do filme, os soldados roubam dinheiro das carteiras dos mortos que estão sendo jogados em uma vala. Pode não ser original, mas é uma imagem assustadora e atual. Romero, mestre dos filmes de zumbis, faz em Crazies uma variação do tema. Os zumbis não são os sujeitos vitimados pela terrível doença contagiosa, mas os militares treinados para matar sem compaixão.

Ao mesmo tempo em que estréia nos cinemas a refilmagem de Crazies, o original de 1973 está sendo lançado no Brasil em DVD, com o título Exército de Extermínio. Vai divertir os aficionados por filmes B e os fãs de George Romero, mas seria muito mais interessante se a edição brasileira, a exemplo das edições norte-americanas, trouxesse como extras os comentários do diretor, ou algum documentário sobre sua carreira errática.

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