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“The Good Wife” honra a TV aberta americana

Já virou lugar comum dizer que a teledramaturgia americana vive, pelo menos nos últimos dez anos, sua era de ouro, suplantando qualitativamente o conteúdo (cada vez mais infantilizado) do cinema. De The Sopranos a The Killing, passando por Mad Man e obra-prima Damages. A TV americana é farta de bons produtos que ousam em sua forma e conceito, alicerçados por roteiros primorosos que nos dão a certeza de que os grandes talentos definitivamente migraram para a telinha.

Ainda que grande parte dos exemplos bem sucedidos dessa realidade esteja na TV paga, existem algumas boas surpresas na TV aberta também (Lost e a oscilante Desperate Housewives), e a melhor hoje em dia, desde a sua magnífica primeira temporada é, sem dúvida, The Good Wife.

Aparentemente simples em seu argumento, a série, que acompanha a história de Alicia Florrick (uma Julianna Margulies precisa e excepcional), esposa de um famoso promotor público que tem a vida exposta ao ser flagrado em adultério com prostitutas. O revés de Alicia, que é advogada, mas sem exercer há anos, é compensado com sua volta a profissão que se torna uma metáfora a seu retorno à vida. O dia-a-dia de escritório de advocacia, em seus casos diversos e o desafio de equilibrar as consonâncias da devassada vida pessoal e, agora, complexa vida profissional, dão o tom da série.

Apesar de não ser um seriado, de modo geral, episódico, o que torna The Good Wife genial é o roteiro que vai costurando os casos levantados a cada novo episódio com o jogo de politicagem das leis americanas. Não a toa a série é escrita por um casal de ex-advogados, que conhecem muito bem as diretrizes do escrevem, seja pelo lado pessoal ou pelo lado dos bastidores do mundo do direito. Mas sempre tudo muito bem escrito, e de uma forma que vicia instantaneamente.

Os personagens são tão bem construídos que todos os temas que gravitam a formatação da série tornam-se orgânicos em seus multifocos. Assim, nesta segunda temporada, a série conseguiu a difícil façanha de manter o êxito da primeira, dado o amadurecimento da história e a consolidação da complexidade de seu discurso que é o da dimensão que a figura humana pode ter em sua ambigüidade, seja ela íntima ou não.

Destaque ainda para a cada vez mais importante personagem Kalinda, vivida pela inglesa (de origem indiana) Archie Panjabi, que merecidamente levou o Emmy de atriz coadjuvante, que faz a investigadora do escritório de advocacia, mas de uma forma tão peculiar e bem construída que ficamos intrigados a saber aonde começa o perfil da personagem e onde termina o trabalho de composição. Sabe a Chloe da série 24 Horas? Em termos de definição, é bem por aí…

Para quem não viu, fica a recomendação. Pois The Good Wife vai além de seu plot (ou será que a série tem produção de Ridley e Tony Scott impunemente?), nos dando uma prova de como a TV aberta dos EUA é bem servida. Como prova esse diálogo, de um dos episódios:

– Você está tomando essa decisão por puro orgulho.

– Qual o problema? Grandes pirâmides foram construídas através do orgulho.

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