Quando chegou aos cinemas em 2014, “Guardiões da Galáxia” era, sem sombra de dúvida, a aposta mais arriscada que a Marvel Studios fazia desde que resolveu adaptar os quadrinhos do Homem de Ferro em 2008. Assim como o filme que fez com que Robert Downey Jr voltasse a ser um grande astro e transformasse o ferroso e seu alterego, o bilionário Tony Stark, num herói de primeira linha, a aventura espacial comandada por uma equipe de mercenários bastante desajustada caiu no gosto do público e consagrou seu protagonista, Chris Pratt, que também entrou para o alto escalão de Hollywood, estrelando outro grande sucesso, “Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros”, e seu star power não foi afetado nem pela recepção de público e crítica abaixo do esperado por “Passageiros”, onde dividiu a cena com a vencedora do Oscar Jennifer Lawrence.

Além disso, o filme também ajudou a fortalecer o nome do pouco conhecido diretor e roteirista James Gunn, que mostrou um domínio incrível para a ação e a comédia e realizou uma obra que é o mais puro entretenimento, fortalecido com uma trilha de canções impecável, que fez muita gente sair do cinema com sorriso bem grande nos lábios. Passado o impacto inicial, a pergunta que muita gente fazia é: Será que se sair uma (óbvia) sequência, ela irá manter o nível do filme original pelo menos? Felizmente, a resposta é um sonoro “Sim”.

“Guardiões da Galáxia Vol. 2” (“Guardians of The Galaxy Vol. 2”, EUA/2017) consegue a proeza de ser tão empolgante e divertido quanto a primeira parte e, em alguns momentos, chegando até a superá-la. Ele só não é 100% melhor do que o Volume 1 por alguns pequenos detalhes. Mas o resultado é mais do que positivo e certamente vai fazer a alegria de muita gente, de qualquer idade.

Na nova aventura, o grupo liderado por Peter Quill (Chris Pratt), ou Senhor das Estrelas para os íntimos, após realizar mais uma missão, se mete numa encrenca com os seus contratantes, os Soberanos, liderados pela sacerdotisa Ayesha (Elizabeth Debicki), e passam a ter a sua cabeça a prêmio. Após uma intensa perseguição, a nave dos Guardiões é salva por Ego (Kurt Russell), que se diz o pai desaparecido de Peter.

Curioso para saber mais sobre sua origem, o mercenário decide ir ao planeta do qual Ego faz parte, junto de Gamora (Zoe Saldana) e Drax (Dave Bautista), além de Mantis (Pom Klementieff), uma empata que é uma espécie de assistente de Ego. Já Rocky (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel) acabam encontrando Yondu (Michael Rooker) e Nebulosa (Karen Gillan), dois de seus adversários do capítulo anterior que, por ironias do destino, acabam ajudando a equipe a lidar com os problemas que surgem diante deles e que podem ter graves consequências para a galáxia.

O que fica claro, logo nos primeiros minutos de “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, é que o público está diante de um filme que tem tudo que deu certo na primeira parte, mas com muito mais vigor e com questões mais aprofundadas em relação ao que foi visto, não só há três anos atrás, como também a tudo o que a Marvel Studios tinha feito até então. Aqui, James Gunn confirma que é um realizador de mão cheia, que sabe exatamente o que fazer para conquistar o espectador, seja com as brilhantes cenas de ação e batalhas espaciais, quanto também no humor, com momentos verdadeiramente hilários envolvendo todos os seus personagens principais.

O que ninguém esperava é que Gunn usaria a história para tratar de questões universais de relacionamentos, que todos irão se identificar, sejam entre pais e filhos, sejam entre irmãos ou mesmo amigos que convivem juntos por tanto tempo que, mesmo quando se desentendem ou discutem, ainda assim formam laços tão fortes que são praticamente familiares. E é essa a mensagem que o diretor quer passar: que, lá no fundo, os Guardiões da Galáxia são uma verdadeira família.

Para desenvolver essa mensagem, Gunn se vale de sua criatividade estética, já provada no primeiro “Guardiões” (e até mesmo no asqueroso terror “Seres Rastejantes”). Assim, a belíssima fotografia, assinada por Henry Braham, cria sequências belíssimas, com cores bastante intensas, especialmente às que se passam no planeta de Ego, as das batalhas espaciais ou as ambientadas no planeta dos Soberanos. Além disso, a Marvel parece que está finalmente melhorando em relação ao 3-D e o trabalho apresentado aqui é um dos melhores já feitos pelo estúdio, fazendo com que o filme seja melhor apreciado em salas que possuam esta tecnologia. Portanto, quem estiver lendo este texto e tiver um dinheiro a mais, pode ir a uma sala 3-D (ou IMAX 3-D) que não irá se arrepender.

Outro fato curioso em relação ao filme é como Gunn não se descuida e entrega aos fãs de quadrinhos elementos que, certamente, muitos jamais imaginavam ver na telona. Assim, personagens que se consagraram neste universo espacial da Marvel aparecem pela primeira vez no cinema e quem os conhece vai dar gritos de espanto e alegria. Vale ressaltar que suas aparições (umas mais longas, outras mais curtas) não estão ali apenas para alegrar parte do público, mas também para mostrar que este cosmos pode se expandir ainda mais e que não precisa, necessariamente, se conectar com os outros heróis que já estão estabelecidos no cinema (embora já se saiba que os Guardiões aparecerão nos ainda vindouros filmes dos Vingadores). De qualquer forma, é interessante saber que Gunn tem outros planos para seus personagens que são maiores do que simplesmente se conectar ao que já foi estabelecido anteriormente, o que causa uma expectativa ainda maior para o futuro.

Assim como no primeiro filme, “Guardiões da Galáxia Vol. 2” conta com uma trilha de canções impecável, que se conecta com perfeição com a trama e sendo essencial em alguns momentos cruciais do filme. Ao contrário de um certo filme da “rival” Warner/DC Comics, as músicas de artistas como George Harrison, Fleetwood Mac, Electric Light Orchestra, Sam Cooke e Cat Stevens, entre outros, entram e saem da história na duração certa colaborando para contar a narrativa e criando o efeito desejado de empatia, mesmo não contando com sua popularidade prévia ou se tornando memoráveis como “Hooked on a Feeling”, usada na primeira parte. Ainda assim, o efeito obtido é nada menos do que sensacional.

Mas há alguns poréns em “Guardiões da Galáxia Vol. 2” que o deixam levemente inferior ao filme original. Um deles está em seu ritmo menos equilibrado, onde algumas cenas parecem um pouco estendidas demais se comparadas com outras, principalmente na parte inicial da trama. Além disso, há momentos que podem deixar o espectador um pouco impaciente por não haver uma resolução mais rápida se comparada com outras sequências. Porém, mesmo assim, a diversão está garantida.

Entre os Guardiões, o destaque positivo vai para Dave Bautista, que mostrou uma grande evolução como ator e está ainda mais divertido como Drax. Chris Pratt ainda mantém seu carisma nas alturas com seu jeito heroico e, ao mesmo tempo, debochado, conquistando o público, especialmente nas cenas com Zoe Saldana, com quem mostra uma ótima química. Saldana, aliás, também se sai bem nas cenas dramáticas, especialmente com Karen Gillan, quando as personagens precisam acertar as contas com seus passados. Bradley Cooper demonstra estar bem à vontade como a voz de Rocky e Vin Diesel, mesmo dizendo apenas uma frase o tempo todo, ajuda a tornar o Baby Groot cativante e um dos personagens mais memoráveis do filme.

Outro destaque no elenco é a participação de Kurt Russell, que pinta e borda como Ego e cria uma personalidade magnética para o pai do Senhor das Estrelas. Quem aproveita muito bem a chance de brilhar no filme é Michael Rooker, já que Yondu tem muito mais destaque nesta continuação. O ator brilha com o jeito meio durão e rabugento de seu personagem e tem ótimos momentos ao lado de Rocky e Baby Groot.

Pom Klementieff também é uma ótima adição à produção e dá o tom certo de ingenuidade para Mantis, além de ter momentos verdadeiramente hilários com Bautista. Já Sylvester Stallone não tem muito o que fazer como Stakar, integrante dos Ravagers que tem algumas desavenças com uma certa pessoa, e sua participação fica mais como curiosidade. Revelar mais pode estragar a surpresa.

Ao fim de “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, fica a certeza de que Gunn sabe, como poucos atualmente, que para fazer verdadeiros arrasa-quarteirão, é preciso, além de efeitos especiais e cenas de ação sensacionais, ter um verdadeiro amor pelos seus personagens e criar uma emoção genuína, que gera empatia com o seu público.

“Logan” e “Velozes e Furiosos 8” foram dois blockbusters que trataram de questões familiares em suas tramas. Mas é a nova aventura da Marvel que lida com o assunto de maneira mais criativa, divertida e tocante até agora e isso é um de seus maiores méritos. Vale curtir cada momento do filme, até mesmo após seu término para ver as CINCO cenas pós-créditos que mostram os caminhos que o Senhor das Estrelas e a sua trupe podem seguir em suas próximas aventuras neste universo que parece não ter mais limites. Sempre, é claro, ao som de muita (boa) música pop.

Filme: “Guardiões da Galáxia Vol. 2” (Guardians of The Galaxy Vol. 2)
Direção: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone e Kurt Russell
Gênero: Ação e Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Disney/Marvel Studios
Duração: 2h 16min
Classificação: 12 anos