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“Logan” mostra a aventura definitiva de Wolverine com muita garra

Na primeira cena de “X-Men: O Filme” (2000) em que aparece o personagem mais popular do grupo de mutantes da Marvel, o diretor Bryan Singer decidiu mostrá-lo aos poucos. Primeiro só vemos alguns detalhes, como suas costas e seus olhos, enquanto aguarda iniciar uma luta ilegal dentro de uma jaula. Mas assim que soa o gongo, o público é devidamente apresentado ao Wolverine. E, principalmente, ao praticamente desconhecido Hugh Jackman, que após derrotar seu adversário com extrema facilidade e se sentar num bar para beber e fumar um charuto, não deixa dúvidas: o personagem criado por Len Wein, Chris Claremont e Dave Cockrum havia encontrado o ator ideal para personificá-lo no cinema. Nem tanto na parte física, já que Wolverine surgiu nos quadrinhos como um homem de pequena estatura e Jackman tem 1 metro e 89 centímetros de altura. Mas foi na sua atitude nestas duas cenas que ele dissipou qualquer dúvida que o público tivesse sobre o seu talento.

A performance de Jackman (que se tornou um dos mais requisitados astros do cinema e do teatro desde então) ajudou a fazer de “X-Men: O Filme” um sucesso, gerando diversas sequências que fortaleceram uma das mais bem sucedidas franquias inspiradas em heróis dos quadrinhos. A coisa cresceu tanto que havia até quem reclamasse que Wolverine tinha mais destaque do que outros personagens, como Ciclope, Jean Grey ou Tempestade nestas continuações. Mas a verdade é que, sem a presença de Jackman, seria mais difícil a série de filmes conquistar tantos fãs pelo planeta.

Tanto que o invocado mutante ganhou dois filmes solo em 2009 (“X-Men Origens: Wolverine”) e em 2013 (“Wolverine: Imortal”), que arrecadaram bastante na boca da bilheteria, embora não tenham sido unanimidade entre os fãs e os críticos. Só que, felizmente, deixaram o melhor para o final, e fizeram um filme que faz jus ao herói com “Logan” (“Logan”, 2017). Aqui, não há concessões para a violência, com sequências com bastante sangue e membros decepados. Mas também há uma maior preocupação em desenvolver melhor os personagens, numa obra bem mais séria do que as que têm surgido no gênero nos últimos anos, que vai fazer muita gente ficar impressionada com o resultado obtido neste que é, com certeza, um dos melhores desfechos criados para um anti-herói tão cultuado no universo pop.

De acordo com a trama, em 2029 a maioria dos mutantes estará extinta. Boa parte dos X-Men já terão morrido e apenas alguns poucos sobreviverão. Como Logan (Hugh Jackman), que deixará tudo para trás e passa a viver na fronteira dos Estados Unidos com o México e trabalha como motorista de limusines, com o nome de James Howlett (seu verdadeiro nome nos quadrinhos). Ele também cuida de um nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart), que apresenta alguns problemas de saúde e mentais, ao lado de Caliban (Stephen Merchant), também mutante, e faz o possível para que ninguém descubra o seu paradeiro. Mas um dia, Logan conhece uma menina chamada Laura (Dafne Keen), que possui certas semelhanças com ele, e está sendo perseguida por uma força especial liderada por Donald Pierce (Boyd Holbrook). Caberá a Logan e Xavier proteger a garota e levá-la para um lugar chamado Eden, antes que seus captores a peguem.

Com o sucesso de “Deadpool”, a Fox constatou que era possível, sim, fazer filmes com personagens de quadrinhos que não precisassem se preocupar com a censura, levando-os a um nível bem mais adulto e sem amarras. Por isso, deu o sinal verde para que “Logan” fosse realizado de uma maneira que nunca tinha sido feita até então para aquele que se considera “o melhor naquilo que faz”.

A decisão não poderia ser a mais acertada. Com a proposta de criar a última aventura de Wolverine estrelada por Jackman, o diretor James Mangold, que já tinha comandado “Wolverine: Imortal”, realizou na verdade um faroeste moderno dramático que, por acaso, é estrelado por um (anti) super-herói. Assim, Mangold explora a ferocidade e a selvageria de Logan do jeito que os fãs do personagem conhecem muito bem, mas que nunca tinham sido vistas no cinema. Por isso, o cineasta realiza sequências bastante ágeis, intensas e, principalmente, muito violentas, não poupando ninguém da sanguinolência desatada (mas necessária), que vai deixar muita gente vibrando no escurinho do cinema.

Outro mérito de “Logan” está no seu roteiro – levemente (e bota levemente nisso) inspirado em sagas como “O Velho Logan”, de Mark Millar, assinado por Mangold, Michael Green e Scott Frank – que trabalha as relações entre os personagens de uma forma bem mais profunda do que é visto na maioria dos filmes de super-heróis, especialmente nas cenas entre Logan e Laura, que embora tenham várias semelhanças entre si, não conseguem se entender. Essas sequências são realizadas no tom certo, sem sentimentalismo barato, que comprometeria o resultado final.

Além disso, o texto tem uma grande sacada ao inserir uma cena do clássico “Os Brutos Também Amam” na trama, que se torna essencial para entendermos a dinâmica de seu protagonista, que aqui surge como uma espécie de cowboy relutante, mas que usa garras de Adamantium (metal indestrutível criado nos quadrinhos, para quem não sabe) no lugar de pistolas. O único porém do roteiro (que retrabalha algumas ideias de outros filmes da série, até mesmo os menos apreciados, como “Origens” e “X-Men: O Confronto Final”) é que a trama parece usar vários elementos do sensacional “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón. Mesmo assim, o resultado obtido pelos autores fica bem acima da média.

Vale destacar também a bela fotografia de John Mathieson, especialmente na parte inicial com planos gerais bem amplos para mostrar a desolação da região onde Logan, Xavier e Caliban se escondem na fronteira mexicana. Aliás, foi um grande achado da produção usar uma torre de água caída como um abrigo improvisado para o Professor X. Outro aspecto técnico que salta aos olhos é a perfeita maquiagem que transforma Patrick Stewart num velho decrépito, além de tornar convincentes as feridas acumuladas pelo corpo de Logan. Pode ser que ela seja lembrada para o Oscar de 2018. E isso seria ótimo.

Stewart, aliás, entrega mais uma ótima performance como o ex-líder dos X-Men, que vive atormentado por seus demônios internos, e acredita que o surgimento de Laura pode ser a esperança de dias melhores que ele tanto deseja, mesmo com o gênio agressivo da menina. Falando em Laura, a novata Dafne Keen rouba a cena com uma interpretação excelente de uma criança que não foi criada para ser nada mais do que uma máquina de matar infantil. A jovem atriz usa muito bem os olhos para mostrar o que a personagem está sentindo na tela e mostra uma química incrível com os seus parceiros de elenco. Se ela for bem orientada, tem tudo para se tornar uma grande estrela num futuro não muito distante. Já Boyd Holbrook, visto na série “Narcos”, faz o vilanesco Pierce de forma correta, mas quase escorrega na caricatura.

E o que dizer da atuação de Hugh Jackman? O ator reforça, aqui, que ainda não surgiu alguém para interpretar o Wolverine tão bem quanto ele, que passa bem o peso nas costas do personagem, após anos de combates e já sentindo que seu fator de cura não é mais o mesmo, fazendo-o sangrar e sentir os efeitos de seus ferimentos com mais intensidade. Além disso, o astro transmite de forma verossímil toda a dor e desolação que Wolverine passou a viver depois de um certo momento na vida e que só busca, na verdade, por um pouco de sossego, físico e mental, mesmo que não queiram deixá-lo em paz.

Com um incrível e emocionante desfecho, “Logan” marca a despedida em grande estilo de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato. Se você estiver no cinema e tiver vontade de chorar, ou ouvir gente soluçando na sala de projeção, não se assuste. Afinal, foram 17 anos em que o público vibrou e torceu com a sua presença em aventuras ao lado dos X-Men, mas também sozinho. Pode ser que o Wolverine volte nos próximos anos. Mas com certeza não será a mesma coisa. De qualquer maneira, foi bom enquanto durou. Muito obrigado, Jackman, por deixar a sua marca. Certamente sentiremos a sua falta.

Filme: “Logan” (Logan)
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Hollbrook, Dafne Keen
Gênero: Ação, Drama, Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Fox
Duração: 2h 17 min
Classificação: 16 anos

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Publicado por Célio Silva

Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.

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