Todo mundo sabe que o escritor Julio Cortazar declamou o conto como luta de boxe onde se ganha por nocaute. Faz parte da estratégia de cada um escrever sua mão numa sentença de um gancho bem dado e botar o oponente já na lona, ou vencer através de pontos num exercício bem calculado de vantagens.

O conto quando é escrito tanto se pode vê-lo pelos pontos vencidos, ou por nocaute técnico, que é o que os executores do micro-conto precisam realizar num fim da luta ops! no fim do texto-lona. Reversão de expectativa é o que ocasiona ao leitor quando lê um livro inteiro destes contos curtos e concentrados na atenção de vencer o leitor no quesito surpresa.

A escritora Alê Motta fez muito bem na hora de ir para aquela zona da luta onde uma rapidez de raciocínio junto à agilidade verbal da linguagem fazem do texto ou conto uma reviravolta, sem retorno, no caminho que a narrativa vinha tendo. O nome do livro da autora ainda tematiza tal manobra: “Interrompidos” (editora Reformatório). Aqui vemos que interromper não é só frear uma ação em curso. Sanar a ação ao estado de repouso. Não. É também,  modificar este estado da ação, transforma-lo em outra situação diferente. Ou ver a lógica dela por um ótica totalmente surpreendente. (Ver com outros olhos).

Em cada conto o transcurso do enredo segue fluidamente até certa abertura na estrada onde há uma cratera a significar. Nela, vemos que ao sair do buraco a história já é outra.  Se a temperatura é fria, fica quente. Se a vida transcorre sossegadamente há um ruptura da própria em face da morte. E há sempre por parte da escritora uma veia de humor negro que sai através do corte da escrita bem cinematográfica para desfigurar a noção de conforto do leitor na leitura. Há nela uma infinita variedade de situações limites que vão se esmiuçando ou ruindo com o decorrer da ação dos contos. Cenas do cotidiano enclaves afetivos e familiares tudo vai mudando o eixo quando levamos aquele baita soco, no caso leitor, aqui não é no estômago, é no cérebro.