Quando a neozelandesa Lorde estourou há quatro anos com o hit ‘Royals’ todos se surpreenderam de se tratar de uma menina de apenas 17 anos. Afinal de contas, espera-se que adolescentes cantem sobre temas tolinhos como festas e paqueras e não sobre os párias da sociedade que andam na contramão do que se convencionou chamar de sucesso. E o mais incrível ainda: ela era a compositora de todas as canções do álbum que tinha o provocativo título “Pure Heroine”. O tempo passou, a adolescente agora é maior de idade e está lançando seu novo trabalho, “Melodrama” (Universal Music, 2017). E para quem achava que o disco anterior era sorte de principiante, esse aqui é tão bom quanto se não melhor.

A maturidade fez bem e a cantora dá um passo à frente, ao contrário do que fizera a promissora Meghan Trainor, que preferiu se curvar diante dos apelos do esquemão da indústria fonográfica. Lorde surfa nas mesmas ondas de cantoras representativas da cena atual, como St. Vincent e Goldfrapp. “Melodrama” é um disco sofisticado, recheado de matizes que se alternam muitas vezes dentro da mesma faixa.

As duas primeiras canções, ‘Green Light’ e ‘Sober’, servem como um perfeito cartão de visitas dessa versão amadurecida da cantora. Pode-se adiantar que ‘The Louvre’ é a mais inspirada do álbum, e vem justamente entre as duas menos inspiradas (mas não ruins), ‘Homemade Dynamite’ e ‘Liability’ (que forma suíte com a penúltima faixa). ‘Hardfeelings/ Loveless’ se inicia com uma batida e estalos que remetem imediatamente a ‘Royals’. Mas não chega a ser um caso explícito de repetição de fórmula. A música tem personalidade própria, apesar de algumas estruturas similares às do grande hit da cantora.

‘Sober II (Melodrama)’ é um exemplo de como um single pode ganhar mais brilho quando inserido no álbum. Quando foi lançada isoladamente, a música não chamava muita atenção, mas no âmbito do álbum (sim, esse conceito coeso ainda é relevante) ganha um outro tom. ‘Writer in the Dark’ e ‘Supercut’ retomam a face mais pop desse trabalho, junto com a faixa que encerra o disco, ‘Perfect Places’. O que não quer dizer que sejam composições pobres ou sem personalidade. Lorde mostra em “Melodrama” que a música pop na acepção literal ainda não se exauriu como muitos pensam. Com uma bela produção, personalidade e pitadas de ousadia é possível fazer algo relevante e até inovador na seara pop. Basta ter um pouco de coragem.