em

Um Dia de Cada Vez: a melhor série escondida na Netflix

Entrar na Netflix despretensiosamente para escolher na hora o que assistir pode se tornar uma aventura. São muitos títulos à disposição, de maneira que alguns dos melhores acabam ficando escondidos e não ganhando a merecida atenção e audiência. Sim, todos sabem que existem séries originais badaladas como Stranger Things, The Crown, Black Mirror e Narcos. Mas quem não conhece Um Dia de Cada Vez (One Day at a Time no original) não sabe a preciosidade que está perdendo.

A série é um reboot de outra série de mesmo nome, que teve nove temporadas entre 1975 e 1984. Reboot é bem diferente de remake: o remake tende a ser mais fiel ao original, enquanto o reboot pega apenas a ideia inicial e a transforma em algo completamente novo. E é este toque de modernidade que faz Um Dia de Cada Vez funcionar. Talvez não seja o suficiente para que a nova série seja tão longeva quanto a antiga, mas é o segredo para que ela seja mais memorável.

A série original apresentava uma família de origem cubana vivendo nos Estados Unidos. Eram uma mãe divorciada e duas filhas, sempre amparadas pelo zelador do prédio onde moravam. Hoje, quarenta anos depois, tudo mudou, do papel da mulher na sociedade à constituição familiar.

A série da Netflix conta a história de Penélope Alvarez (Justina Machado), uma enfermeira, ex-combatente do exército, divorciada e mãe de dois adolescentes, a intelectual questionadora Elena (Isabella Gomez) e o vaidoso Alex (Marcel Ruiz). Eles vivem em um apartamento com a mãe de Penélope, Lydia (Rita Moreno), que emigrou de Cuba muito jovem. Juntam-se a eles o dono do prédio, o mulherengo e atrapalhado Schneider (Todd Grinnell), e o patrão atual de Penélope, doutor Berkowitz (Stephen Tobolowsky).

A modernização da série tornou possível tratar de temas importantes como homossexualismo na adolescência, trauma de guerra e desigualdade salarial entre homens e mulheres. Colocar três gerações da família cubano-americana sob um mesmo teto deu vazão a um número de situações que vão além do choque geracional e mostram o que acontece quando visões de mundo diferentes colidem. Uma comunidade numerosa inteira – a dos latinos católicos vivendo nos Estados Unidos e seus descendentes – se viu representada e assistiu na Netflix seus dilemas do dia-a-dia, os mesmos dilemas que são muitas vezes ignorados pelo cinema tradicional, pela mídia de um modo geral e, mais do que nunca, por seus governantes.

Os veteranos Rita Moreno e Stephen Tobolowsky são os melhores em cena, com Rita recebendo os mais longos aplausos. É bom já avisar que Um Dia de Cada Vez conta com a infame laugh-track, que ou você ama ou você odeia. Quem se acostuma a ver outras séries do catálogo como Grace e Frankie ou mesmo Modern Family estranha as risadas no meio da nova série, e nem sempre concorda com o riso da plateia, mas é algo fácil de se acostumar.

Prepare-se para uma montanha-russa de emoções enquanto assiste a Um Dia de Cada Vez. É predominantemente comédia, mas com alguns momentos de partir o coração, que lhe darão vontade de comer uma barra de chocolate inteira para esquecer a bad ou ligar para seu parente mais próximo para dizer a ele quanto você o ama. A constituição das famílias pode mudar, mas o amor envolvido não muda nunca. É isso que Um Dia de Cada Vez nos mostra em cada um de seus episódios.

Deixe uma resposta

Publicado por Letícia Magalhães

Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Desde cedo mostrou interesse pela escrita, ganhado cinco vezes consecutivas o concurso de poesia de sua escola, tendo seus trabalhos publicados em antologia. É também ganhadora do concurso da Câmara Municipal de Poços de Caldas, edição 2010. Atualmente mantém o blog Crítica Retrô, sobre cinema clássico, e escreve para os sites Leia Literatura, Filmes e Games, Os Cinéfilos e Antes que Ordinárias.

Excepcional, “Moonlight” é de uma verdade que poucas vezes o cinema absorveu tão bem

As apostas e os esnobados do Oscar 2017 no Outcast #8!