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Entrevista com a escritora Cristina Judar

Cristina Judar é escritora e jornalista, mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014.

Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética Questions for a Live Writing e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos de várias partes do mundo. Em entrevista à Revista Ambrosia, a autora falou sobre linguagem e como o ambiente urbano inspira sua escrita.

Ambrosia: Seu livro “Roteiros para uma vida curta” tem um formato mais solto de que os contos ditos “fechados”. Que outras linguagens você trouxe para escrever as narrações do Roteiro?

Cristina Judar: Sim, os formatos dos textos presentes no livro desafiam fronteiras, parâmetros classificatórios, o que envolve uma série de prazeres, visões, dores e riscos, tanto para mim quanto para o leitor (risos). Há trechos de prosa poética, de roteiro-script e marcações de cena, assim como diálogos e fluxos de consciência. Nas páginas de “Roteiros” há boas doses de experimentalismo, há saltos no abismo, embora também estejam presentes contos em formatos mais tradicionais, como é o caso de “Blue Train” e, principalmente, de “Nada originais”, que eu considero o mais “ortodoxo” de todos. Gosto de respeitar as convenções, e, ao mesmo tempo, ver o que dá ao tentar subvertê-las. Pelo que tenho recebido de retorno, desde o lançamento, o livro surpreende pelos climas, pela voracidade das cenas e desfechos, o que, ao meu ver, é ótimo, pois meu maior receio era não ser compreendida em minhas escolhas. Mas acredito ter conseguido transmitir o que eu queria.

  • Você estabelece uma semântica cinematográfica na construção tanto da linguagem quanto na forma do texto. O quanto cinema é importante para você ao usá-lo na sintaxe do seu livro? 
    CJ: Embora eu tenha noção desse aspecto “cinematográfico” do livro, ele não foi criado exclusivamente com esse fim. Isso aconteceu de forma natural, durante o próprio processo de escrita. Muitas das histórias nele presentes nasceram como cenas bem marcadas no meu imaginário, como filmes curtos ou cenas, e, assim que comecei a escrevê-los, essa característica permaneceu (e eu fiz questão de preservá-la). Particularmente, gosto muito desse aspecto de fusão de linguagens e, principalmente, do que isso acarreta na mente e na percepção das pessoas durante a leitura. De alguma forma, o leitor não é visto como alguém que tem acesso a apenas uma parte (a final) da criação literária, ele acaba sendo envolvido no meu próprio processo criativo, que, desde o início, também foi repleto de imagens. Por essa razão, preservar essas características no texto foi algo tão importante. Fico satisfeita em ter alcançado isso.
  • A solidão nos centros urbanos é um tema que perpassa os seus contos. O que uma cidade como São Paulo pode influenciar na sua criação como autora? A cidade é ainda uma imagem forte para um escritor? 
    CJ: Sou uma andarilha inveterada. Nunca tive carro e não tenho vontade de ter um. Essa informação pode parecer dispensável para a sua pergunta, mas a experiência da cidade para quem anda a pé e tem interesse em senti-la em vários níveis é, obviamente, diferente da daqueles que só passam por ela para ir de um ponto a outro, trancados em um automóvel. Por isso eu posso dizer que a cidade é, com certeza, um estímulo importante para a minha criação. A arquitetura, as ruas, a crueza e a beleza do que é cinza e considerado feio e decadente – como o centro de São Paulo, uma das regiões mais ricas em informações, história e estímulos de todos os tipos, e onde vivi passagens importantes da minha vida – são meus cenários preferidos para observações, pesquisas de campo, fabulações e jornadas interiores que resultam, de uma forma ou de outra, em literatura e, por sua vez, inspiraram vários contos do “Roteiros”.

É vida que passa pelos meus poros e precisa ser transformada em arte, algo diferente do que seria apenas uma análise plástica de quem observa as ruas sem “vivê-las”. Grande parte do que envolve a sobrevivência nos centros urbanos está, de alguma forma, presente naquilo que escrevo, eu fiz isso em 2015, em Londres, quando criei o projeto de prosa poética “Questions for a Live Writing” (http://www.archiveofthenow.org/pages/cristina-veiga-judar-questions-for-a-live-writing/) – eu abordava pessoas nas ruas, fazia perguntas pouco convencionais e, depois de receber suas respostas e conhecer a forma como cada um se relacionava com a cidade, criava meus textos ficcionais.

Ainda quero inventar muita coisa baseada no ambiente urbano e nas cidades. Inclusive, o livro que vou lançar esse ano, o romance “Oito do sete”, tem um capítulo inteiro dedicado à cidade de Roma, que surge personificada; ela pensa, fala e sente como uma mulher ancestral, pisada e abusada por séculos. Para que eu conseguisse dar voz à ela, dei um jeito de partir pra Roma, andei horas a fio por suas ruas, visitei ruínas e mantive as antenas ligadas pra captar o máximo de informações sobre a velha senhora que é aquela cidade. A propósito, Roma não fala… ela grita!

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