Capa2
AcervoCríticasListas

Livro "Sobre nossas línguas a carne das palavras" dá corpo e densidade ao balé do poema

Se a grafia de uma palavra fosse um monstro alado ou uma mostra de uma esfera celeste onde criaturas seriam misturas de formas humanas com animais, expressando tanto o desejo de um corpo talvez até não binário contendo o masculino e o feminino. Formas animais são mais soltas quanto à uma estética aérea, polimórfica. O movimento de cada ser, obedece a sua forma no espaço, ao seu desenho no ar e no movimento do espaço onde ele habita.
Palavras ganham corpo, densidades, têmperas, quando expressadas no balé de um poema, numa reunião de temas e estilos num congresso de palavras reunidas para conto. O escritor Vitor Ramil expressou esta organicidade espacial das palavras no seu belo A primavera da Pontuação, em que os sinais gráficos como ponto, vírgulas ganhavam uma corporeidade muito típica de uma família envolvida na Primavera de 2013 e suas manifestações políticas pela cidade.
Vejo no livro da poeta Beatriz Bajo, em seu último livro “Sobre nossas línguas a carne das palavras”, (editora Patuá) Esta mesmo posição icônica com relação ao uso maleável e até dançante do aparato vocabular quando trabalhado em formas artísticas como no teatro, poesia e cinema.
Artes que visualizam o corpo grávido-gráfico das palavras naquilo que podem ser sua miscigenação, quando há relações cópulas aglutinações e até antropofagia, canibal. A poeta não expressa em seus poemas algum lugar onde se tematize algo. Toda tapeçaria verbal de Beatriz, passa pela morfologia de certas aliterações e assonâncias que são muito bem exploradas em versos numa mesma linha ou na linha seguinte criando um balé de tornos e contornos musicais e ritmados.
Há também uma procura por palavras que não expressem um uso vocabular tão cotidiano, clepsidra, interstícios. São morfemas bailarinos, que expressam a função estética da linguagem, colocando a força cognitiva do poema em forma, não passiva, afetante. Aqui neste livro a carne não apodrece pelo efeito da leitura deslizante do leitor, que bagunça o próprio sentido e entendimento do que lê. A página: a malha branca do pergaminho vira palco a torvelinhos; quedas de som e mudo sentido do corpo gramático do poema.

Deixe um comentário

Sugeridos
45501d63edccb559a903d7ed697a4b4dbee5ac0ab90ac362e243eab971cdfc54
CríticasGames

Heroes of Mount Dragon: competente, mas o repertório de golpes deixa a desejar

Beat ‘em up de rolagem lateral nunca sai de moda, e Heroes...

E304db077bc8cea27c3cf049d36c193f6f87d6889219811637db5a877d2dc0d3
CríticasGames

NetherWorld: humor ácido, mas a água-viva anda devagar demais

Nem todo jogo indie quer agradar todo mundo, e NetherWorld deixa isso...

Breaking Bad
ListasSériesTV

As melhores séries do século 21 pelo NYT

O The New York Times conduziu uma votação com mais de 500...

Os livros marcantes de Zuenir Ventura
ListasLiteratura

Os livros marcantes de Zuenir Ventura

Ao longo de sua trajetória como jornalista e escritor, Zuenir Ventura (1931–2026)...

Nosso Segredo Cinema Filme BSBArt 2 1024x549
CríticasFilmes

Nosso Segredo: A Materialização do Luto e a Casa-Quilombo de Grace Passô

Duas décadas após transformar o teatro brasileiro com a peça Amores Surdos,...

Coyote vs. acme
CríticasFilmes

‘Coyote vs. Acme’ é sagaz na proposta e no desenvolvimento

Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que...

Dolly Parton and Sylvester Stallone
AstrosFilmesListasMúsica

Dolly Parton e Suas Parcerias Mais Inusitadas

De duetos com os Beatles e Sylvester Stallone a participações em comédias...

Gaivota 24 JoaoGabrielMonteiro
CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...