Demorou bastante para que Bruce Springsteen liberasse uma adaptação cinematográfica de sua vida. “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” mostra um visível interesse na temporada de premiações, sobretudo o Oscar, a exemplo de “Um Completo Desconhecido”, que contava a vida de Bob Dylan, com interpretação de Timothée Chalamet. O motivo por que Springsteen finalmente permitiu que alguém contasse sua história certamente reside no fato de quem estaria à frente do projeto, no caso o cineasta Scott Cooper, que realizou “Coração Louco” e “Hostis”, filmes que tocaram bastante o “Boss”, inclusive o final do segundo o levou às lágrimas.
Diferente de muitos filmes biográficos recentes, “Springsteen” não tenta abranger toda a trajetória de seu protagonista. Em vez disso, concentra-se em um breve, porém decisivo período entre 1981 e 1982, quando Bruce Springsteen vivia o auge do sucesso com o álbum The River (1980), mas aos poucos mergulhava em um estado de introspecção e inquietação emocional, assombrado pelas lembranças de uma infância difícil. Enquanto fãs e críticos esperavam que seu próximo trabalho trouxesse mais faixas vibrantes de rock e baladas confessionais, o artista, então com 33 anos, tomou um rumo criativo totalmente inesperado. Recolheu-se ao quarto de uma casa de fazenda alugada em Colts Neck, Nova Jersey, onde gravou — completamente sozinho — a coleção crua e melancólica de dez músicas que formariam Nebraska. Springsteen costuma descrever esse álbum como sua obra mais íntima e reveladora.

Com esse formato de recorte, o diretor ganhou mais tempo para desenvolver o biografado, em particular no momento que estava passando. Ainda não era o Bruce Springsteen de “Born in the USA”, álbum que o consolidaria como grande astro dali a dois anos. Abordar esse período, inclusive, seria a escolha mais óbvia e a preferida dos executivos. Mas Cooper preferiu ouvir seu coração.
Segundo o cineasta, algumas pessoas já quiseram contar a história de “Born in the U.S.A.”, a história de “Born to Run”, mas desde o início, quando conheceu Bruce pela primeira vez, ele disse: “Bem, eu quero um filme do Scott Cooper”, e nós conversamos sobre o fato de que isso trataria de um momento muito específico e profundamente pessoal da vida dele — na verdade, apenas alguns meses. Por retratar aquela quietude, a busca, a honestidade emocional daquela fase, o projeto ganhou logo as bênçãos do biografado.
É nessa quebra de expectativa que o roteiro do próprio Scott (com base no livro “Delivery Me From Nowhere”, de Warren Zanes) se debruça para destoar de outras cinebios e adotar um tom tão íntimo e pessoal quanto o próprio álbum cuja gravação serve de fio condutor da trama. Embora não seja a história de toda uma vida, usa flashbacks para abordar a infância difícil e a relação problemática com o pai, que o forjaram.

Jeremy Allen White é um daqueles casos de ator que não tem exatamente uma semelhança física com o biografado, mas o trabalho de composição impecável tornou tudo bastante convincente. White aprendeu guitarra, gaita, canto (embora nem tudo ali seja executado por ele, e sim playback das gravações originais) e consegue reproduzir adequadamente trejeitos e maneirismos de Springsteen, abraçando o papel de forma visceral. Logo no início, com a apresentação ao vivo de ‘Born to Run’, vemos que o trabalho foi feito com esmero (e sede de Oscar). O restante do elenco também brilha como Jeremy Strong no papel do produtor musical Jon Landau, que teve um papel decisivo na carreira de Bruce, Stephen Graham como o pai Douglas Springsteen e Odessa Young, que vive Faye Romano, uma mãe solteira que tem um relacionamento com o astro. A personagem em questão é fictícia, criada a partir de várias mulheres na órbita do cantor nessa época, algo bastante comum em personagens femininas de interesse amoroso do protagonista em cinebiografias.
Por fim, “Springsteen” poderia ir até um pouco mais a fundo na abordagem. Ainda assim é uma proposta interessante de contar uma história, privilegiando os fãs do álbum e ainda oferecendo algo atrativo aos mais casuais, ou que não são fãs, mas querem acompanhar uma boa história sendo contada na tela. E é bem-sucedido.









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