Quando eu era adolescente, ser nerd significava ir bem na escola. Naquele momento surgiu um movimento de Orgulho Nerd, até com direito a jingle, culminando na instituição do Dia do Orgulho Nerd em 25 de maio. Mas naquela época o significado de nerd começou a se deturpar. Graças à sitcom The Big Bang Theory, que humanizava e popularizava um grupo de nerds, ser nerd passou a ser sinônimo de fã de quadrinhos e filmes da Marvel e da DC e colecionador de bonecos, não importa se você sequer terminou o Ensino Médio. “Cansei de ser Nerd” começa justamente com o protagonista ouvindo um episódio do Choque de Cultura debatendo a eterna polêmica Marvel versus DC enquanto mexe num boneco de sua coleção. Dali para frente, imaginei que seria só ladeira abaixo. Felizmente, fui surpreendida.
Nosso protagonista é Airton (Fernando Caruso), que vai para um acerto de contas na invenção demoníaca chamada Encontro dos Formandos do ano X. De cara, um sinal de alerta quando Airton e seu melhor amigo Ulisses (Pedro Benevides) chegam ao local da reunião, uma casa sinistra e afastada. Airton tem dois objetivos no encontro: rever a crush Juliana (Bia Guedes) e provar sua inocência num caso de desaparecimento ocorrido mais de vinte anos antes.

Airton e Juliana eram melhores amigos nerds, mas ele queria que fossem mais do que isso. Eles se desentenderam feio na adolescência, depois da formatura, e passaram anos afastados. Mesmo assim, ela age como confidente dele, mas com um pé atrás quando ele apresenta teorias estrambólicas.
Juliana diz a máxima verdadeira “quem bate, esquece; quem apanha, lembra”. Os populares também estão lá, na festa, com a banda que mantêm desde a época da escola, e ainda causando desconforto no nosso protagonista. E eles podem estar por trás do desaparecimento – sacrifício? – de Solange.
O filme não se leva a sério, e por isso nós também não devemos levá-lo. Assim como os filmes favoritos da classe que busca retratar, “Cansei de ser Nerd” usa e abusa dos efeitos especiais, que não se comparam aos das superproduções hollywoodianas, mas que divertem mesmo assim.

“Cansei de ser Nerd” traz Fernando Caruso com seu primeiro papel protagonista, e também é a estreia na direção do diretor de arte Gualter Pupo, que sobre o filme – e os nerds – comenta:
“Cansei de Ser Nerd’ fala sobre um nerd confrontando seus medos e lutando pelo que acredita, é uma comédia romântica sci-fi, que bota pra fora todas as verdades que os nerds nunca tiveram a chance de dizer. É um filme sobre os amantes do universo geek – pessoas estudiosas, curiosas e ávidas por conhecimento, apaixonadas pelo mundo da fantasia seja no cinema, nas histórias em quadrinho, na literatura ou nos games.”
O estereótipo do nerd clássico se mostra presente em algumas falas, como quando o professor diz que Airton era o primeiro da classe, com um futuro brilhante, e também quando Airton, alcoolizado, conta verdadeiras piadas nerds, que poderiam ter sido tiradas de um saudoso perfil de rede social dedicado a chistes com conteúdo intelectual.
É curioso que uma trama quase apocalíptica seja usada num filme que chega aos cinemas menos de dois meses antes da estreia no streaming de uma série spin-off de The Big Bang Theory, chamada Stuart Fails to Save the Universe, na tradução literal Stuart Falha em Salvar o Universo, essa sim apocalíptica pelo trailer já divulgado. Compartilhando do mesmo público, filme e série têm apelo para fazer sucesso. Veremos como ambos se saem.
Nerds podem ser maltratados, excluídos, sacaneados, mas no final sempre triunfam. Foi o que vimos em The Big Bang Theory. Foi o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos. Deturparam o conceito de nerd, mas fizeram com que nós, em geral invejados por nossas notas, ganhássemos protagonismo na cultura pop. Nerd também é gente. E nunca devemos parar de nos orgulhar por sermos nerds.









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