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Ridley Scott troca os monstros por um melancólico e afetuoso pós-apocalipse em ‘Ponto Sem Retorno’

Aos 88 anos e com uma carreira moldada por impérios em chamas, gladiadores ensanguentados e monstros espaciais espreitando na escuridão, podemos dizer que é no mínimo curioso Ridley Scott empreender uma reflexão suave sobre o luto. É a última pessoa de quem se esperava isso. No entanto, em Ponto Sem Retorno, o veterano diretor assina uma de suas produções mais contidas, silenciosas e (por que não?) abertamente afetuosas em décadas. Longe do frenesi de horror epidêmico de Extermínio: A Evolução ou do espetáculo visceral de The Last of Us, este drama intimista prefere examinar a poeira que baixa após o fim do mundo e as pessoas que tentam desesperadamente varrê-la.

Ambientado no ano de 2035, o filme nos apresenta a uma América devastada por uma variante letal da gripe que dizimou a maior parte da civilização anos antes. Em um aeródromo abandonado no Colorado, o mecânico Hig (Jacob Elordi) divide uma existência precária com Bangley (Josh Brolin), um militarista pragmático que encara o apocalipse com um prazer quase profissional. Enquanto Bangley vive para patrulhar o perímetro e abater invasores com frieza, Hig recusa-se a aceitar que o mundo acabou. Incapaz de superar a perda da esposa e do filho recém-nascido, ele passa os dias consertando um velho avião Cessna de quatro lugares, impulsionado por um desejo ingênuo de encontrar qualquer resquício de comunidade na cidade vizinha de Grand Junction.

É quando Hig decide voar além de seu ponto de retorno seguro que o filme encontra seu verdadeiro coração. Forçado a realizar um pouso de emergência em uma floresta remota, ele cruza o caminho de Cima (Margaret Qualley), uma viúva solitária, e de seu pai, Pops (Guy Pearce), um idoso hipervigilante que ameaça atirar no recém-chegado antes mesmo de perguntar seu nome. O encontro, no entanto, não descamba para a barbárie esperada no gênero; em vez disso, transforma-se em um terno estudo sobre a vulnerabilidade de duas almas enlutadas aprendendo a se abrir novamente.

O ponto favorável do longa reside no peso dramático carregado por seu elenco. Jacob Elordi traz uma performance de surpreendente delicadeza, despindo-se da aura de galã para dar vida a um homem que carrega a dor da perda como uma dor física constante. A dinâmica que ele estabelece com Josh Brolin — uma química ríspida, porém fraternal, entre o sobrevivente sensível e o veterano turrão — confere à primeira metade do filme uma escala humana cativante. Quando Elordi contracena com Margaret Qualley, a narrativa desacelera para dar espaço a um romance nascente tratado com paciência e até certa elegância, permitindo que a atração mútua surja do reconhecimento do trauma compartilhado. Este é o momentoem que a trama perde em ritmo, mas está coerente com a proposta do cineasta.

Infelizmente, o roteiro assinado por Mark L. Smith nem sempre demonstra a mesma delicadeza que os atores ou a direção. The Dog Stars (no original) tropeça com frequência ao cair em armadilhas e clichês batidos do cinema pós-apocalíptico. A introdução de gangues genéricas de saqueadores selvagens parece burocrática, servindo apenas para preencher uma cota artificial de ação, em um misto de Mad Max e trocentos longas de zumbis. A forma como Scott filma esses antagonistas pontuais ressuscita velhos vícios hollywoodianos de retratar grupos marginais de maneira caricata. Além disso, aparições secundárias, como a de Allison Janney como uma potencial salvadora, soam exageradas e desconectadas da atmosfera contemplativa do restante da fita.

Ainda assim, mesmo quando a execução vacila, a estética visual eleva o material. A fotografia de Erik Messerschmidt transforma o interior da Itália (que se passa pelas paisagens do Colorado) em uma vastidão melancólica. As paisagens desérticas e as florestas silenciosas não surgem como cenários de ameaça iminente, mas como um eco físico da solidão dos personagens. O maior inimigo de Hig não são os humanos que vagam pelas ruínas, mas o sentimento esmagador de ausência.

Em títulos históricos como Alien e Blade Runner, Ridley Scott frequentemente enxergava a existência sob um prisma sombrio e niilista. Contudo, assim como fez em Perdido em Marte (2015), o cineasta aqui se permite uma rara dose de fé na decência humana. Ponto Sem Retorno pode não ter o vigor de suas obras-primas do passado, ou de seu último trabalho brilhante, O Último Duelo (2021), mas encontra sua redenção ao defender, com comovente teimosia, que a empatia e a necessidade de conexão ainda são os melhores remédios para o fim de todas as coisas.

Ponto Sem Retorno

Ponto Sem Retorno
6 10 0 1
Nota: 6/10 - Bom
Nota: 6/10 - Bom
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