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Cinema em casa: “Beach Boys – Uma História de Sucesso”

Engana-se redondamente quem pensa que os maiores rivais dos Beatles eram os Rolling Stones. Eram bandas parceiras, integrantes da chamada british invasion, os caras andavam juntos, a primeira música dos Stones que não era um cover de blueseiros americanos foi “I Wanna Be Your Man”, composta por Lennon e McCartney. Apesar de todo o antagonismo alimentado pela mídia, o clima era de brodagem entre ambas as bandas.

Os verdadeiros inimigos do quarteto de Liverpool eram uns rapazes californianos que encantavam as menininhas com músicas sobre surf e praia, apesar de não saberem pegar onda. Eram os Beach Boys. O conjunto seguiu uma trajetória bem semelhante aos Beatles: álbuns pop deliciosos na primeira fase da carreira e uma ambição artística bastante acentuada posteriormente.

Essa fase mais audaciosa rendeu “Pet Sounds”, uma resposta a “Rubber Soul” dos Beatles toda criada por Brian Wilson enquanto seus companheiros estavam em turnê pelo Japão. Depois os Beatles até deram o troco com “Revolver” e “Sgt Pepper’s”, mas o estrago já estava feito.

Por conta de sua genialidade e vida conturbada, Brian Wilson sempre foi a personalidade dentro da banda a despertar maior curiosidade e agora ganha o filme “The Beach Boys: Uma História de Sucesso” (Love & Mercy, EUA/2015) que chega ao Brasil diretamente em DVD (não saiu nem em Blu Ray). O filme havia ganhado sessões no Festival do Rio do ano passado e, depois de muito adiar, decidiu-se que o lançamento se daria apenas em home vídeo.

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Não se trata de uma cinebio com fatos se sucedendo em ordem cronológica como no telefilme dos anos 90. Tampouco conta a trajetória da banda californiana como o equivocado título em português indica. Isso é resumido nos créditos iniciais, um recurso astuto que dá a contextualização até para quem não conhece a trajetória do grupo.

Aqui o foco é em cima de Brian Wilson, e temos dois momentos cruciais da vida do fundador do Beach Boys: um é período de criação de “Pet Sounds” e “Smile”, nos anos 60. O outro é a fase em que estava em acompanhamento médico e empanturrando de medicamentos nos anos 80, quando conhece Melinda Ledbetter, sua futura esposa que o ajudaria a se reerguer. Na fase jovem ele é interpretado por Paul Dano e na fase madura por John Cusack.

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O acerto do roteiro de Michael A. Lerner (de Débi & Lóide) e Oren Moverman (de 12 Anos de Escravidão, O Segredo de BrokeBack Mountain e Árvore da Vida) está em não apostar na surrada estrutura narrativa de ascensão e queda e conta a história de Brian Wilson através da justaposição de duas fases completamente opostas de sua vida: a do auge criativo com sua banda, e a do ostracismo devido a seu isolamento com uma rotina a base de remédios para amenizar os problemas psíquicos que se iniciaram ainda nos anos 60.

A dupla, porém, se equivoca ao criar como ponto de junção das duas fases da história, no final do filme, uma sequência kubrickiana, que remete a 2001, mas desnecessária. A serventia é de fazer uma breve remissão ao período em que o músico passou em cima de uma cama. Dos dois períodos retratados, o que se concentra na fase anos sessenta é de longe o mais interessante, com destaque para as cenas no estúdio de gravação de Pet Sounds, filmadas no local original. Lá, Wilson concebeu sozinho o icônico álbum colocando uma orquestra dentro de uma pequena sala de gravação e tudo foi recriado meticulosamente, com instrumentos, mesa, microfones, tudo da época.

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A parte de easter eggs está nas participações de músicos que participaram das sessões de Pet Sounds. A interpretação de Paul Dano também é mais iluminada do que de seu colega. Fisicamente idêntico ao biografado, Dano também reproduz trejeitos de forma natural e sutil que o impedem de cair na caricatura, o que acontece em alguns momentos com Cusack. Inclusive, é preciso fazer um esforço para encontrar semelhança física entre o músico e Cusack. Certamente ele está ali porque a produção achou necessário um nome popular como chamariz para o longa.

Os outros membros da banda também estão com boa caracterização e brilham apesar de serem colocados como coadjuvantes. Mas se há alguém que rouba o show é o sempre soberbo Paul Giamatti, no papel do médico oportunista que prescrevia os medicamentos de Wilson nos anos 80.

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A direção não se arrisca em ousadias, mas é extremamente cuidadosa, sobretudo em relação aos atores. Em determinada cena, Brian e Melinda estão passeando de barco e ‘Sloop John B’ está tocando no som. Brian pede para tirar e o piloto retruca dizendo: “isso é um tributo a você, Brian”. “The Beach Boys: Uma História de Sucesso” é justamente isso, um grande tributo a um dos maiores gênios da musica pop, muito mais do que uma cinebio. Vem com a intenção de ser a transposição audiovisual definitiva da vida do beach boy. Por enquanto será.

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