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Resenha: Guerra ao Terror

Eu já tinha ouvido falar desse filme já havia alguns meses, mas não tinha ido atrás, e como eu praticamente desisti de ir às locadoras de DVD por meses, não sabia que ele havia sido lançado no Brasil — desde abril de 2009, diretamente em DVD. Aluguei, assisti e hoje indico o filme “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker) da diretora Kathryn Bigelow.

Antes de falar do filme, uma nota rápida. A Imagem Filmes, responsável pela distribuição do filme, comeu bola. O filme foi lançado apenas nos EUA em junho de 2009 e aqui, apressadamente, lançado diretamente em dvd em abril de 2009. Só que, agora que o filme recebeu três indicações ao Globo de Ouro e pode ir para os indicados ao Oscar de Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado, a distribuidora resolveu lançá-lo no mercado interno no dia 05 de fevereiro de 2010. Ou seja, eles colocarão nos cinemas um filme que há quase um ano já se tem para alugar em DVD. Péssima jogada, péssima jogada.

O filme retrata o dia a dia de um grupo de soldados americanos no Iraque especializados em desarmar bombas plantadas pelos rebeldes. O nome do filme em português não retrata a realidade. Hurt Locker é o que se pode chamar de lugar em que se espera que coisas ruins possam acontecer. O Hurt Locker destes caras são as ruas do Iraque, tomadas por rebeldes que plantam bombas montadas em garagens em qualquer lugar para poder matar algumas pessoas e causar o máximo de terror às tropas americanas.

O grupo retratado no filme é composto pelo Sgt. JT Sanborn (Anthony Mackie) e o soldado especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty). Com a morte de seu comandante (interpretado por Guy Pearce) logo no começo do filme, um substituto chega para acabar de completar o restante do rodízio de 365 dias do grupo. No caso, entra o Sargento William James (Jeremy Renner), que como iremos descobrir, já viu muitas bombas e trata cada uma delas como um desafio diferente, porém, de uma forma que aparenta ser irresponsável.

Os três entram em constante atrito, porém um tem que dar cobertura para o outro em um país em que todos podem ser o inimigo, desde uma criança, até o açogueiro da esquina.

O trio de atores principais faz seu papel com maestria, especialmente Renner e Mackie. Renner é o novato no grupo, mas o mais velhos dos três, porém não tem a atitude de querer comandar, ele apenas não se vê na necessidade de ficar comunicando com os outros enquanto está tentando desarmar uma bomba sem morrer. Mackie interpreta é aquele que sempre foi o segundo em comando e quando chega a vez de comandar, não sabe o que fazer com o cara que nitidamente sabe fazer as coisas melhor do que ele. Na verdade, o filme não fica preocupado em fazer cenas de ação elaboradas ou explosões grandiosas. A sacada do filme são as relações humanas e o silêncio.

A dor de cada um deles reside na possibilidade de morrer a cada dia que estão na rua. Um dia você está ali e no outro você vira uma cratera na rua. Ainda assim, o homens vivem em prol dos seus companheiros e das pessoas que eles vieram para libertar. Este não é um filme do Rambo, o dia a dia de um soldado em um país ocupado é mais relacionado com a expectativa do que com a ação. Cada um encara isso de uma forma. E é nisso que a diretora se concentra, em mostrar o suor no rosto, as mãos tremendo após um momento de tensão, o olhar das pessoas, ou seja, vemos a alma de cada um envolvido, seja qual for o lado.

A diretora faz a escolha correta de não querer analisar os porques de estar ali e quem está certo em uma guerra que o mundo todo já se cansou e que perdeu qualquer sentido que tivesse há muito tempo. A história se foca em um grupo de homens e é isso que ela mostra. Não importa o país e a guerra. Eles estão pouco se lixando para a guerra e após certo momento, quem assiste acaba esquecendo que eles estão em uma guerra. Ainda assim, em momentos cruciais, o cinematógrafo Barry Ackroyd fez ótimas escolhas para posicionar suas câmeras, sem contar nas diversas filmagens feitas por câmeras portáteis que dão um caráter de documetário ao filme todo.

Juntamente da história do grupo principal, pequenas histórias que ocorrem ao redor deles e com eles acabam aparecendo, desde o fato de um coronel resolver sair de trás de sua mesa para enfrentar o dia a dia do grupo, até uma missão de vingança pela morte de um jovem. Não há um inimigo declaro, um vilão em específico, e é de se verificar que não há mocinhos ou heróis, o filme é tomado por tons de cinza que de vez em quando ganham cores para poder direcionar o espectador a se relacionar com alguns dos personagens. Porém, o que vemos são seres humanos e não homens ou soldados que ficam usando suas armas como instrumentos de sua masculinidade e que a cada instante podem morrer sem que sequer se saiba porque.

Ainda assim, não é uma perfeição plena, há alguns momentos que o roteiro dá uma escorregada, porém, o silêncio usado pela diretora em dados pontos é tão intoxicante que prende o espectador que fica no aguardo pela resolução daquele fato, mesmo que por minutos se veja um homem procurando fios e dispositivos, esperando que seus companheiros o protejam de um eventual atirador. A crítica contra os filmes de explosão e ação é clara nesse sentido. Não é necessário um tiroteio e um herói imbatível para se fazer um filme de guerra.

O filme tem um trio principal relativamente desconhecido (tirando Renner), porém, as participações especiais tem nomes de calibre como Guy Pearce, Evangeline Lilly (de Lost), Ralph Fiennes e David Morse. Um outro detalhe é que Kathryn Bigelow é ex-esposa de James Cameron e pode ser a primeira mulher a ganhar um prêmio de direção no Globo de Ouro e no Oscar, e em cima de seu ex-marido.

Agora é aguardar a premiação do Globo de Ouro e depois ver James Cameron tremer nas bases quando Guerra ao Terror levar tudo que puder em cima de seu Avatar.

J.R. Dib

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2 Comentários

  1. Vi hoje e gostei bastante, nem de longe merecia ganhar o Oscar sobre Up – Altas Aventuras (que considero muito melhor), mas pelo menos é muito mais interessante que Avatar.

    Acho que a diretora quis mostrar como a guerra é um equivoco e a influência disso na vida das pessoas, de uma maneira mais micro do que a mostrada geralmente nos filmes, o que é bem legal.