Em um mercado dominado por animações feitas em computação gráfica, em 3D e dirigidas ao público infanto-juvenil, é um alento termos a oportunidade de conferir obras seguindo a técnica tradicional e tendo o público adulto como alvo. Infelizmente, com exceção de uma animação francesa aqui, outra belga ali que estreiem esporadicamente no circuito, só podemos conferir esses raros exemplares em festivais como o Anima Mundi, cuja vigésima edição encerra neste domingo no Rio de Janeiro e segue para São Paulo, no dia 25.

A produção espanhola Rugas (Arrugas 2011), estampa um largo sorriso nos amantes de animação adulta tradicional, principalmente nessa época do ano em que as salas exibidoras são tomadas

por franquias como Era do Gelo e Madagascar. Trata-se de uma visão crítica em relação à crise pelo qual passa o país atualmente, porém, se nos jornais e noticiários o foco é o aumento do desemprego entre os jovens, aqui trata justamente do que acontece com os idosos depositados em asilos. Na trama dirigida por Ignácio Ferreras, baseada na obra em quadrinhos homônima de Paco Roca, Emilio é um aposentado que é colocado em um asilo pelo filho e pela nora, uma vez que a crise os obriga a se desfazerem do imóvel onde moram e a se mudarem para um menor, sem espaço para um senil senhor que em muito breve necessitará de cuidados. No asilo, Emilio divide o quarto com Miguel, um habitante antigo e pouco ortodoxo que destila veneno sem qualquer culpa. Miguel é o fio condutor crítico deste tipo de alojamento, que reflete o modo como os idosos são tratados no ocidente capitalista, onde tempo é dinheiro; não deve ser perdido cuidando de estorvo.

Se ainda existia alguma dúvida em relação à seriedade do gênero animação, com Rugas ela se encerra. Rugas, na verdade, não deveria sequer ser classificado como animação e sim como (um ótimo) drama. A direção de Ferreras é tão digna e precisa que, a partir de um momento, nos esquecemos que se trata de desenhos em ação, e não de atores de verdade, de tão bem trabalhado que é o desenvolvimento das personagens. E ainda há, como argamassa, um texto inspirado e uma edição competentíssima. O traço não é muito complexo, mas está longe de ser tosco. Ótima técnica de luz, sombreamento e composição, além de uma alta taxa de quadros por segundo.

Rugas é obrigatório simplesmente por ser o melhor trabalho de animação exibido por aqui neste ano. O filme ainda será exibido na etapa carioca do festival neste sábado, às 19 e 30, no teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil. Depois somente na etapa paulista

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